sábado, 28 de abril de 2007

Sábado, domingo e segunda

(Tá pequeno? clica na foto que abre uma ampliação)
TÁ TUDO DOMINADO!
O Josias de Souza, da Folha, chamou a atenção no blog dele, ontem, para uma nota publicada na coluna da Mônica Bergamo:
Dia do Trabalho – Um grupo de cerca de 400 pessoas, formado por ministros do TST (Tribunal Superior do Trabalho), juízes trabalhistas e executivos de grandes bancos, vai passar junto o feriadão de 1º de maio, a convite da Febraban (Federação Brasileira de Bancos). Eles estão desembarcando hoje em Natal (RN), para o 14º Ciclo de Estudos de Direito do Trabalho. A maior parte dos magistrados deve levar a mulher a tiracolo: de acordo com a Febraban, que, segundo sua assessoria de imprensa, banca passagens e hospedagem no Serhs Natal Grand Hotel, as famílias são convidadas “para não ter nenhuma ilação de outro tipo”, comum em eventos que reúnem apenas homens.”
E a conclusão do Josias, sobre este festerê promíscuo onde juízes se refestelam com suas famílias nas mordomias oferecidas pelos bancos, é perfeita:
“Em matéria de sutileza, a banca do bicho carioca tem muito a aprender com a banca financeira”.
O TERRENO À VENDA
O deputado Marcos Vieira (PSDB) distribuiu nota ontem respondendo às acusações do deputado Cesar Souza Jr. (DEM), mas, como sujeito esperto que é, sem citar o adversário/aliado.

Ele explica detalhadamente a emenda que permite vender uma parte do terreno da Epagri. E diz que também é a favor do Jardim Botânico. A área que sobraria depois da venda seria ainda suficiente para um grande jardim botânico.

Como eu disse ontem, essas coisas a gente tem que acompanhar com os quatro pés bem plantados no chão, para que não nos façam passar por burros (ou ingênuos, o que, em política, é a mesma coisa).

Por que diabos, de repente, tanto deputado virou amante da flora? Por que tantos querem transformar aquela área em Jardim Botânico?

A única coisa que parece razoavelmente clara é o motivo pelo qual se quer vender uma parte do terreno: captar recursos, “exclusivamente, para investimentos em obras de infra-estrutura no Município de Florianópolis”.

Aliado dos irmãos Berger, com quem fez dobradinha nas eleições do ano passado, Marcos Vieira, com a emenda, dá uma mãozinha para oxigenar o caixa municipal.

PAULO AFONSO E A 470
O ex-governador Paulo Afonso Vieira foi condenado, no último dia 18, na ação que o Ministério Público move contra ele, Jair D’Agostin e Oscar Gayer (oops, este é melhor chamar de Oscar da Silva Gayer, pra evitar o cacófato). É aquele caso da concorrência de 1998, para cobrar pedágio na SC-470, antes que fosse feita qualquer obra na rodovia.

A decisão, em primeira instância, é do juiz Domingos Paludo, da Vara da Fazenda da capital e naturalmente cabem (inúmeros) recursos. Mas não deixa de ser interessante ler a sentença, porque o Paludo, como o próprio nome diz, desce o cacete:
“Administradores assim envergonham os que lhes pagam os vencimentos e se constituem de lamentável motivo de escândalos que pregam o descrédito na classe política, além de um mal estar generalizado e persistente nos cidadãos em geral.

As instituições todas padecem, no momento, desta grave falha, decorrente do mau desempenho de funções e cargos, com o que já não se pode conviver.

Além disto, quem age assim severamente contra os dinheiros públicos, não pode exercer direitos políticos, pois na verdade faz mau exercício do direito que se lhe defere e melhor seria não os pudesse exercer.”
O juiz aplicou-lhes as penas de perda da função pública, suspensão dos direitos políticos por 3 anos, multa civil de 10 vezes o valor da remuneração percebida e proibição de contratar com o Poder Público na forma da lei por 3 anos.

PAU NO PROMOTOR
Os políticos botam a bunda na janela, deixam a bola quicando, carregam rabos enormes, que se arrastam à vista de todos e aí, quando o promotor de Justiça cumpre seu dever e aponta as barbaridades, acaba sendo acusado de “inimigo da cidade”.

É o que parece que está acontecendo em Rio Negrinho, conforme relatam a associação Catarinense do Ministério Público e a associação nacional, em nota de apoio ao promotor Max Zuffo.

O Max tem sido atacado porque está pedindo a cassação do prefeito eleito Alcides Grosskopf, cujos cabos eleitorais foram pegos trocando cestas básicas por votos. A impugnação da candidatura do ex-vice-prefeito Abel Schroeder também ajudou a irritar a turma. E o jogo é pesado, incluindo ofensas pessoais e outros tipos de baixarias, típicos de gentinha.

MISTÉRIO ESQUECIDO
Continuam a chegar colaborações para ajudar a esclarecer o mistério do esquema de venda de carros a funcionários da Assembléia Legislativa.

Por enquanto, ainda não falei com ninguém diretamente envolvido. Mas depois do feriado, se der tempo, vou experimentar alguns telefones que me passaram. Só pra não deixar o caso ficar esquecido muito tempo.

DIGA LÁ, IÇURITI!
Sou um cara otimista. Ainda acho que, qualquer dia, vou atender a uma ligação do Içuriti me convidando para tomar uma cerveja no Mercado. E ali, entre um camarão recheado e um pastel de camarão, ele vai me explicar por que o governo de Santa Catarina fez e faz tanta força para legalizar o jogo no estado. E por que não deixa, como nos demais países e estados, a tarefa de fazer lobby a favor dos cassinos para a iniciativa privada.

E O COMPEX?
O filho do Max saiu do PMDB. A desfiliação do Rodrigo Bornholdt teve um efeito colateral: lembrou-nos do caso Compex. Este é outro dos mistérios que caem no esquecimento sem que as dúvidas tenham sido esclarecidas.

Max e LHS eram amigos de décadas. Dividiam um escritório de advocacia, se não me engano. As famílias eram amigas. Daí, de repente, por causa da prisão de um malandro que operava dentro da Secretaria da Fazenda, o relacionamento esfriou.

Se, como disse e a gente acreditou, o Max não sabia que o Aldinho era pilantra, por que estremeceram-se as relações do Max e do Rodrigo com LHS?

Mas este pequeno drama pessoal e familiar não é nada, perto do grande mistério que ainda envolve o fato gerador disso tudo. Por que, até hoje, ninguém viu ou leu o relatório final da comissão nomeada para produzir um relatório final sobre a atuação do Aldinho na Fazenda?

Eu, pelo menos só fiquei sabendo de um resumo, coisa de poucos parágrafos, com informações genéricas e superficiais. E o programa de incentivos à importação continua, só mudou de nome. Só deve ter, na porta da sala, uma placa informando: “agora sob nova direção”.

E A BANDEIRA?
A iniciativa privada vai administrar o “largo das bandeiras”, aquele espaço, que tem um laguinho, na entrada da cidade, onde ficam as bandeiras do estado, do município e do Brasil.

Envolveram-se a FloripAmanhã, a Associação Comercial e Industrial e algumas empresas. Todos muito preocupados que o visitante e os moradores tenham uma visão agradável ao chegar na ilha. Coisa justíssima.

Só queria deixar aqui um lembrete a todos esses empreendedores bem intencionados: olhem para as bandeiras que lá estão. Aquilo ali é um deboche. De nada adiantará o núcleo de paisagismo da Acif plantar árvores e encher aquele espaço de vida, se forem omissos diante da demonstração de ignorância e desrespeito que a prefeitura dá todos os dias.

Não tem cabimento deixar a bandeira do estado errada, a do Brasil esfarrapada e a do município, vez por outra, também errada.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Sexta

ARMA “NÃO LETAL”
Ontem foi um dos dias em que o governador Pavan parece ter se divertido mais. Foram ele, o secretário da Segurança, secretários regionais, deputados e mais uma pá de gente, assistir à palestra (em português, porque afinal são todos monoglotas) de um policial norte-americano fardado que veio da Flórida pra dar a aulinha.

Ele mostrou um brinquedo que entreteve as crianças por várias horas. Uma pistola que atordoa mas não mata. Arma que, em países onde a tortura não é admitida, é utilizada como auxiliar do trabalho policial, para imobilizar os suspeitos mais violentos.

Num país como o nosso, onde a tortura de presos (principalmente pobres e negros, como relatou o Carco Barcelos) é institucionalizada e em muitos lugares até estimulada por oficiais e autoridades governamentais, aposto que a arma será usada como ferramenta auxiliar na obtenção de confissões. Não por todos, é claro, mas por aquela meia dúzia que dá a má fama a todo o resto.

O nosso entusiasmado secretário da Segurança, que não consegue sossegar na cadeira, já está planejando uma viagem aos Estados Unidos, para aprender tudo sobre segurança e transformar as nossas polícias numa coisa de cinema. Acho que ele deve ir mesmo. A última viagem dele, à Colômbia, teve resultados espantosos.

COMO É QUE É?

Já não tenho o entusiasmo da juventude e sempre que recebo uma convocação para defender o mundo, para salvar a fauna ou para acabar com a fome, primeiro coloco os óculos e, apoiado firmemente nas minhas quatro patas, procuro as entrelinhas.

O deputado Marcos Vieira (PSDB), certamente atendendo solicitação dos Berger e/ou do governo, enfiou na reforma administrativa a autorização para vender a área da Epagri no Itacorubi. Afinal, LHS precisa desesperadamente fazer caixa.

Aí o deputado Cesar Souza Jr. (DEM), aliado do mesmo governo, resolveu mobilizar a comunidade para impedir a venda. Mandou press-release recheado de adjetivos “impactantes”, convidando para audiência pública. E outro texto, distribuído pela internet, também louvando a ínclita liderança do jovem deputado, lança uma lama sobre LHS (que estaria se preparando para despachar de Joinville, abandonando definitivamente Florianópolis).

Cá entre nós, tanto empenho parece coisa da campanha municipal do ano que vem. Ou vocês acham que o jovem deputado resolveu peitar a aliança, contrariar LHS, espalhar lama sobre seus companheiros de base assim, de graça, no mais puro entusiasmo ecológico?

Até seria bom se fosse. Mas, como disse, sou velho demais para acreditar na pureza d’alma do ser humano.

MISTÉRIO ESQUECIDO
Como suspeitava, nenhum dos envolvidos condoeu-se das minhas dúvidas sobre aquele esquema de venda de carros que funcionava (funciona?) na Assembléia Legislativa.

Um leitor, certamente com pena de me ver clamando no deserto, mandou um bilhete, tentando ajudar-me a entender (e adicionando novas dúvidas, afinal os carros eram usados ou zero?):
“Com referência ao mistério da venda de carros zero na ALESC por preços abaixo da tabela, no meu entender funciona assim: o empresário não tem grana viva para colaborar com o “caixinha” – então ele entrega mercadoria. No caso, os autos. Fatura o valor de mercado e paga o “jabá”. Daí, pra fazer dinheiro, o beneficiado precisa vender o carro por um preço abaixo da tabela. Financia e pronto... dim-dim na mão. O foco é fazer caixa. Dizem, e eu não afirmo, que quem indica o comprador ganha “mil reales”.
O mistério continua.

FAÇAM SEUS JOGOS!
Vou continuar também esperando que o boa praça Içuriti Pereira atenda meus apelos e use esta coluna para explicar, ao contribuinte catarinense, por que o governo e a Codesc se empenham com tanto vigor pela liberação dos jogos de azar em Santa Catarina.

Sei que o diretor de Imprensa da Secretaria de Comunicação do Governo, o Ilson Chaves, acompanha todas as colunas e provavelmente deve ter lido meu oferecimento de ontem. Naturalmente ele poderá aconselhar o Içuriti a não desperdiçar a oportunidade.

Não é todo dia que eles têm chance de falar para umas 46 mil pessoas, pelo menos, de graça (isto se cada exemplar do DIARINHO for lido por apenas quatro pessoas, em média, o que é um cálculo muito modesto).

Façam seus jogos: o governo mostrará suas cartas? vai correr da raia ou vai cobrir a aposta?

TRAPALHADAS
Anteontem descobri que, num site da capital, tinha um cara copiando, na caradura, notas daqui e publicando como se fossem dele. Reclamei e, depois de um pedido de desculpas, disseram que iriam corrigir o erro.

Aí, sabe o que aconteceu? Como parece que copia e cola tudo, o cara não sabia mais que nota tinha copiado de onde. E como eu não disse quais notas eram minhas, ele saiu colocando, depois das notas “Crédito: Cesar Valente”, “Crédito: Raul Sartori”, “Crédito: Kibeloco” e assim por diante.

E trocou as bolas. Uma das minhas notas, em que eu falo da bandeira errada que tem na entrada da cidade, foi atribuida ao Raul Sartori. Naturalmente, deve ter várias outras, que não foram creditadas, que foram surrupiadas do Raul e de outros colegas. Um caso sério, esse, de achar que o trabalho intelectual não precisa ser respeitado. Pensam que coisa publicada é de domínio público.

E o pior é que tem tanta gente criativa, bem informada, que está desempregada, enquanto um site que tem anúncios do Badesc, da Celesc, do governo estadual e da prefeitura, agasalha um “cara do bem” (como ele mesmo se qualificou num e-mail que me mandou), que não consegue produzir seu próprio material.

UM GOVERNADOR SÓ
Nem sei se estou correto, mas insisto porque gosto de insistir: é bobagem, frescura, chamar o Pavan de governador “em exercício”. Ele é governador e ponto. O outro entregou, espontaneamente e de papel passado, o cargo para ele. O LHS é que é apenas um governador licenciado, fazendo uma viagem como tal. Não pode assinar nada nem tomar nenhuma decisão. Porque, embora geralmente fique com a caneta sem tinta, o governador é, por enquanto, o Pavan. Não existe isso de dois governadores. Ou existe?

O TAL DO IMPACTO
Quando a legislação fala que, para grandes empreendimentos precisa estudar direito o impacto que causará, o LHS e o Lula acham que é bobagem, que isso só astravanca o pogreçio.

Pois bem, a vizinhaça, próxima e distante do shopping está sentindo os vários impactos. O trânsito vira um inferno, as 300 sinaleiras mais atrapalham que ajudam, o precário sistema viário da capital entope, o esgoto entope, o barulho cresce. Mas se, antes da obra começar, alguém inventar de estudar tudo isso e propor mudanças, é qualificado de atrasado, de partidário da estagnação, caquético.

Menos mal que o Juiz Bodnar está metendo sua Vara Federal naquele angu. Tentando colocar um pouco de ordem na coisa. Claro, o empreendedor tem todo o interesse em remendar a coisa, para não ficar mal com a cidade. Mas, além do shopping, a Comcap, a Prefeitura e a câmara de vereadores também estão causando impactos seríssimos naquela região.

BATINA DE PRATA
Hoje, às 21 horas, no Museu Histórico, Palácio Cruz e Souza (na praça XV, em Fpolis) será lançado do livro “Humanismo e Direitos”, em homenagem aos vinte e cinco anos de vida sacerdotal do Pe. Agenor Brighenti, teólogo e professor universitário muito conhecido e respeitado na capital. A obra foi organizada pela Professora Maria Inês Rocha.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Quinta

MISTÉRIO ESQUECIDO
Vocês talvez ainda lembrem que, durante a campanha eleitoral do ano passado (no dia 18 de setembro), Márcio Moreira, chefe de gabinete do então deputado Antônio Carlos Vieira (Vieirão, PP) suicidou-se no local de trabalho. Depois ficou-se sabendo que ele estava envolvido com um complicado e até hoje inexplicado esquema de revenda de automóveis usados.

Teria se suicidado porque o esquema fez água e ele acabou sucumbindo à pressão das dívidas. A polícia investigou as circunstâncias da morte e concluiu que foi suicídio mesmo (coisa sobre o que, desde o primeiro momento, ninguém tinha dúvidas).

A imprensa tem o mau hábito de esquecer as notícias que ela mesma publica. E, por isso, o caso foi deixado de lado e nunca mais se falou dele. Apesar de terem restado tantos e tantos pontos de interrogação. A coisa toda continua tão misteriosa como no primeiro dia. Ou até mais, porque o tempo demonstrou que todos os envolvidos adotaram um silêncio unificado e ensurdecedor. Uma espécie de “omertá” siciliana.

ALGUÉM SABE?
O esquema dos carros vendidos a funcionários da Assembléia e do Tribunal de Justiça (os prédios são vizinhos, em Florianópolis) funcionava mais ou menos assim: o Márcio oferecia os veículos a preços extremamente vantajosos. Eram carros usados, em bom estado e completamente legais (não eram roubados nem nada), fornecidos por várias revendas da capital.

Não consegui descobrir, até hoje, como o Márcio imaginava poder cobrir o buraco que ficava com a venda de carros a preços abaixo do preço de mercado. Nem por que as concessionárias, todas sempre tão precavidas e cuidadosas quando tratam de vender os carros diretamente, entregaram um lote de carros para que o Márcio e sua “equipe” vendessem.

O mistério ganhou peso e dimensão quando os donos das principais concessionárias de veículos de Florianópolis foram ao enterro do Márcio. E, lá, trataram de fazer com que o único empresário de automóveis que reclamou, em público, de não ter recebido o dinheiro de uma venda, não só calasse a boca, como também se desdissesse.

Algumas das pessoas que compraram os carros iam buscá-los diretamente nas revendas. Para outros, motoristas da Assembléia, recrutados pelo Márcio, faziam a entrega em domicílio. Depois da morte do intermediário, alguns “consumidores” foram às revendas acertar suas contas, para poder ficar com os carros. Outros receberam seu dinheiro de volta.

Mas ninguém abriu o bico nem fez qualquer tipo de reclamação que pudesse resultar num inquérito ou num processo de investigação.

SEGREDO DURADOURO
O dito popular ensina que, “segredo entre três, só matando dois”. Mas neste caso, descontada a falta de apetite dos jornalistas pela investigação e o desinteresse dos veículos pelo assunto, o segredo envolve dezenas de pessoas. E até agora ninguém abriu o bico pra valer. Por que? O que, afinal, está oculto nesta aparentemente simples compra e venda de automóveis?

LULA NA PASSARELA
O presidente desfilou com o modelito acima no evento de moda político partidária petista, terça à noite. O desfile, creio eu, faz parte daquele programa de Lula, para escolher uma profissão para depois que deixar a presidência. Ele acha que pode ser bem sucedido como manequim e modelo. E até já começou o regime (vejam que a barriga está menor, embora as más línguas digam que ele usa uma cinta elástica).

Minhas consultoras especializadas em moda fashion, a quem mostrei a foto, entretanto, torceram o nariz. Acharam a calça excessivamente larga, com pregas, que não ficam bem num sujeito levemente acima do peso. E a jaqueta jeans não tem nada a ver com a linha proposta pela calça branca e camisa escura. Elas, que já ajudaram Bill Clinton a se vestir (às pressas, porque a Hillary estava chegando), acreditam que Lula já progrediu muito, mas ainda não está à altura da sua ministra do Turismo, no quesito moda fashion.

FUI PLAGIADO!
Um colunista de um site de Florianópolis publicou, como se fossem dele, algumas notas aqui do De Olho na Capital. Só plagiar já é ruim o suficiente (afinal, é crime), mas o cara ainda copiou errado: uma das notas falava na “foto acima” e ele esqueceu de copiar a foto. Além de não ter redação própria, parece que também não sabe ler.

Tem gente que acha que pode copiar tudo o que está na internet. Uns, mais caras-de-pau, ainda falam que “o plágio é uma espécie de homenagem”. Homenagem é o cacete! Cópia sem citar a fonte é furto!

Ontem à noite, o plagiador mandou um e-mail pedindo desculpas e dizendo que iria remendar o erro. Ora, ao copiar ele sabia que as notas não eram dele. E mesmo assim copiou. Como eu chiei, ficou todo preocupado. Deveria ter-se preocupado antes de fazer a tolice.

CAÇA-NÍQUEISC
A bancada do PP foi ontem à Polícia Federal levar alguns documentos e perguntar se Santa Catarina vai ficar de fora das investigações federais sobre a lama da jogatina.

Enquanto os deputados Kennedy Nunes (líder do PP), Joares Ponticelli (vice-líder), Jandir Bellini, Sílvio Dreveck e o advogado Gley Sagaz estavam na Polícia Federal, a Justiça Federal, em Joinville, determinou que as 21 empresas da região que exploram o jogo sob o beneplácito do governo estadual, sejam intimadas de que a interdição federal ao jogo continua valendo.

O juiz Cláudio Schiessl, da 1ª Vara Federal de Joiville, na decisão, afirma que o decreto do governador LHS (de fevereiro de 2007),
“padece de vício de origem, tendo sido emanado por autoridade incompetente, e, portanto, fora dos limites constitucionais, pois usurpada a competência da União”.
A turma do PP não perde a oportunidade para somar um mais um e o Kenndy pegunta:
“se uma decisão a favor de um bingo (no Rio de Janeiro) foi paga com muito dinheiro e colocou gente na cadeia, quanto poderia custar um decreto legalizando o jogo por toda Santa Catarina?”
Para jogar mais lenha na fogueira, um empresário da região do governador (Joinville), foi denunciado pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul por importação ilegal de caça-níqueis.

FALA, IÇURITI!
Meu amigo Içuriti Pereira, presidente da Codesc, manezinho de quatro costados, me responda, por favor: por que o governo do estado faz tanta questão de lutar essa luta inglória em favor dos caça-níqueis, dos bingos e da jogatina em geral contra o Governo Federal e a Justiça Federal? O que nós, os contribuintes atônitos, ganhamos ou ganharemos com isso?

Pode ficar tranqüilo que, assim que receber tua resposta, eu a publico (e, se couber na coluna, publico-a na íntegra, sem tirar nem por). Ah, e se achares que é melhor que outra autoridade do governo explique (o procurador geral, por exemplo), tudo bem.

O importante é que os catarinenses não podem mais ver seu governo se envolver nesse litígio sem saber exatamente por que. E sem entender o tipo de benefícios que podem advir de uma disputa como essa, feita em nosso nome, nos tribunais federais.

A DITADURA DA TV
Televisão e rádio são concessões públicas porque usam um bem público: o espectro eletromagnético, por onde transitam as ondas que levam os sinais (imagens e sons). Esse espectro é limitado, ou seja, cabem apenas alguns canais. Portanto, coisa pública, escassa, deveria ser cuidadosamente administrada.

Mas a esculhambação começa na distribuição dos canais e continua na fiscalização dos conteúdos. Os concessionários de um canal aberto, teoricamente, deveriam por no ar uma programação que fose informativa, cultural, relevante, etc. Pois eles acabam de conseguir uma liminar eliminando a classificação por horário. Agora podem transmitir qualquer putaria a qualquer hora. As emissoras não admitem ter que seguir regras para seu funcionamento. E o governo morre de medo delas.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Quarta

DEDO NA FERIDA
Caco Barcelos é um velho repórter, que começou a carreira na excelente incubadora de talentos jornalísticos que Porto Alegre foi, durante um tempo. Quando o conheci, no começo da década de 70, ele era repórter da Folha da Manhã (do grupo Caldas Júnior).

Era uma geração que gostava do jornalismo e apreciava fazer boas matérias, que dessem gosto ler. Ele desenvolveu, desde essa época, um talento para a apuração, para ir atrás da informação e os anos de televisão não o afastaram muito dessa trilha.

Poderia ter se acomodado, encontrado assuntos mais amenos para lidar. Mas continuou indignado com este país que afirma que é contra a pena de morte (e até assina tratados internacionais anti-pena de morte), mas faz vistas grossas à aplicação “informal” dessa punição extrema.

Na segunda à noite, Caco fez uma palestra na Assembléia Legislativa, abrindo o ciclo “O Brasil em debate” (foto acima). E falou, principalmente, de como os pobres e os negros sofrem nas mãos de policiais preconceituosos, preguiçosos e acostumados a matar.

Ele não fala por falar. Caco gosta de números, de estatísticas e tem colecionado dados estarrecedores, que apresenta em seus livros, Rota 66 e Abusado. E também não generaliza: demonstra que na mesma força polícial que tem oficiais com mais de 30 mortes nas costas, há 60 mil policiais que nunca mataram.

E na mesma polícia onde os inquéritos são tocados à base de pau-de-arara e torturas variadas, há profissionais que gostam do seu trabalho e não precisam obter confissões sob tortura para completar as investigações.

LUTA DE CLASSES
Na palestra o Caco chamou a atenção para a forma como juízes, delegados, promotores e empresários são tratados ao serem presos. E mostrou como jovens pobres são tratados em situações semelhantes. Às vezes suspeitos de crimes muito menos danosos do que os suspeitos ricos.

Ele cita estatísticas que demonstram que os negros cometem menos crimes que os brancos. Estupradores, por exemplo, são em sua grande maioria, brancos. Mas quem a polícia mata mais e tortura mais, são os negros.

Os negros e os pobres, sugere Caco, deveriam processar o Estado, levar o Estado à falência, porque sabe dessa perseguição e não toma qualquer providência para evitá-la.

O PULO DO GATO
Além dos temas mais pesados, da injustiça social e da violência, Caco Barcelos também contou como fez algumas das suas reportagens. Por exemplo, aquela em que ele descobriu um apartamento do Juiz Nicolau em Miami e entrou no apartamento, mostrando pertences pessoais que o Juiz e sua família tinham deixado lá.

Para entrar no apartamento, valeu-se de sua habilidade de marceneiro e se empregou como ajudante de um marceneiro que trabalhava no prédio. Na maleta de ferramentas levou uma câmera. E pronto.

Os filhos do Juiz processaram o Caco por causa da invasão, mas como o Juiz, antes, tinha afirmado para a Justiça que não era dono do apartamento, Caco acabou absolvido: eles não poderiam processá-lo por invadir um bem que oficialmente não lhes pertencia.

GOSTO AMARGO
A palestra do Caco deixou uma sensação desagradável. Afinal, somos um dos países mais violentos do mundo. Os brasileiros matam 48 mil brasileiros por ano, por nada. Os americanos matam iraquianos para ficar com o petróleo. Nós somos bonzinhos com outros povos, mas terríveis entre nós. Mata-se por qualquer motivo e até sem motivo. E as vítimas, em sua maioria, são os pobres. Que país, este nosso!

PAÍS DA PIADA PRONTA
Em novembro de 2005 o Mangabeira Unger pediu o impeachment do presidente Lula e disse que este é “o governo mais corrupto da História”. E, pra deixar claras suas posições, escreveu:
– Avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância, [Lula] mostrou-se inapto para o cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou.
Pois bem, as águas passaram por debaixo da ponte e sabe o que vai acontecer agora com o Mangabeira Unger? Será ministro do mesmo Lula que ele acusou de malandro e ignorante. Assume a estranhíssima Secretaria Especial de Assuntos a Longo Prazo, que tem status de ministério.

Será ministro na cota do PRB (partido ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Macedo). O líder do partido no senado, bispo Marcelo Crivella (RJ) disse que Mangabeira falou o que falou porque, morando nos Estados Unidos, estava “mal informado” sobre o governo Lula. Mas agora informou-se melhor e acha Lula o máximo.

Uau! Que ministro espetacular! Boquirroto e mal informado. E que presidente bonzinho... agasalha o sujeito que o xingou e ainda aceita uma desculpa esfarrapada como essa. Definitivamente, este não é um País sério.

FALA JOVEM – A TV da Assembléia Legislativa vai estrear, dia 6, um programa voltado para os jovens, realizado pela Escola do Legislativo. É um programa de auditório, onde os estudantes poderão debater e fazer perguntas a alguns dos deputados. No primeiro programa, gravado na tarde da segunda-feira, estavam presentes o presidente da Escola, deputado Joares Ponticelli (PP) e a presidente da Assembléia, deputada Ana Paula Lima (PT). A idéia é ampliar o contato dos jovens com o legislativo estadual. Só espero que os deputados, acostumados a só falar, consigam calar-se um pouco e ouvir, de fato, o que a gurizada tem a dizer.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Terça

BENEDET: tudo pelo social

A VIAGEM DO BENEDET
O secretário da Segurança agora quer atuar na “área social”. O governador deveria dar para ele, então, uma outra secretaria (talvez a da Dalva “Trator” Dias) e colocar na SSP alguém que tivesse uma visão menos nefelibata da questão da segurança pública.

Qualquer cidadão que, vítima de roubo, furto ou assalto, tenha ido a uma delegacia registrar queixa, sai de lá com a sensação de insegurança multiplicada. Ouve, dos próprios policiais, relatos espantosos das carências e das dificuldades que atrapalham a ação dos profissionais mais esforçados.

Qualquer cidadão que tenha chamado a polícia militar, sabe como demora a tal viatura e ouve, dos próprios policiais, queixas sobre as dificuldades e carências que atrapalham o serviço.

Essas coisas demonstram que há, dentro da própria estrutura de segurança, muito a ser feito. Chega a ser curioso ver que o secretário Benedet considera que pode dedicar tempo e recursos a projetos que já existem em outros órgãos, duplicando esfoços e, aparentemente, negligenciando a sua própria pasta.

Talvez a “viagem” de Benedet tenha boas razões. É sabido que o secretário, embora formalmente seja superior hierárquico, não manda muita coisa na Polícia Militar. Mais ou menos como acontece com o ministro da Defesa, que faz que manda no Exército, Marinha e Aeronáutica. E a polícia Civil também tem sua própria hierarquia, nem sempre receptiva e simpática às ações fundamentalmente político-eleitorais do secretário. Ou então dividida entre os que são partidários do governo atual e os que são de outros partidos.

De qualquer forma, na minha humílima opinião, obraria melhor o operoso Benedet se dirigisse seus óculos escuros de grife para os inúmeros problemas que impedem que os policiais cumpram suas funções com maior eficiência e melhores resultados. E aí poderia cobrar, com maior autoridade, dos e das colegas secretários, as ações sociais complementares.

ANA PAULA: primeirona!

TROCA DE COMANDO
Desde ontem Santa Catarina tem novos chefes. A deputada Ana Paula Lima é presidente da Assembléia Legislativa (a primeira mulher a ocupar esta função na história do estado).

LHS calçou seu tênis e saiu estrada afora, em direção aos Estados Unidos. Pavan é o governador, por enquanto. Precavido, mandou comprar um tinteiro, para o caso de LHS deixar de novo a caneta sem tinta.

PAVAN: governador até o final do mês


DESRESPEITO – Passam os anos e a bandeira do estado continua errada, bem na entrada da cidade, na saída da ponte Colombo Salles.

BANDEIRA ERRADA
A prefeitura de Florianópolis insiste em colocar, na entrada da cidade, uma bandeira mal feita do estado. Acima dá pra ver a diferença: LHS carrega uma bandeira correta e no mastro está a bandeira defeituosa, com o brasão fora das proporções oficiais. Será que o Dário faz isso de propósito?

CENA COMUM – Sinaleiras apagadas e nem sinal da Guarda Municipal.
Será que o Dário faz isto de propósito?

SINALEIRAS APAGADAS
Já está se tornando uma rotina: nos finais de semana, domingo em especial, várias sinaleiras da avenida Beira Mar Norte ficam desligadas. Aparentemente porque a Celesc está fazendo algum trabalho nas proximidades.

O que irrita e revolta o contribuinte é que não tem um único guarda para orientar o trânsito. Nem estadual nem municipal. Decerto estão esperando que morra alguém num acidente, para aí tomar medidas “de emergência”. Mais um sinal de abandono da cidade.

sábado, 21 de abril de 2007

Sábado, domingo e segunda

PARABÉNS!
Neste sábado, 21, a capital brasileira, construída para ser capital, faz aniversário. E aí, uma coluna chamada “de olho na capital” não poderia deixar de prestar uma singela homenagem a essa cidade que, ainda jovem e impetuosa, é tão mal compreendida.

Já morei três vezes em Brasília e se tiver oportunidade morarei de novo, com muito prazer. A primeira vez foi mais difícil. Claro. Estava fazendo mestrado na UnB (1979/1980, para sermos precisos). Logo descobri que a cidade tem camadas. Quando a gente só vai por uns dias, fica num nível superficial. E aí concordo com todos vocês, é uma cidade sem grandes atrativos. Mas ao morar em Brasília a gente mergulha para os níveis reservados.

Abaixo da superfície, a cidade continua complexa. Tem quem viva lá há décadas e não goste. Tem quem ame de paixão no terceiro mês. Porque descobre o jeitão da cidade que nasceu dentro daquela utopia. Claro que não é nada daquilo que foi planejado. Como aquelas plantas que brotam pelas frestas, abrem rachaduras, infiltram-se por todos os lados, menos pela boca do vaso. Mas é uma cidade inegavelmente charmosa.

Na segunda vez, já em 1985, fiquei pouco mais de um ano. E este tem sido, para mim, o problema principal de Brasília. Não se trata de um projeto de vida “vou comprar uma casinha e morar em Brasília”. É sempre um projeto profissional, uma tarefa, geralmente com tempo para iniciar e acabar.

A última vez, em 2000, novamente um convite profissional. Mais uma vez aceito com alegria. A gente (minha mulher e eu) sempre se deu bem com a cidade, sempre deu sorte para achar bons lugares onde morar e sempre foi muito feliz em Brasília. Quando os ventos profissionais nos levam embora, fica no ar uma tristeza, um ar de namoro rompido e uma sensação de que a gente ainda vai voltar.

Não sinto falta do mar, que é a queixa mais freqüente dos litorâneos que moram lá. Uns tantos, por falar nisso, parecem eternamente insatisfeitos. Falta mar, falta chuva, falta esquina, falta morro, falta tudo. Uma grande injustiça. O horizonte de Brasília, o céu imenso, supre satisfatoriamente a sensação que o mar oceano oferece. Não chover é bom, pelo menos para quem vem de lugares úmidos. Ter hora e data para chover é ótimo. Clima organizado, civilizado. E tem de tudo, em Brasília: cada um que chega de um canto do País ou do mundo traz um pouquinho da sua terra.

Mesmo que a realização tenha saído diferente do projeto, é inegável que Brasília cumpriu pelo menos uma das suas metas: é o centro do Brasil. O Brasil inteiro se encontra lá. Dá pra encontrar gente do Brasil todo em Brasília. Dá pro sulista aprender, finalmente, que os sotaques de Pernambuco, Bahia e Ceará são muito diferentes. E dá pros nordestinos verem que os sotaques de gaúchos, catarinenses e paranaenses são igualmente diferentes. Dá pra comer galeto na brasa como em Gramado e carne de sol como em Natal. E assim por diante.

Nos jornais e nas tevês do resto do País, Brasília é sinônimo do Congresso ou do Executivo. Ônus de capital. Mas nunca é demais lembrar que a maioria daqueles cuja má-fama contamina a imagem da cidade, chegam na terça-feira e vão embora na quinta. São gente de Alagoas, de Santa Catarina, do Rio, do diabo a quatro, eleitos não pelo pessoal que mora em Brasília, mas pela gente desses estados. E, é claro, quando eles pisam na bola, Brasília leva a fama.

OPOSIÇÃO DE MENTIRINHA
E já que estamos falando em Brasília, nada melhor, para ilustrar o lado ruim da cidade, que a foto da semana, a cena espantosa da ida do presidente do PSBD ao regaço de Lula. Não foi conversar com o presidente como um líder oposicionista que se dê ao respeito. Sequer informou a seus pares e a seus eleitores a pauta do encontro, seus motivos e objetivos. Tal e qual donzela apaixonada, entregou-se cegamente ao charme do Lula.

Tasso foi ao palácio como um compadre, a quem a comadre Roseana, líder do governo no Congresso, convidou para tomar um cafezinho: “no gabinete do Lula tem sempre um cafezinho muito bom, de primeira. Vamos lá?” E subiram os dois meio escondidos, sem permitir fotos do encontro com Lula. E o Tasso, com essa cara de menino manhoso que fez arte, de guri cagado (de medo? acho que não), não podia estar mais sem jeito.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Sexta

Fiz a montagem acima, aproveitando o momento carinhoso que rolou no encontro dos ex-adversários, para que vocês pudessem avaliar se tem cabimento chamar o Zé Serra de Homer Simpson. Agora, já que estamos falando nele: quando vocês ouvem o Lula discursar, não dá impressão que ele acha que a gente é tão simplório quanto o Homer Simpson?

MULTA PARCELADA
Antes que o Kennedy (autor da lei que parcela multas de trânsito) ache que eu pego no pé dele injustamente, deixa eu mostrar o bilhete que um leitor me mandou ontem:
“Vale lembrar que o Inciso XI do artigo 22 da Constituição Federal determina que compete privativamente à União legislar sobre trânsito e transporte. Desta forma, o deputado está fazendo média e jogando para a platéia. Este caso é idêntico à isenção da tarifa básica de telefonia aprovada na Assembléia e que já foi derrubada no STF”.
PRESIDENTE ANA PAULA
As mulheres têm se destacado em muitas áreas e recuperado espaços importantes, que eram ocupados por homens apenas porque a tradição e o preconceito mandavam. Na política, contudo, o caminho tem sido mais difícil. A Assembléia Legislativa catarinense tem, hoje, só três deputadas.

E a partir de segunda-feira, a Alesc será presidida por uma delas. A deputada Ana Paula Lima (PT), 2ª Vice-Presidente, será, por alguns dias, a presidente da Assembléia Legislativa. Será a primeira mulher a presidir aquela casa de Leis que, desde 1947 (quando iniciou seu período contínuo de funcionamento), teve 35 presidentes.

Ainda há muito caminho diante das mulheres. Entraram na política, na sua maioria, porque são esposas, filhas ou irmãs de políticos. E poucas conseguem libertar-se da sombra masculina senhorial, levantar a cabeça, erguer a voz e alçar vôos próprios.

NOVA BANDEIRA
Não sou só eu que pega no pé do governo. O cartaz ao lado está diante do prédio onde funciona o curso de Direito da Univali, em Itajaí. Tem até um logotipo, usando a bandeira tremulando, marca do governo LHS. O “direito sonegado” a que se refere o cartaz, é a falta, no estado, da Defensoria Pública (advogados para quem não pode pagar). SC é o único estado que ainda não oferece, sabe-se lá por que e atendendo a que interesses, este serviço a seus habitantes.

MANGUE SOFRE...
Tem gente que acha um sacrilégio ficar reclamando que o shopping, tão grande, tão bonito, tão de primeiro mundo, foi construído em cima do mangue. E manda a gente trabalhar. Claro, sem assinar nem se identificar, porque nem todo mundo é Valente que nem eu. Mas reproduzo o recado, mesmo anônimo, porque acredito que deve ter mais gente pensando desta forma. O próprio LHS já disse coisa parecida. Lê aí:
“Esse negócio de Shopping em mangue é conversa de quem não tem o que fazer. Ora, se os órgãos ambientais, o MP e a justiça liberaram o empreendimento, quem é o defecador de sentenças que vai questionar? Só a concorrência mesmo. Então é só o Shopping que está em cima do mangue, ou o bairro Sta Mônica inteiro? Por que esses do contra, nada falam que a favela do siri está em cima de dunas? e tantas outras invasões? Dá-lhe negada do contra, do atraso, do ranço, da preguiça, da hipocrisia. Vão trabalhar...”
MPF MANDA DEMOLIR
Que o zangado anônimo não nos leia: o Ministério Público Federal resolveu ir fundo nas ocupações irregulares de terras de marinha no município de Governador Celso Ramos (aquele mesmo, que “regulamentou” a farra do boi). E está pedindo uma liminar para demolir uma casa na praia do Magalhães (baía dos Golfinhos). A família Tortelli, além da casinha (267 m2) fez a fossa na beira dágua. E, pelo jeito, estão cagando e andando, apoiados pelas vistas grossas do Ibama. Pois agora todos viraram réus na ação. Ocupar o litoral de qualquer jeito, vocês sabem, é matar a galinha dos ovos de ouro.

DEBAIXO DA PONTE
Esta semana começaram a examinar as condições dos pilares da ponte Hercílio Luz, dentro dos trabalhos de manutenção e restauração (foto ao lado). E, por coincidência, recebi, por e-mail, uma série de fotos mostrando a construção da ponte. Separei uma (ali embaixo) para comentar sobre aqueles quatro pontos numerados:

1. Como era lindo o morro do Antão, sem aquele paliteiro de antenas e prédios feiosos que enfiaram-lhe no cocoruto, de uns anos pra cá...

2. Já no começo do século passado tinha casinhas morro acima. Uma ocupação que já é quase secular.

3. Esta era a casa da família Valente. Meus avós devem ter sofrido bastante com o barulho e a bagunça das obras de construção da ponte.

4. Daquele trapiche saiam as barcas para a ilha (da empresa Valente). Depois da ponte, nunca mais teve transporte coletivo marítimo por aqui. Apesar da necessidade crescente de alternativas para o transporte de massa.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Quinta

Do jeito que a coisa vai, daqui a pouco o Detran vai deixar que os guardadores de carro façam as vistorias e liberem as carteiras de motorista. Por uns trocados.

MULTA PARCELADA
Será que estou ficando ranzinza além da conta? Essa bobagem do Kennedy Nunes (PP), de querer parcelar multa parece igual àquela bobagem do Paulinho Bornhausen (DEM), que queria proibir que se fiscalizasse velocidade nas estradas.

E a defesa que o deputado faz do projeto é patética: “não se pretende premiar o infrator, já que se mantém o sistema de multas, mas apenas facilita-se o seu pagamento”.

É claro que facilitar o pagamento premia os infratores. Torna as multas mais fáceis de pagar, tira delas o poder coercitivo, o impacto no bolso, que é o órgão mais sensível do ser humano. Se passar (e é possível que passe, porque tem um monte de deputado com filhos e parentes cheios de multas), ninguém precisa mais aliviar o pé nem cuidar onde estaciona: se o guarda pegar, a gente depois paga em suaves prestações e pronto. Quá-quá-quá!

VANDALISMO SUPERIOR
Ainda sobre o caso da falta de segurança da UFSC, onde, entre outras coisas, orelhões foram depredados, o Carlos Andrade, leitor da coluna, faz um reparo ao meu comentário. Eu concentrei as suspeitas sobre as maldades em alunos da UFSC. Ele discorda e defende seus colegas:
“Na UFSC já fui roubado por um menino descalço, com um revolver, já fui atacado e levei muito chute e soco de uma gangue de muleques que não tinham mais de 14 anos. A UFSC precisa de segurança sim, mas não para prender quem vai pra lá estudar e sim pra quem vai, de fora, se esconder em um ambiente onde a lei não impera.”
MANGUE SOFRE...
Pra quem não entendeu direito a relação que fiz, entre o novo shopping e o mangue, transcrevo uns trechos de uma carta que o leitor Guilherme Pontes, que é estudante de Geografia mandou:
“Segundo a Ação Civil Pública impetrada no Ministério Público Federal, contra a empreendedora do Shopping Iguatemi, o aterro ali pode promover o confinamento de porções de manguezal, alterando a topografia e possivelmente dificultando a penetração das marés (o que proporciona um maior aporte de água doce no manguezal). Assim, será reduzida a salinidade do solo, podendo gerar uma situação insuportável para algumas espécies de animais nativos do manguezal”.
RIO SOFRE...
Ainda, do mesmo leitor:
“A cobertura vegetal nas margens dos cursos de água cumpre um papel fundamental no combate à sedimentação e ao assoreamento do leito do rio, porém, para construção de uma via de acesso lateral ao shopping, parte do leito foi completamente desmatado, comprometendo a normalidade do rio Sertão”.
Claro que a gente sabe que o mangue e os rios urbanos sofrem ataques de todos os lados (o maior deles, dos esgotos domésticos) e não há um responsável único pela degradação. Nem seria o caso de demonizar o shopping sozinho. Mas é bom aproveitar a oportunidade pra chamar a atenção do povo para o ambiente e sua fragilidade.

Entrevistinha com o Palhares
O Palhares, como todos sabem, é um canalha. Imortalizado pelo Nelson Rodrigues, que expôs com maestria toda a canalhice desse sujeito capaz de atacar a cunhada no elevador, o Palhares é um dos meus conselheiros preferidos. Sempre que tem um tema mais espinhoso, recorro a ele.

Ontem, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, foi aprovado o pacote de segurança pública, nascido sob o impacto da morte daquele menino no Rio, arrastado por bandidos. Fui conversar com o Palhares, que não confia muito nas “autoridades”, para saber o que ele achou das decisões.

Tio Cesar – Palhares, o primeiro projeto permite a policiais e procuradores acesso a dados de criminosos, como endereço, telefone, estado civil e informações bancárias de acusados, sem a prévia autorização da Justiça. Isso é bom, não é?

Palhares – É ótimo... pra bandidagem. Todo dia a gente descobre que tem policial corrupto em todas as polícias. Pois então, imagina como esse pessoal vai ganhar dinheiro só levantando informações de todo tipo? A malandragem vai poder ir pros assaltos sabendo exatamente quanto o sujeito tem na conta.

TC – Mas não é só pra investigar bandido?

P – Tá, e meu nome é Papai Noel.

TC – Outra proposta destina recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública para criar um sistema de rastreamento eletrônico de veículos de carga e de carros-fortes e para a instalação de bloqueadores de sinal de celulares em presídio.

P – Grande negócio pra quem tem empresa de rastreamento. Não é o Piquet que tem uma? E os bloqueadores de celular estão sendo usados pelos ladrões para evitar que as vítimas chamem a polícia. Na mão deles funciona, mas nas cadeias não tem jeito. Nunca funciona direito. Em todo caso, sempre que o governo resolve fazer grandes compras, a turma da propina bate palmas.

TC – Um terceiro projeto amplia a aplicação de penas alternativas. A legislação atual determina que o juiz pode substituir a pena de prisão por uma alternativa, desde que o réu tenha sido condenado a menos de seis meses de prisão. O projeto aprovado obriga (e não mais faculta) o juiz a substituir a prisão por pena alternativa para quem for condenado a menos de um ano de cadeia.

P – É, tá cada vez melhor. Daqui a pouco as duas pontas se encontram.

TC – Não entendi.

P – Presta atenção, mano: o final da pena está cada vez mais curto, com a tal “progressão”. Agora começaram a encurtar o começo da pena. Daqui a pouco as duas pontas se encontram.

TC – Um quarto projeto permite deduções do imposto de renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) para empresas que ofereçam trabalho para presidiários. O texto ainda precisa passar pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) antes de ser enviado para a Câmara.

P – Mais um grande negócio. É claro que as empresas não vão pagar um salário decente, mas vão vender os produtos pelo preço de mercado. Mão-de-obra barata, sem férias, que não entra na Justiça do Trabalho pra reclamar os direitos.

TC – A comissão votou também o projeto que aumenta de dez para 18 anos a pena prevista para crimes de lavagem de dinheiro. O texto ainda passará pelo plenário do Senado antes de ser remetido à Câmara.

P – Bobagem. A questão não é aumentar a pena. Pode ser dez, quinze ou 30 anos, dá na mesma. Malandro não fica mais de três ou quatro anos preso. Tem tanta brecha, tanto recurso, que essa história de mais tempo fica sendo só pra engambelar o eleitor.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Quarta

VANDALISMO SUPERIOR
A gente fala mal da Brasil Telecom, mas nesta história dos telefones públicos arrebentados por idiotas no campus da UFSC, ela tem agido direito. A empresa me escreveu para informar que aquele telefone público, que aparece depredado na foto do Paulo Dutra, publicada aqui no final de semana, já foi consertado e reativado.

Mas o pior, que só mostra o nível de debilidade mental de alguns “universitários” e a falta de eficiência da “segurança” da universidade, é que, segundo a Brasil Telecom, “neste mesmo período, outros quatro telefones públicos instalados no Campus da UFSC foram atacados por vândalos e tiveram seus monofones arrancados. Ainda na mesma semana, na praça da Trindade, próxima à UFSC, outros dois equipamentos também foram seriamente danificados”.

Ou seja, em poucos dias sete telefones, numa área de grande circulação de pessoas “de bem” foram destruídos. Naturalmente, alguém aparecerá para colocar a culpa na gurizada pobre dos morros próximos. Mas eu acho que alguns dos imbecis que fazem os trotes que fazem nos calouros são bem capazes de sair por aí destruindo orelhões.

BONS VIZINHOS
Comercial que está sendo veiculado na capital anuncia para o dia 28, no “centro multiuso” da prefeitura de São José, um show com o cantor Fábio Júnior, promovido pela prefeitura de... Florianópolis. E a gente que achava que os dois prefeitos estavam de mal, hem?

COMEÇOU A CAMPANHA
Leitor, pertencente ao MSCD (MOvimento dos Sem Câmera Digital), mandou umas mil palavras para descrever o lindo out-door que foi plantado na área industrial de Palhoça, com as fotografias do Pitanta e do Cesinha Souza. Vou esperar que um leitor do MTFT (Movimento dos que Tiram Foto de Tudo) passe por lá e mande o retratinho que, como vocês sabem, vale mais que mil palavras, para só então perguntar à Justiça Eleitoral se isso pode ou não pode.

ATORANDO PREGO
A operação furacão (também conhecida como “hurricane”) deve estar deixando muita gente sem dormir em Santa Catarina. Afinal, um estado cuja administração se dedicou, com tanto empenho, para a liberação dos caça-níqueis e da jogatina em geral, não pode deixar de ficar apreensivo com a prisão de desembargadores, promotores e delegados responsáveis pela disseminação de caça-níqueis.

Não que uma coisa tenha obrigatoriamente a ver com a outra, mas se tiver um único ponto de contato, vai ser o diabo explicar que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.


DILEMA VITAL
Um shopping, nas cidades modernas, é como uma praça, um parque, É um equipamento urbano cuja importância não pode ser ignorada. O que abriu ontem em Florianópolis (nas fotos acima) é amplo, bem construído, do melhor nível.

Os manguezais são ecossistemas importantíssimos, nascedouros de várias espécies, criadouros de outras tantas. Desprezados por ignorantes, que vêem a lama e o lodo como sinônimos de sujeira e não de vida, os mangues são fundamentais para que tenhamos uma fauna e uma flora saudáveis, nesta ilha dos casos e ocasos raros.

O grande desafio moderno é manter os manguezais e ter shoppings. Preservar áreas vitais e ter marinas. Por que as duas coisas não podem coexistir?

Empreendimentos como o Iguatemi, o Beira Mar e o Floripa Shopping são, sem dúvida, geradores de emprego, dinamizadores da economia. Mas não deveriam, por causa de sua importância relativa, serem colocados acima de outros valores urbanos e naturais.

É sintomático que os dois shoppings tivessem que fazer acordos com o Ministério Público, para compensar supostos prejuízos que suas localizações causaram ao ambiente. E é igualmente sintomático que as autoridades públicas refiram-se à legislação ambiental e aos cuidados ali previstos, como “entraves” que “atravancam” o “progresso”.

Mas os empresários modernos sabem que desacatar a natureza, principalmente numa ilha como a nossa, é ajudar a matar a galinha dos ovos de ouro. E muitos deles têm essa consciência mais clara do que alguns de nossos governantes, para quem o ideal seria poder consumir, em poucos meses, o que a natureza levou milhares de anos para, caprichosamente, criar.

Pra mim, shopping é tudo muito parecido, mas Chávez, Lula e Bachelet, ali em cima, ficaram muito impressionados.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Terça

[Apesar das aparências, a foto acima não tem nada a ver
com
os títulos e textos abaixo.]

DESMORALIZAÇÃO
Neste nosso querido Brasil tem muitas coisas, pessoas e instituições desmoralizadas. Foram boas e úteis um dia, mas de tanto mau uso e abuso, acabaram perdendo a função e o respeito.

É o caso, por exemplo, das agências reguladoras. Tem coisa mais desmoralizada que a Anac? A agência que deveria colocar ordem na casa do transporte aéreo? Ou mesmo que a Anatel, que deveria manter as telefônicas na rédea curta e de quem as prestadoras de serviço deveriam morrer de medo?

Outra instituição desmoralizada é o direito de greve. Cruzar os braços, parar de trabalhar, deveria criar um fato grave e impactante. Deveria servir como um alerta gritado do alto da montanha e as autoridades e a comunidade reagiriam espantadas, como se estivesse para chegar a grande onda, o furacão, o terremoto.

A greve é uma ferramenta de uso complicado. Sempre se sabe como a greve começa e por que ela começa, mas em geral não se sabe como vai terminar nem por que terminará. Qualquer imbecil pode começar uma greve. Afinal, todo mundo gosta de tirar uns dias de folga. Mas, e depois?

SEM SENTIDO
De tanto fazer greves sem sentido e tantas greves, a ferramenta se vulgarizou. Hoje o contribuinte não sente mais pena do professor estadual que suspende as aulas porque houve uma mudança no sistema de escolha de diretor. Só sente, na pele, os efeitos nocivos, não consegue enxergar os eventuais efeitos positivos, se é que existem.

Quem pena nas filas, quem volta pra casa sem a consulta, quem perde o horário, quem tem que se virar para acomodar os filhos que deveriam estar na escola, não consegue mais vibrar com a luta dos companheiros. Mesmo porque, em geral, o objeto da luta, não parece ser um beneficio coletivo. E às vezes não é mesmo.

É BOM PRA QUEM?
A maior escola estadual do estado (que em algumas ocasiões dizem que é a maior da América Latina), o Instituto Estadual de Educação, em Florianópolis, está sem aulas (dizem que hoje tudo volta ao normal), porque a secretaria da Educação resolveu indicar um diretor e desconsiderar a escolha feita no ano passado. Uma luta política, por um princípio democrático de escolha.

Qual o benefício para alunos e pais de alunos? O senso comum informa que tanto faz: se continuar o diretor indicado pela secretaria, dificilmente a escola e o ensino melhorarão. Se for empossado o diretor escolhido pelo pleito do ano passado (sem amparo legal, mas aparentemente com o bleneplácito da gestão anterior da secretaria), também a escola e o ensino ficarão na mesma. Serão beneficiados, pelo menos com os louros da vitória, os grupos partidários do lado que ganhar. E o lado que perder se mobilizará para novas lutas, tentando dificultar a vida dos vencedores.

O aluno e o pai do aluno e a mãe do aluno, continuarão a fazer como a D. Mariza Lula: sonhar com o dia em que os filhos poderão ir viver em outro país, que lhes garanta o futuro. Porque aqui, neste gigante abobado, de tanto sol, praia e fartura natural, parece que ninguém está muito preocupado com o bem estar e a qualidade de vida do contribuinte. Dizem que estão, juram que só pensam nisso, mas na prática só têm olhos para seus próprios umbigos.

DE VOLTA AO BATENTE
Fiz uma greve, nos últimos dias, que não foi notada por ninguém. Afinal, não dirijo ônibus, não sou professor com ânimo para deixar alunos sem aula, não sou caixa de banco chateado com os lucros do patrão. Que eu trabalhe ou deixe de trabalhar, afeta pouquíssima gente. Talvez dê um pouco de trabalho para a diretora do jornal, que terá que chamar alguém para me substituir.

Dependendo de quem for chamado, os leitores nem notarão a diferença ou, pior pra mim, acharão que o jornal ficou melhor.

Ainda mais porque condicionei a minha greve ao atendimento de reivindicações que estão completamente fora de questão, hoje em dia. Cumprir a lei, punir administradores desleixados e administrar pensando no usuário dos serviços públicos é coisa tão distante da realidade que nem como piada serve.

Mesmo se eu tivesse feito greve de fome, com direito a reportagem no Fantástico e no Hélio Costa, se tivesse me amarrado nu a uma das colunas da ponte Hercílio Luz e fosse citado na CNN, nem assim alguém se mexeria para atender reivindicações tão fantasiosas. E essa fantasia, vejam só, é o desejo da maioria dos brasileiros.

DE PAPO PRO AR
Saio da greve derrotado, sem ter ganho um centavo a mais no meu salário, sem ter conquistado uma secretaria municipal, muito menos estadual e nenhuma diretoria de estatal. Meu grupo político não conseguiu também ocupar o diretório de nenhum partido e certamente não elegeremos um único vereador no ano que vem, o que dirá um prefeito. Mas acho que consegui alcançar pelo menos um objetivo. Que infelizmente tem sido também o objetivo de tantos grevistas ultimamente: tirei uns dias de folga. E isto é o que interessa. O resto não tem pressa.

CHÓPIN NOVO
Ontem à noite fui à inauguração do Shopping do Mangue, digo, do Shopping Iguatemi da Madre Benvenuta, ou do Santa Mônica. Qualquer que seja o nome com que ele venha a ser conhecido, tem, como quase tudo, seu lado bom e seu lado ruim. O bom é a novidade, são os cinemas, novos ambientes e, principalmente, a concorrência ímpar (agora são três shoppings na ilha).

O ruim é o vício de origem, de ter sido construído sobre área tomada do mangue, sabe-se lá a que preço.

Quer dizer, os vereadores e empreendedores que nos idos do início da ocupação do lado de cá da Madre Benevenuta tiveram a idéia de avançar mangue adentro, talvez saibam.

ARTES E ELITES
O Fábio Brüggemann perguntou, na sua coluna de sábado no Diário Catarinense, “Por que a elite não gosta de arte?” E para buscar uma resposta, analisou o comportamento da elite catarinense diante da arte local.

Diz ele que “o desenvolvimento das artes, infelizmente, depende muito de uma elite que seja culta, porém desprendida de valores morais e burgueses. Se não há quem invista (e quem mais pode fazer isto se não a elite?), a arte se cobre de uma invisibilidade cruel aos artistas e a seus consumidores”.

E entre os fatores que dificultam o relacionamento adequado daqueles que têm recursos (a elite) com a arte e os artistas, ele cita o exagerado apreço a tudo que é “de fora”. E aí transcreve um trecho daquele comentário que fiz aqui, criticando o governador LHS e seu entusiasmo com festivais italianos e escolas estrangeiras.

SEM FARRA
Atravessei a temporada de farras do boi sem falar aqui sobre este assunto. No ano passado e em anos anteriores, aqui e em outros veículos de comunicação, sempre tocava, com maior ou menor entusiasmo, na farra.

Afastei-me do assunto porque me pareceu que a coisa ganhou novos componentes e um contorno diferente, mais adaptado aos tempos ilógicos e violentos em que vivemos.

A falta de razão e sensibilidade de um lado, ao que parece, contaminou o outro. E tudo agora não está muito longe de uma baderna sem sentido, onde como em toda baderna, quem sofre são os mais desvalidos.

Não vejo motivo para tratar o deprimente espetáculo montado por bêbados e imbecis, como se fosse uma tradição a preservar. Não há quase o que manter, cuidar e respeitar. A ignorância se encarrega de ir acabando com tudo.

sábado, 14 de abril de 2007

Sábado, domingo e segunda

Aproveitando a greve do tio Cesar, fui remexer nas gavetas do arquivo e achei esta preciosidade: o momento exato em que o Fritsch perdeu o ministério da Pesca. O flagrante aconteceu em terras catarinenses, em março do ano passado. A Senadora Ideli, que é leitora da coluna, levou para o Lula a foto e ele viu a careta de nojo do companheiro. A partir daí, Lula disse que o Fritsch, se saísse para concorrer ao governo, não retornaria ao ministério.

NOTA DO INTERINO
O titular desta coluna está em greve, de papo pro ar, em alguma praia do nordeste ou em alguma estância hidromineral do sul. Em todo caso, como não tem cabimento deixar um espaço tão grande em branco, tratei de arrombar a caixa postal do grevistinha e preencher a página com os e-mails dos leitores. Aposto que fica mais interessante do que as bobagens que esse jornalistazinho de arque publica aqui. Por mim ele pode ficar em greve o ano inteiro!

a) Palhares, fura-greve profissional

CHORO JUSTIFICADO
Por Enrique Escobar

Fiquei no prejuízo e minha calculadora quebrada foi pro lixo.

Tudo começou quando lI no DIARINHO, que os deputados federais estão brigando para aumentar seu salario de R$ 12.200,00 para R$ 16.200,00. Ou sêja, 33 % aproximadamente. Não acreditei e refiz o cálculo, obtendo o mesmo resultado.

Aí fui pelo mais fácil e concluí que minha calculadora estava com defeito e por esse motivo quebrei ela e joguei no lixo. Fui radical demais? Acho que não. Sou aposentado e o que recebo mensalmente é de 3,5 salários mínimos aproximadamente. O governo informou recentemente que meu reajuste anual em maio será de 3,3 %.

Peraí, eu que ajudei com anos a fio com trabalho duro para construir esse Brasilzão de hoje, recebo a merreca de 3,3 % e os Srs. Deputados Federais querem 10 vezes mais? Será que o salario minimo dos parlamentares federais, é diferente ao nosso? E mesmo sendo, eles valem 1.000 % mais que a gente?

O que eles têm com certeza, é a cara 1.000 vezes mais dura que a nossa. Cada povo tem os governantes que merece, mas parece que já estamos pior que isso. Como diría aquele personagem da saudosa Escola do Professor Raimundo, “não sou palhaço, estou palhaço”.

TOLERÂNCIA ZERO
Por Ângelo Cristofoli

Caro César, tudo bem? parabéns pela sua reportagem sobre o tolerancia zero. Deves cada vez mais ‘lembrar’ aos administradores públicos suas funções e obrigações.

RECADINHO PRA LÁ
Por Paulinho Bornhausen

Cesinha, queria aproveitar a tua coluna para falar para os prefeitos catarinenses a mesma coisa que já falei para os prefeitos do GRES Democratas: Lula disse que mandou aprovar o 1% só para vocês irem embora mais cedo e sem reclamar e para tentar convencer vocês, prefeitos, a ficarem a favor da CPMF. Mas é engodo, vocês não devem confiar neste governo. E a emenda era legal aprovada por uma deputada do PT.

RECADINHO PRA CÁ
Por Carlito Merss

Valente, se alguém prejudicou os prefeitos do Brasil foi o senhor Paulo Bornhausen, que não permitiu um acordo em plenário para a aprovação de um texto que corrigia a inconstitucionalidade da emenda que tratava sobre transporte escolar. O Bornhausen Júnior sabia da ilegalidade da emenda e mesmo assim a apresentou.

DÚVIDA CRUEL
Por Soninha (aquela, daquele dia)

Querido, me explica uma coisa: li que o executivo e o judiciário fizeram um acordo para fazer exames de DNA já durante as audiências para discutir paternidade. Audiências onde participam “supostos pais com hipossuficiência de recursos”!! Quem será o iletrado ou iletrada que inventou de chamar pobre de “hipossuficiente de recursos”?

BANCADA NA WEB
Por Evory Pedro Schmitt

Sem querer botar banca e nem mesmo bancar o banco cheio de recursos, a bancada do PMDB catarinense está em www.bancadadopmdb.com.br a qualquer hora do dia ou da noite. Eu sei que vais achar um defeito ou outro, mas, como diz o deputado Manoel Mota, só erra quem faz.

OLHA SÓ!
Por Alaércio Lopes

E aí, primo, tudo bem? Seguinte, só pra avisar que fiquei vovô hoje!
Abraço.

VANDALISMO DE NÍVEL SUPERIOR
Por Paulo Dutra

Amigo Cesar: fiz esta foto (abaixo) no campus da UFSC. Puro vandalismo, que só pode ser de estudantes, conforme informação que obtive lá. Que homens de futuro serão estes? Será que eles não sabem que um dia poderão precisar para uma emergência?

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A PEDIDO

A LUTA CONTINUA
Os sindicatos e entidades abaixo assinados manifestam publicamente seu apoio ao movimento deflagrado na manhã de ontem pelo ínclito, impoluto e escorregadio jornalista Tio Cesar e exigem das autoridades o imediato atendimento das reivindicações apresentadas que, mais do que urgentes, são emergentes.

Fazemos nossas as reivindicações da lista de dois pontos e passamos também a exigir:

Item 1: aquele troço relacionado com o apagão aéreo, porque nunca neste país foi tão difícil a vida de quem vive nas nuvens.

Item 2: aquele negócio de saúde pública, que é mais que justo, porque nunca neste país levaram a sério a pobreza que tem que ir pra fila de madrugada e depois aturar atendente e médico de mau humor em consultas que nunca duram mais de dois minutos.
Santa Catarina, abril de 2007

Fundação Orlando Valente; Sindicato dos Colunistas de Política Estadual do DIARINHO; Sindicato Holístico dos Jornalistas Alternativos; GRES Império dos Sentidos; Organização Não Governamental de Apoio às Causas Perdidas.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Sexta

POR QUE PARÔ?
Não sou policial federal, não sou controlador de vôo, não sou (mais) professor de universidade federal, não sou fiscal da receita, não sou motorista de ambulância, não sou médico do estado, não sou motorista, nem cobrador, muito menos dono de empresa de ônibus e não sou deputado, mas também sou, como todos esses aí, filho de Deus.

E é nesta condição que venho apresentar minha pauta de reivindicações e declarar-me em greve. Se minhas exigências não forem atendidas, não volto mais a trabalhar. Até posso aparecer, como meus ex-colegas de universidade, no dia do pagamento, para receber o salário, mas não vou mais trabalhar.

E nem venha algum juiz abelhudo exigir que eu mantenha 30% da coluna funcionando, a pretexto de manter atendimento aos casos de emergência. Não escreverei mais uma única letra, nem uma palavra, sequer uma vírgula, muito menos uma frase. Este espaço ficará em branco. Ou ficaria, se não fossem os fura-greves que há em todo movimento.

Então, a partir deste momento, deste segundo, deste nanosegundo, estou em greve. Desligo neste exato instante meu computador, não sem antes transmitir a lista de reivindicações mais abaixo, que precisa ser atendida com presteza, porque a paciência há muito se esgotou. E nem venha o ministro do Planejamento prometer gratificações e passagem da coluna para a área militar, porque já sabemos que o que ele diz, não se escreve.

PARÔ POR QUE?
Ainda outro dia, sem poder pagar as contas porque os bancários estavam em greve, sem poder viajar porque os controladores estavam em greve, sem poder ir ao centro porque os ônibus estavam em greve, sem poder tirar passaporte poque a polícia estava em greve (e antes porque estava faltando papel) e sem poder reclamar pro bispo, porque ele estava num retiro, sentei-me à beira do rio Itajaí-Açu e tomei uma decisão: na primeira sexta-feira 13 que tiver, eu entro em greve.

Chega de ser discriminado, de sofrer na pele o opróbrio e o desprezo. Agora eu também sou um grevista, posso encarar o caixa do banco sem baixar os olhos, posso entrar no ônibus de cabeça erguida e dizer, em alto e bom som, “bom dia, colega, como vai a luta?”

Aprecatem-se: a paralisação pode durar um dia, uma semana ou um ano. Não importa.

Hasta la victoria siempre!

Diante do majestoso prédio (palácio?) da Procuradoria Geral da República, em Brasília, uma manifestação que bem poderia ser em solidariedade ao tio Cesar

PAUTA DE REIVINDICAÇÕES
A paralisação que começa nesta sexta-feira 13 só será suspensa se e quando forem atendidas as reivindicações abaixo. Estou em assembléia permanente, mas é favor não ligar fora do horário comercial (das 11 às 16h).

Item 1: todo o pessoal que teve alguma responsabilidade na deterioração do sistema de proteção ao vôo brasileiro, do aspone ao presidente da República, deve prestar serviço como aeromoços e aeromoças, voando ininterruptamente durante um ano no espaço aéreo brasileiro, para verem o que é bom. Depois, os que não sucumbirem com o medo de voar sem segurança, devem ser encarcerados numa sala de espera de aeroporto, sem ar condicionado.

Item 2: Todo político (do executivo e do legislativo) e todo desembargador, só poderá recorrer ao sistema único de saúde. Ao serem eleitos e diplomados, perderão acesso a todos os planos particulares, médicos no exterior e clínicas chiques. Terão que marcar consulta pessoalmente (não podem mandar assessores) e esperar em todas as filas. Até mesmo os exames urgentes (que no SUS levam meses) terão que ser feitos seguindo exatamente a mesma rotina a que o resto do povo brasileiro está sujeito. E se, em decorrência desta obrigação, alguma melhoria for feita no sistema, ela passa a ser desfrutada por todos os brasileiros, sem distinção. E nem venham com a história de “direitos adquiridos”.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Quinta

CHEGA DE SAUDADE!
Hoje cedo, ali pelas 9 e pouco, LHS terá um tête-a-tête com o presidente Lula. O clima que foi criado para o reencontro é o mesmo de antigos namorados que, por alguma bobagem, estiveram brigados, mas morrendo de saudade um do outro. E hoje poderão, finalmente, olharem-se nos olhos, pegar na mão e, quem sabe, até trocar um abraço afetuoso. Vão colocar a conversa em dia e, se não brigarem de novo, LHS voltará sorridente e feliz.

(A molecagem fotográfica foi feita com fotos do Jaksson Zanco, do A.C. Mafalda e da Ivone Marcarini, todos da SECOM)

CRISE? QUE CRISE?
O personagem do dia, ontem foi o presidente da Anac, o sujeito da foto ao lado, um gauchinho bem-querer chamado Milton Zuanazzi. A Anac é nada menos que a Agência Nacional da Aviação Civil, que deveria fiscalizar as empresas aéreas e o cumprimento de metas e da lei. Pois o indigitado cidadão teve o desplante, a petulância e a falta de senso do ridículo de afirmar, numa audiência na Câmara dos Deputados, que o Brasil não vive uma crise do transporte aéreo. Não tem crise!

Noblat e outros jornalistas chamaram-no de maluco por dizer uma coisa dessas na mesma mesa onde pouco antes o Ministro da Defesa tinha falado em crise. E ele se abespinhou, ficou irritado com os jornalistas. Se disse vítima de preconceito. Ora, vá se catar!

Com um idiota presidindo a Anac, resta-nos apelar, antes de cada vôo, para Santo Expedito, Madre Paulina e outros santos da devoção de cada um. De preferência vários. Um colegiado. Porque um só é capaz de não dar conta de tanta cretinice junta.

GUERRA DE AUDIÊNCIA
A ida do Hélio Costa (ex-SBT) para a Record continua rendendo fofoquinhas e historinhas nos corredores das duas emissoras. Na Record riem-se das tentativas do SBT de mostrar que continua com a audiência alta. No SBT riem-se da Record, porque a contratação milionária não a distanciou das concorrentes.

Como resultado da mágoa empresarial, parece que funcionários da Record que prestavam serviços temporários para o SBT não foram mais chamados.

Para alimentar a polêmica, o grupo do SBT divulgou, no seu jornal, que o programa SBT Meio Dia, agora comandado pelo Náder Kalil, ocupa a vice-liderança do horário, perdendo apenas para a RBS. A Record apressou-se a minimizar o anúncio, dizendo que o SBT realmente passou a frente, mas por poucos minutos, na quarta-feira da semana passada, “antes do Hélio Costa entrar no ar”.

TROCA TROCA
O mercado nunca esteve tão agitado. Para trazer o Hélio Costa, a Record dispensou o repórter Dino Montez, que ocupava o horário. Dino não ficou desempregado muito tempo. Já está na TV Barriga Verde. Cesar Souza renovou seu contrato com a empresa do Saul Brandalise por mais alguns anos e o Dino é quem comanda o programa na ausência de seu titular e ainda é reponsável pelas reportagens de polícia.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Quarta

TOLERÂNCIA ZERO
Nossas autoridades de segurança e mesmo as outras de vez em quando falam na tal de “tolerância zero”, política que reduziu a criminalidade em Nova Iorque. Como nossas autoridades não são chegadas ao estudo, em geral são monoglotas e acham que dá para aprender sobre processos complexos apenas fazendo uma visita de alguns dias (como foi o caso da Colômbia), fiquei sem saber, afinal, o que era mesmo a tal “tolerância zero”.

Até que esta semana, por acaso, num livro que estava lendo, encontrei um bom relato sobre alguns aspectos da experiência noviorquina e pude, finalmente, começar a entender.

CRIME COMO EPIDEMIA
Estava lendo o The Tipping Point, do Malcolm Gladwell (Little Brown, 2000), mais interessado nos aspectos relacionados com a comunicação. Ele discute o que faz algumas idéias ou produtos virarem mania. O que leva uma coisa a se disseminar como se fosse um vírus, fazendo livros virarem bestsellers, produtos esgotarem nas prateleiras e as pessoas agirem de determinada forma.

[Clique aqui para visitar o site do livro (em inglês).]

Update das 10h: um amigo anônimo deixou, nos comentários, a informação que este livro saiu no Brasil pela Rocco, com o nome de Ponto de Desequilíbrio.

E a certa altura ele fala no caso de Nova Iorque. Afinal, nos anos 80, os índices de violência e criminalidade atingiram proporções epidêmicas. Por ano, cerca de 2 mil assassinatos e 600 mil registros de ocorrências graves.

No metrô, a situação era caótica. Os trens, totalmente pichados, por dentro e por fora, sujos, atrasavam regularmente. Em 1984 havia uma pane séria no sistema de metrô todos os dias. Incêndios e descarrilamentos eram comuns. Coisa de semana sim, outra também. Nesse ano eram seis mil vagões pichados (como estes das fotos), em praticamente todas as linhas.

Pular a catraca virou esporte nacional. Ninguém mais pagava o metrô. A companhia de tráfego calculou as perdas anuais em cerca de R$ 150 milhões, só com a malandragem viajando sem pagar. Em algumas estações, os espertos estragavam a maquineta onde se devia colocar a ficha para entrar no metrô e ficavam, numa das catracas abertas, “cobrando” a entrada. O cidadão de bem não tinha outra saída, a não ser entregar a ficha pro espertalhão e entrar sem rodar a catraca.

Os registros de assaltos, agressões e outros crimes no metrô chegaram, no final da década, a 20 mil por ano. Andar de metrô em Nova Iorque era uma aventura arriscada.

Esta era a situação, classificada como “a pior epidemia de crimes da história da cidade”. O inferno parecia não ter fim e a criminalidade crescia ano a ano até 1990, quando começou a decrescer vertiginosamente.

POR QUE?

O que teria acontecido? Não houve um transplante de população. Ninguém saiu de casa em casa ensinando os potenciais delinquentes o que era certo ou errado. Havia, no início dos anos 90, o mesmo número de tarados, criminosos, gente com todo tipo de distúrbio psicológico que durante os anos 80. O que teria levado essa gente a de repente parar de cometer crimes?

A resposta, acha Gladwell, está no que ele chama de “poder do contexto”. As epidemias são sensíveis às condições e circunstâncias do tempo e do espaço em que elas ocorrem.

Nos anos 90 o crime, em todo os Estados Unidos decresceu por vários motivos, incluindo uma recuperação da economia. Mas Nova Iorque, nessa mesma época, continuava estagnada. E apesar de todos os fatores contrários, a redução da criminalidade foi maior e mais rápida que no resto do país.

JANELA QUEBRADA

Uma das candidatas mais sérias a explicar a queda da criminalidade em Nova Iorque é a “teoria da janela quebrada”. Ela foi formulada pelos criminologistas James Q. Wilson e George Kelling e em resumo diz o seguinte: o crime é o resultado inevitável da desordem.

Se uma janela é quebrada e ninguém a conserta, os passantes vão concluir que ninguém se importa com aquilo e que não tem ninguém cuidando dali. Em pouco tempo, mais janelas serão quebradas e o sentimento de anarquia vai se espalhar do edifício para a rua em frente, enviando um sinal claro de que vale tudo. Verdadeiros convites para crimes mais sérios.

Ahá, começamos aí a entrar nas raízes da tal história de “tolerância zero”.

Wilson e Kelling dizem que trombadinhas e batedores de carteiras sentem-se mais à vontade para “trabalhar” em ruas ou bairros onde a população já esteja intimidada pelas condições de pouca segurança. Sabem que o transeunte que for roubado não terá ânimo, nem coragem, de chamar a polícia, muito menos de identificar quem o roubou. E sequer pensará em interferir, quando vir alguém sendo roubado.

O crime, portanto, é contagioso. Pode começar com uma janela quebrada e se espalhar pela cidade inteira.

A LIMPEZA DO METRÔ
Na metade dos anos 80, Kelling foi contratado pelo departamento de Trânsito de Nova Iorque como consultor. E começou a pressionar para que a teoria da janela quebrada fosse posta em prática. Isso começou a se tornar possível quando um novo diretor, David Gunn, foi encarregado de administrar uma reconstrução bilionária do sistema de metrô.

Muita gente, na época, achava que as pichações eram o menor dos problemas e que não valia a pena perder tempo com isso. Seria como se, no Titanic indo a pique, alguém resolvesse lavar o convés. Mas Gunn insistiu que “as pichações (os graffiti) são o símbolo do colapso do sistema”. Sem vencer a batalha das pichações, acreditava ele, todas as reformas e mudanças passariam em branco, como se nunca tivessem acontecido.

TEIMOSIA
Eles começaram limpando um carro do metrô depois do outro. Nos de aço inoxidável, usavam solventes, nos que eram pintados, pintavam por cima da sujeira. E depois que um carro tinha sido recuperado, cuidavam para que não fosse novamente pichado. Eles montaram, em finais de linha, “centrais de limpeza”. Se um carro chegasse ali com uma pichação, não voltaria a transitar antes de ser limpo.

Eles levaram seis anos (de 1984 a 1990), para limpar todos os carros. Fico imaginando, aqui nesta nossa terrinha abençoada, uma ação de governo do tipo desta, sendo mantida por tanto tempo.

EXEMPLO
O segundo estágio da recuperação do sistema de metrô começou com a entrada de William Bratton como chefe da polícia do departamento de trânsito. Discípulo da teoria da janela quebrada e de Kelling, Bratton encontrou uma maneira criativa para combater os crimes cometidos no metrô, a começar pela falta de pagamento da passagem.

Não parecia produtivo prender aqueles que pulavam a catraca, porque para levá-los à delegacia perdiam quase o dia todo e o sujeito estaria solto logo.

Em algumas estações, Bratton colocou policiais a paisana (no mínimo dez em cada equipe), prendendo os malandros um a um. O sujeito passou sem pagar, era preso. A “turma” era algemada uns nos outros e deixada ali mesmo, na estação, à vista de todos, até ter uma penca numerosa.

Os usuários, ao ver aquilo, recebiam uma mensagem clara: alguma coisa está sendo feita. Um velho ônibus foi transformado em delegacia móvel e ia a cada uma das estações onde tivesse uma penca, para registrar as ocorrências e checar a ficha de cada um. Mesmo que dali a pouco os malandros estivessem livres, sentiram que o ambiente estava mudando. As coisas já não eram assim tão fáceis.

Entre aqueles presos por pular a catraca, a polícia descobriu que um em cada sete, em média, tinha um mandado de prisão por um crime anterior. Um em cada 20, estava armado.

Esta prática durou de 1990 a 1994. Mas a polícia do departamento manteve o foco nas pequenas infrações, prestando atenção nos detalhes do dia-a-dia do metrô.

Com a eleição do prefeito Rudolph Giuliani, em 1994, Bratton foi nomeado chefe de polícia da cidade. E usou, no restante da cidade, as mesmas estratégias que tinha aplicado, com sucesso, no metrô.

Lavadores de parabrisas nos cruzamentos (sim eles também tinham isso), gente que mijava na rua, bêbados arruaceiros, garrafas jogadas na rua, nenhum delito era pequeno demais para a polícia. Sem o ambiente propício, sem janelas quebradas, o que parecia incontrolável começou a entrar nos eixos e assumir dimensões menos assustadoras.