terça-feira, 8 de janeiro de 2008

LULA E A ANATOMIA

Se eu fosse um sujeito ranzinza, desses que ficam pegando no pé das autoridades simplesmente porque elas são o que são e estão onde estão, teria hoje um prato cheio.

Depois de séculos de uso, o velho ditado “cortar na própria carne” parece que perdeu força. Tanto que o presidente resolveu inovar, colocando sob a lâmina afiada da sua língua, outro detalhe anatômico. Ontem ele advertiu que a situação exige muito mais do que auto-mutilação muscular. Precisa que se “corte na própria veia”.

Algum engraçadinho poderá até enfiar ali um acento, como se Lula tivesse mandado “cortar na própria véia”. Mas não, o empacotador dissimulado e prolixo queria mesmo dizer que é preciso cortar num daqueles caninhos que, em vários seres vivos, humanos inclusive, conduzem o sangue.

Por que teria ele abandonado a carne e passado para a veia? Esta é uma discussão que poderia encher páginas e mais páginas, se não fosse janeiro, se o sol não estivesse brilhando e se eu não tivesse mais o que fazer. Por isso, tentarei ser breve.

Decerto ele acha, como tantos, que o brasileiro é um forte, que não liga para a catadupa de impostos que lhe extraem por todos os poros assalariados (sim, porque se tiver uma grande fortuna, o leão só ronrona e acaricia, não ruge nem morde).

Cortar na nossa própria carne já não causaria o efeito pretendido. Deve imaginar o presidente que se mandasse “cortar na veia” a turma se assustaria mais e o levaria, finalmente, a sério.

Esquece-se, porém, o honorável dignitário, que esses ditados populares e frases de efeito precisam fazer sentido. É possível entender que, diante de uma situação extrema, de dificuldade e penúria, um vivente possa cortar um pedaço da sua própria carne, quem sabe um naco de bunda macia e continue vivendo. E até supere a dificuldade.

Por mais horrenda que essa sugestão auto-antropófaga possa parecer, não deixa de fazer algum sentido: consumir-se um pouco, para dar a volta por cima. Há um outro ditado que é primo-irmão desse, que é “queimar as gorduras”. Tem sentido semelhante e é bem menos radical.

Mas, se sair cortando veias, o pobre coitado não sobreviverá. Cortar as veias é o que fazem os suicidas, sempre que viver lhes parece insuportável. Recomendar a alguém “cortar na própria veia” é uma inadequada e escandalosa sugestão ao suicídio. Em outras palavras, seria como dizer “matem-se de uma vez, cambada de chorões”.

[O lindo esqueleto ajoelhado, sobre o qual fiz a molecagem acima, é um desenho de William Cheselden (1733) encontrado na US National Library of Medicine/Bethesda MD.]

2 comentários:

Anônimo disse...

Tio Cesar,

Que sorte a tua de ter um vizinho com piscina, moras mal heim, mandrião!
Fiquei morrendo de inveja!

Fã da coluna,

Eloy Figueiredo

jânio disse...

Acho que ele quis dizer que está "com a corda no pescoço". Ah, se alguém chutasse o banquinho, heim?!