sexta-feira, 27 de junho de 2008

TARADO, EU?

Só quem já ficou, um dia, parado na Felipe Schmidt, em Florianópolis, encostado na parede, perto de algum fusca com aquelas calotas esféricas cromadas, vai saber do que estou falando. Porque houve um tempo, no século passado, em que a Felipe Schmidt era uma rua como qualquer outra, onde os carros passavam e estacionavam. E tinha calçadas, como tantas ruas. E, aí é que está a maravilha, por essas calçadas passavam alunas do colégio Coração de Jesus, com suas saias plissadas. Não sei qual foi o tarado que descobriu, mas as calotas dos fuscas refletiam muito bem. Eram bem cromadas e muitos dos donos mantinham os carros bem limpos. E vários deles estacionavam ao longo das calçadas da Felipe Schmidt.

Nos dias de vento nordeste ou de pouco vento, as calotas dos fuscas funcionavam direitinho. Ficava aquela fila de garotões encostados nas paredes da papelaria Record, ou de qualquer outra, mais adiante (o que é que era mesmo ali onde depois foi a Kilar?), até a Az de Ouro. O terminal de ônibus era no Largo Fagundes (ao lado de onde hoje é a Americanas). E elas tinham que ir pela Felipe Schmidt até ali.

Nos dias de vento sul nem precisava das calotas. A Felipe Schmidt foi cientificamente construída de tal maneira que o vento sul encana, rebate nas construções dos dois lados e forma uma corrente ascendente. Não há saia que resista. Muito menos saias plissadas. E as meninas tinham que segurar a pasta e tentar manter as saias no lugar, usando apenas duas mãos. Isso quando o vento não desmanchava os cabelos e o dilema aumentava: segurar a saia ou o cabelo?

Outro sucesso, mais ou menos nessa época, eram os DKW Vemag. Bons carros, com motor de dois tempos, abriam as portas da frente pela frente. Dá para entender melhor olhando a foto. Pois bem, tinha malandro que ficava de olho quando passava um DKW dirigido por uma mulher.
Assim que ela parasse, num posto de gasolina ou em outro lugar e precisasse sair do carro, se estivesse de saia ou vestido certamente daria um showzinho. Não tinha como sair do carro, com a porta abrindo desse jeito, sem mostrar as pernas. Veja bem, estamos no final da década de 60, época em que um joelho aparecendo ainda tinha seu valor. Acho que a fábrica percebeu a que estava expondo suas clientes e logo mudou a abertura das portas. Aí o carro perdeu a graça.

E já que estamos nesses assuntos profanos, vamos adiante. Motel é coisa recente. O Meiembipe só abriu em abril de 1974 (lembram?). Antes disso, cada um se virava como podia. Um dos melhores lugares para estacionar o fusca (todo mundo tinha fusca naquela época, aliás, só tinha fusca, naquela época) era ali onde hoje é o Jurerê Internacional. Da estradinha deserta que levava ao forte saíam, em direção ao mar, inúmeras “picadas” abertas na vegetação litorânea cerrada. Privacidade, contato com a natureza, a lua e o barulho do mar. Queres mais? Até que começaram a acontecer assassinatos nuns matinhos perto da Universidade e a gente percebeu que o paraíso estava terminando. Em 1976 a Felipe Schmidt virou calçadão. E essa Florianópolis das saias plissadas, das calotas de fusca e das praias desertas passou a ser apenas um retrato na parede. Mas, como dói.

[Esta crônica foi publicada pela primeira vez em dezembro de 2002. Como gosto muito dela, já a republiquei algumas vezes. E provavelmente esta não será a última.]

5 comentários:

Anônimo disse...

O decavê era chamado de "dechave".

Anônimo disse...

Cruzes, arruma aquele comentário (foi o tanso aqui que ficou pensando como se escrevinha dkw e errou o DEIXAvê. Cruzes, parece que baichou, eu não disse, baixou uma coisa ruim em meu portugu~es bem dizido.
Chega, vou beber, e a pé!

Carlos Henrique disse...

E como dói, Cesar !
Depois do comentário sobre o DEIXAVÊ VEMAG, só me resta entregar uma das estratégias da turma que sustentava as paredes da Papelaria Record. Muitas das calotas ficavam assim limpinhas, não pelo capricho dos proprietários mais por obra das flanelas e polidor dos espectadores. Como este exercício dava fome, restava atravessar a rua e comer o pastel do Japonês, bem ali em frente !
Bons tempos...

Anônimo disse...

E quem tinha a sorte de morar na Felipe Schmidt teve de se mudar.Depois do calçadão pra ambulantes,não tinha mais como chegar até em casa de carro,sobretudo apartamentos(Galeria Jaquelinee arredores,e as garagens foram-se transformando em galerias de lojinhas.
Talvez hoje fosse impensável passar carros por ali, não sei, talvez carros pequenos ainda dariam,táxis por exemplo.Um corredor central, com calçadas largas.É imposssível levar alguém ao um médico nos consultórios que ainda ficam no eixo da Felipe, mesmo nas transversais.Virou tudo extensão de bares e lanchonetes, mesas nas ruas,como se delas fossem donos também.
Enfim, as coisas mudam.Mas era tão bom ir ao comércio no centro, Comprei disco na Az de Ouro, mesmo na Brunetti discos.Hoje dá até medo entrar numa loja de cds, parecem cavernas de zumbis.Só tem lixo.Os atendentes parecem saídos dum filme de terror.
Lojas Santa Maria, Stein, Wilmar Henrique Becker,A Modelar,Relojoaria MontBlanc da Ten.Silveira, foto Cisne, Livraria Lunardelli,Caixa Estadual,Banco da Lavoura,o antigo Hotel onde se compravam passagens aéreas, depois agência de penhores da Cef,enfim a implosão pra dar lugar a um terreno quase baldio, estacionamento de sei lá quem;a lista é grande,do tamanho da saudade.
Que é feito daquele povo todo?
A virada do calendário nos anuncia sem dó:tanta coisa já foi antes,a nossa vez tá chegando,já não há muito do que sentir falta.
Parece tudo não natural, né?Só parece...


Lia

Rui Costa disse...

Az de Ouro é de matar....