quinta-feira, 10 de abril de 2008

“ATÉ TU, CESAR?”

Com esta expressão clássica, o presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, o catarinense Sérgio Murillo de Andrade iniciou uma longa carta onde contesta a crítica que fiz aqui ao veto de Lula ao controle do TCU sobre o uso do dinheiro do trabalhador, pelas centrais sindicais.

O Sérgio é dirigente sindical há bastante tempo e, é claro, diverge, em parte, da minha opinião. Vou deixá-lo explicar a coisa, para que vocês possam conhecer o outro lado. E para que, pelo menos em relação ao DIARINHO e a esta coluna, ele veja que a gente dá espaço ao contraditório:

“Em relação ao imposto sindical:

Sou contra. Mas não sou insano, nem irresponsável. Os sindicatos que controlam a centro de poder na CUT (metalúrgicos, bancários, servidores públicos) não precisam. Não é o caso dos jornalistas. Temos sindicatos como do Acre, Piauí, Maranhão, Rondônia, Roraima, Amapá, Dourados, Juiz de Fora, Londrina, Estado do Rio, com pouco mais de uma centena de sindicalizados. O do Maranhão, por exemplo, paga uma mensalidade de R$ 19,00 à FENAJ.

Em relação aos jornalistas, temos um índice alto de sindicalizados (mais de 40%), mas também uma grande inadimplência. Você mesmo confessa que há anos não contribui com o Sindicato. E não me venha transferir a culpa exclusivamente ao Rubens/Luis Fernando/Sérgio/Celso, pra ficar no pós-MOS. O fim do imposto, sem uma alternativa real e efetiva, abalaria mortalmente boa parte do movimento sindical dos trabalhadores e algumas entidades sindicais dos patrões tbém. Quem ganharia com isso?

Procuro há anos a resposta para um dilema. Você não quer pagar o imposto, ou uma taxa alternativa, porque não quer contribuir com o Sindicato. Justo, é um direito seu. Mas você, por coerência, tem que abrir mão de todos os serviços prestados e ganhos salariais que eventualmente os Sindicatos conquistem para a categoria. O Sindicato negociou um aumento, todos na redação, sindicalizados, recebem. Menos você. O problema é que a legislação não permite essa discriminação. Assim, o discriminado é o sindicalizado, o tanso que sustenta a estrutura que beneficia inclusive os não sindicalizados. É justo?

Sobre a auditoria do TCU:

Também sou contra. É intervenção do Estado. Sem meias palavras. A Constituição foi mudada também pra acabar com isso. É um retrocesso do ponto de vista da democracia e da liberdade de organização e autonomia do movimento sindical. Nada tenho contra auditorias. Acabei de vir de uma reunião, aí em Fpolis, do Conselho de Representantes da FENAJ – um representante de cada Sindicato – que aprovou, por unanimidade, inclusive com a participação da oposição, a prestação de contas do ano passado, enviada para análise dos conselheiros com mais de um mês de antecedência. Isso costuma ser regra no movimento sindical. Tem picaretagem? Claro que sim. Combata-se a picaretagem, sem defender um retrocesso. Havendo indícios, o Ministério Público pode ser acionado para fiscalizar e auditar as contas dos Sindicatos. A lei pode exigir, por exemplo, que os Sindicatos publiquem os balanços na internet. Tudo menos dar um passo atrás. Além disso, imagina se o TCU e os TCEs têm condição de analisar as contas de milhares de sindicatos, federações e confederações em todo o Brasil. Sei bem o resultado: mais servidores, mais prédios públicos ou anexos, mais denúncias. Quem ganharia com isso?

O Moacir [Pereira, jornalista] diz que OAB, CREAs etc prestam contas ao TCU. Ok. São autarquias. Pertencem à estrutura do Estado. Mas ele, como jornalista e advogado, deveria saber que a OAB recusa-se há anos a apresentar suas contas ao TCU, sob a alegação de não comprometer sua independência política. E aí? A OAB, inclusive, apoiou o projeto do Conselho Federal dos Jornalistas (ninguém na grande mídia divulgou isso), com uma única exigência: a não prestação de contas ao TCU. E aí?

Faz parte do jogo político que o DEM, PSDB, PPS e o escambau façam marola em torno dessas questões. Mas não acho justo a mídia – embora entenda bem as razões – alimentar essa polêmica somente com o ponto de vista deles, sem NENHUM espaço ao contraditório.”

Abraços fraternos,

Do ex-aluno Sérgio Murillo de Andrade

8 comentários:

Anônimo disse...

Excelente! Aos dois Jornalistas! A um por expor o contra-ponto, ao qual não tivemos acesso pela grande mídia, e ao outro por disponiblizar um espaço democrático e exibir o contraditório, mesmo diferindo da própria matéria publicada. Parabéns!

Anônimo disse...

Da série esquece tudo que eu falei antes. Nao precisa controle aonde eu mando...Farinha pouca, meu pirão primeiro.

Anônimo disse...

Cesar e Sérgio Murilo,

'Mos' caros (ambos), cada qual na medida de seu pirão tem certa razão, porém, Serjão, OAB não é argumento, pois, há muito é um conclave político que adota um sistema antidemocrático de escolha de seus presidentes e que não presta contas a ninguém. aliás, o argumento da OAB é sinistro, não revestisse desonestidade intelectual flagrante: "prestamos contas ao conselho" (sic) Aos desavisados: 'conselho' é na prática extamente a chapa do presidente depois da eleição. Ou seja, apresento as contas a mim mesmo e pronto. OAB nas contas dos outros é refresco... E trocar o apoio ao então chamado Código de Ética pela não exigência de prestar contas sugere típico medo de malandro com a mão suja de bolo...PAULÃO (ex-aluno 'dum' e sempre colega - de ambos)

Anônimo disse...

Quando duas pessoas esclarecidas discutem um assunto é assim.

Se vc ler um e outro, acaba concordando com os dois.

O fato que o Murilo esqueceu, é que sindicato tem sim muita roubalheira e picaretagem. Assim como na polícia, não são todos, mas são tantos que mancham a imagem de todos!


Eu não pago sindicato! Talvez quando não for obrigatório e eles tiverem de se profissionalizar e realmente defender o interesse coletivo para sobreviver!

Anônimo disse...

Comemorar desconto obrigatório, convenhamos, nada ortodoxo para carreiristas.

Anônimo disse...

O imposto sindical está sendo vista como compulsória porque não está sendo discutido na justiça a inexistência de lei que delegue competência para cobrança; a inexistência de lei que diga qual a base de cálculo e o princípo constitucional da liberdade. Os sindicatos estão ameaçando de toda a forma porque tem que pagar os salários de seu dirigentes. Ameaçam. Vejam a que ponto chega os que os representam ameaçam.

Carlos disse...

Realmente, o STF, o STJ, o TSE e todos os demais tribunais federais devem ser órgãos sem nenhuma autonomia, já que prestam contas regularmente ao TCU. Que piada!
Só destaco duas coisas relevantes nessa carta: o TCU não tem gente suficiente pra fiscalizar tanto sindicato (dizem que são mais de 5000), caso contrário já estaria exigindo a prestação de contas, que é obrigatória pela Constituição e não precisa de nenhuma outra lei para ser exigida; e a questão da OAB, que é um caso que desafia a lógica e merece o prêmio "Óleo de Peroba" pela qualidade dos argumentos para não prestar contas.

Carlos

Anônimo disse...

O problema da cobrança obrigatória, filiado ou não, é que eles não fazem nada para conquistarem mais gente sindicalizada; falo de todos os sindicatos que conheço.Não fazem por onde merecer o que ganham pois só se manisfestam e se lembram de 'ouvir' a gente qdo é pra pegar os votos.Depois ó, mofas...
Acontece em todos os sindicatos e pelo jeito o dos jornalistas não tá ralando muito não, haja vista a merreca que a maioria ganha qdo tem patrão e não tem patrocínio, hehe.
Os medalhões que fizeram fama e agora deitam na cama, estes ganham bem pacas.Mas como nem todos são Ana Paula Padrão ou PHA,dão é graças a Deus qdo descolam um vaguinha.A não ser, claro, os que conseguem uma 'assessoria de imprensa' em algum governo, de algum político e taaallls.Tem que só falar bem do istrupício político, senão entra com a bunda e o político com o pé.Aff, melhor comer miojo e ser independente de verdade, pode atirar pra todos os lados.


Lia
Né não?