sábado, 19 de janeiro de 2008

O JORNALISMO, ESSE DESCONHECIDO

[CHI... LÁ VEM O TIO CESAR COM MAIS UMA DAQUELAS AULINHAS CHATAS!]
Este nosso DIARINHO, que fez 29 anos semana passada, reúne hoje, em algum aprazível local à beira-mar, seus jornalistas para uma confraternização e um almoço de aniversário. A rigor, eu deveria enviar o texto abaixo apenas para os participantes da reunião. Mas resolvi publicar porque achei que talvez alguns de vocês pudessem ter curiosidade sobre as entranhas dos jornais. E sobre o que a gente conversa quando não tem leitor por perto.
Uma das manias mais chatas que os velhos jornalistas têm, é a de achar que os novos jornalistas querem ouvi-los ou pelo menos conhecer suas experiências. Isso tem levado vários de nós, anciãos, às universidades e faculdades, para fazer de conta que somos professores, na ilusão de ter algo a ensinar ou de encontrar quem queira “aprender”.

Outros, quando ainda nas redações, dão discursos ao redor da mesa do cafezinho, com maior ou menor sucesso. Às vezes, a rodinha se desfaz rapidamente, às vezes a turma fica por ali, como se realmente estivesse interessada no que o velho jornalista fala.

O fato é que aquela lenda urbana, segundo a qual jornalismo se aprende fazendo, não se sustenta. Primeiro, porque as redações estão tão “enxutas” que ninguém tem tempo de conversar trivialidades, quanto mais de fazer transmissão de tecnologia e vivências. Depois, porque há cada vez menos jornalistas experientes (ou velhos, como queiram), nas redações.

Boa parte da minha formação jornalística deu-se, ou consolidou-se, em mesas de bar. Não que o álcool ou as frituras tenham algo a ver com isso, mas pelo simples fato que, depois do expediente, os velhos e os moços iam para o mesmo lugar: o botequim mais próximo da redação. E a conversa invariavelmente passava pelos bastidores e meandros do exercício profissional. Só depois, bem mais tarde, é que se jogava conversa fora.

Hoje, na irreal suposição que ainda houvesse gente de cabelos brancos nas redações, à noite há uma divisão clara de destinos: a moçadinha não freqüenta mais botequins. Vai pra balada, pra “night”. Mesmo porque os bares clássicos, na esteira dos velhos jornalistas, estão desaparecendo rapidamente.

Os poucos jovens remanescentes que ainda teriam prazer em compartilhar uma didática e proveitosa noitada em torno de algumas cervejas ou chops, ganham tão mal que não podem se dar a esse “luxo”. Só se for uma vez por mês, no dia em que sai o pagamento. E olhe lá.

Só por essa lenga-lenga acima vocês já perceberam que eu sou um velho jornalista. E que daqui a pouco vou começar a “compartilhar” minhas experiências e falar coisas que talvez não encontre mais quem queira, voluntariamente, ouvir.

Tinha pensado em simplesmente colocar, como título, “Carta a um(a) jovem jornalista” e começar a arenga, mas acabei fazendo esse enorme nariz-de-cera (coisa típica de velho jornalista). Mas como nunca é tarde demais para recomeçar, vamos lá.

Meu jovem amigo (ou amiga, que afinal as mulheres são maioria), permita-me deixar aqui, sob o formato de pretensiosos conselhos de um macróbio, duas ou três coisas que acho que aprendi ao longo da estrada.

1. Cadê a informação?
A única coisa que tem valor, em qualquer veículo de comunicação, é a informação. A notícia. E será mais valiosa quanto melhor apurada.

A gente pode saber se a reportagem será boa ou ruim mesmo antes dela ser escrita. Basta conversar com o repórter. Se ele souber tudo a respeito do assunto que foi investigar, inclusive detalhes importantes que amadores distraídos ou jornalistas incompetentes geralmente “esquecem” e souber contar a história em poucas palavras, sabendo do que está falando, então teremos uma boa matéria.

Mesmo que ele, ou ela, acabe não fazendo um texto brilhante, se tem as informações essenciais, um editor habilidoso consegue consertar o texto. Mas, se faltam informações, não tem quem salve a matéria. Fica uma coisa capenga, daquelas que afugentam o leitor ali pela altura da terceira linha.

Quando vocês forem a um prédio, de onde caiu um operário, tentem ver o local onde ele estava, onde acabou indo, procurem entender o que aconteceu, conversem com todo mundo, informem-se de tudo. Detalhes da roupa, do que estava fazendo, o martelo que ficou no chão, o prego pela metade, a marca da botina na poeira, a marmita num canto, a idade, a família, a trajetória de vida. Tudo.

Os mais pragmáticos dirão: “vai ser uma nota curta, não cabe tudo isso!” E os mais experientes dirão: mesmo pra gente escrever uma frase sobre alguém, é preciso saber tudo a respeito. E quanto mais se sabe, mais fácil fica para sintetizar, resumir.

Jornalismo é, em essência, um trabalho de tradução. A gente vai à esquina onde o container tombou em nome dos 40 mil leitores diários deste jornal, que não podem ir até ali ver o que aconteceu. E depois temos de contar tudo o que conseguimos saber. De tal forma e com tal competência, que o leitor sinta-se transportado até o local e experimente as mesmas sensações que sentiria se tivesse ido até lá.

É uma enorme responsabilidade. Uma nobre e dificílima tarefa que não pode ser tratada com leviandade. Quando estiverem colhendo informações para uma reportagem, imaginem que logo mais vocês terão que ir para o centro de um estádio, pegar um microfone e explicar, bem direitinho e sem enrolar, para 40 mil pessoas, o que aconteceu. Imagina esquecer um nome, uma circunstância, a hora, a data, o local? É vaia na certa.

A vaia, no caso do jornal, é silenciosa, mas fatal: o leitor deixa de comprar o seu exemplar diário. Ou, o que é pior, acaba achando que jornalista é tudo a mesma bosta.

2. Cadê o povo?
Povo é esse pessoal que habita as cidades, que freqüenta escolas, anda de ônibus, de moto, de bicicleta, de carro, vê televisão, namora, compra bobagem, vai ao supermercado, fala mal do governo e bem do Lula, reclama com razão e sem razão, ouve pagode, come churrasco e torce contra o time dos inimigos.

Não tem como fazer um bom jornal, interessante, gostoso de ler, cheio de informações relevantes, se a gente não ouve o povo. Se não faz como o Dalmo Vieira, que conversava todos os dias com dezenas de pessoas de todos os tipos.

Repórteres e editores que se prezam, de vez em quando, fazem um trajeto diferente do habitual prestando atenção, usando da sensibilidade que têm obrigação profissional de ter, para ouvir as conversas, entender o que está acontecendo e o que está preocupando essa gente que vive ao nosso redor e que lê nosso jornal.

Não basta dar as “notícias” que sabe-se lá quem decidiu que eram notícias (e que todos os jornais e TVs dão ao mesmo tempo, como se fossem feitos pela mesma pessoa). É preciso dar as informações que realmente interessam e que podem fazer alguma diferença na vida de todos.

O velho Dalmo dizia uma coisa fundamental (e de certa forma revolucionária) que precisa ser repetida sempre, para que a gente não esqueça:
“Nossos repórteres têm a orientação de, ao cobrir qualquer evento, não dar o costumeiro destaque que a imprensa ‘boazinha e complacente’ dá aos poderosos. Nossos repórteres têm a recomendação de sequer dar o nome das autoridades presentes. Mas dar destaque às pessoas do povo presentes.”

6 comentários:

Schneider disse...

César.
Brilhantes colocações.
No início da aulinha já pude detectar o "problema" do jornalismo. É a falta de bares com chope de qualidade, gelado e por preços acessíveis.
Essa carência de bons botecos, que também sejam atrativos aos mais jovens, é um problema social. É sério. A falta de um ambiente nesses moldes prejudica a convivência, tão necessária para uma simples troca de informações.
César, você detectou onde está a ferida da comunicação social. Bares, suas mesas e seus sagrados balcões, testemunhas e cúmplices da história.
Um abraço e cumprimentos pelas autênticas colocações.
Luiz Carlos Schneider

Osvaldo disse...

Antigamente o reporter chegava na redação com um furo bombástico e o editor-chefe logo ia dizendo: "vamos publicar, pois ninguém tá falando nisso." Hoje chega o reporter com a novidade e diz o editor: "não vamos publicar pois ninguém tá falando nisso." É a mudança nos últimos trinta anos do jornalismo, salvo o valente e heróico Diarinho. Isso é história. Abraços.

jânio disse...

Não esqueça a sintaxe, Cesar. Depois que aboliram a revisão e deixaram a coisa "por conta", valha-nos Deus! A gente lê cada barbaridade que custa a acreditar que um cristão assim passou no vestibular e se formou. Tivesse o jornalismo um "Detran", esse pessoal todo teria de fazer reciclagem, nem que fosse moer na máquina...

Anônimo disse...

Obrigado professor!

Carlos Andrade disse...

Falando de Universidades:

1 - Cotas na UFSC sendo condenadas por mais um juíz. Será que não merece uma reflexão sua sobre o sistema, a pontuação alcançada pelos cotistas e a separação entre brancos e negros?

1- Dê uma lida você mesmo direto do site da UDESC: http://www.udesc.br/ascom/noticias/mostranoticia.php3?qwerty=2008&qwebty=01&quebty=16&qwbrty=0

Abraços

Carlos Andrade

Cesar disse...

O link sobre a Udesc, no comentário do Carlos, ficou quebrado. Daqui a pouco vou colocar o comentário dele como post, pra que vocês tenham acesso ao link com maior facilidade.