quinta-feira, 12 de junho de 2008

MINHA QUERIDA AMIGA

(Página de um velho diário, amarelecido e comido de traças, que encontrei colado com um durex ressecado, atrás do retrato de uma das minhas melhores amigas, guardado no fundo de uma caixa. Publico-a hoje porque, afinal, é dia dos namorados)

Quando eu cheguei estavas sentada, esperando. Não tens idéia do que pode significar, para um homem, aquelas pernas cruzadas. A saia nem era tão curta. E tu nem eras tão descuidada. Mas de onde eu estava e no estado em que me encontrava, aquelas pernas cruzadas dominavam o ambiente e mostravam aos infiéis o caminho do paraíso.

Assim que me vistes desmanchastes o monumento lascivo do imaginário masculino, te levantastes e imediatamente te transformastes, novamente, na senhora de todos os sentidos. A proximidade, os braços abertos, o sorriso e o inevitável abraço. Te apertei como se o mundo fosse terminar agora. A bomba atômica calcificaria o casal enlaçado. O calor das tuas coxas derreteria o detonador e transformaria aquele momento numa enorme bola de fogo. O teu abraço nunca deveria ter fim. O teu abraço é a maneira mais fácil de compreender o correto sentido da eternidade.

Mas te afastas, fazendo de conta que não percebes os danos que causastes, os destroços que jazem em meu peito, o pequeno monte de cinzas em que me transformastes. E me olhas, as mãos ainda segurando as minhas, eu estático, tendo impressa em minha pele a tua imagem, qual santo sudário da paixão, todos os teus relevos estão aqui, marcados a fogo, indeléveis, inesquecíveis.

Percebo que falas alguma coisa, não alcanço o sentido, mas registro o som da tua voz, pura música, minha alma dança enquanto falas não importa o que. Esqueço que somos apenas bons amigos e enlaço tua cintura novamente, puxo teu corpo, aperto o abraço e beijo teus lábios atônitos, a boca surpresa.

Os dois segundos que se seguem passam lentamente, como se fossem horas. Qualquer coisa pode acontecer. O tapa, a zanga, a raiva, o nunca mais. Tudo é possível. Até que percebo mãos caminhando nos meus ombros, dedos na nuca, e a tua boca, ah, a tua boca, respondendo, com habilidade, com aquele mesmo calor das pernas cruzadas, o meu beijo roubado. Olhos abertos, e aquelas coxas, encostadas às minhas, derretem as moedas de vintém que estavam no bolso da calça.

Somos, afinal, o que sempre achei que éramos. Bons amigos, no bom sentido.

7 comentários:

Anônimo disse...

Aff....!!

jânio disse...

Moedas derretendo no bolso da calça foi uma boa justificativa...

Anônimo disse...

Vc escrevia bem melhor no passado, hein?
Acho que teu rumo deveria ter sido a literatura...

Anônimo disse...

da samba, da um curta e até um comercial de 30's de alguma ONG, mostrando a inflação chegando e derretendo nossa grana no bolso. hehehehe...

Desculpa tio Cesar, estou sem namorada é isto!

Antônio Carlos

Nancy disse...

Uma raridade de narrativa!
Intensa, fluente, ousada e criativa.
Sensacional!

Anônimo disse...

Amei de paixão! Ah...se alguém me escrevesse uma coisa dessas...(suspiro..)...Peraê, isso é uma bela duma lábia, nénão?? rsss rsss

Anônimo disse...

'Uncle Ceasare'. Tirante a bela página literária e o riquíssimo nível de sugestão provocado pela narrativa... quem dera alguma musa mereça de minha pobre pena tamanha inspiração... que minha mulher não me ouça!!! Afinal.. já é dia da sogra (sexta 13)Saudações de um aluno anônimo, mas freqüente.