quinta-feira, 3 de julho de 2008

A CORDA E O ENFORCADO

No dia 30 de maio publiquei o resumo do livro “A descentralização no banco dos réus” e nos dias seguintes, os principais trechos. A rigor, nada do que está sendo divulgado agora é novidade para os leitores desta coluna.

Mas é claro que a divulgação, pela TV, dos diálogos gravados pelo dono da revista Metrópole adiciona novos componentes: por exemplo, o tom em que as conversas se deram. As inflexões de um e de outro. Não parecem, de fato, conversas entre achacador e extorquido. A transformação daquela relação em “caso de polícia” deve ser coisa recente. Durante algum tempo o Nei Silva foi atendido como se atende a qualquer cobrador chato, a quem devemos algo.

É completamente irrelevante discutir se o valor era R$ 500 ou um milhão, R$ 300 ou R$ 10. O que parece cada vez mais claro é que houve, de fato, algum tipo de acerto. E ocorreram pagamentos! Até agora, que eu ouvisse, ninguém nega ter pago alguma coisa (que nem foi tão pouco assim).

Em sua defesa, o governo tem afirmado que não houve autorização, contrato, nem nada que comprove o compromisso e a dívida. Então por que o ex-secretário Armando Hess primeiro e o secretário Ivo Carminatti, depois, prosseguiram com uma interminável negociação onde, até onde se sabe, a única divergência era sobre os valores?

Ora, não somos ingênuos a ponto de achar que, se a maracutaia não seguiu a tramitação oficial e não gerou o papelório de praxe, significa que não existiu. Contratos de gaveta e acertos informais são muito comuns no mundo real. O tom com que as conversas ocorreram mostram claramente uma negociação sobre pagamento. Até agora não apareceu nada que demonstre que o governo, ou algum dos que falavam em nome dele, deu um basta ou ameaçou dar um basta naquela situação que, agora, dizem que era esdrúxula.

O secretário Ivo agarrou-se a duas tábuas retóricas de salvação. O “caso de polícia”, para situar fora da lei o que os donos da Metrópole faziam. E o “dei corda para ele se enforcar”, para justificar o teor das conversas que teve, em vários encontros e telefonemas, com o “extorquidor” Nei Silva.

Manda o bom senso que o secretário comece a recolher as cordas que andou distribuindo, antes que, em algum tropeço, acabe ele próprio se enrolando.

TEM ALGUM MÉDICO AÍ?

A prisão do Nei Silva, com o respectivo flagrante de extorsão, foi a típica faca de dois gumes. Antes da prisão, apenas alguns blogs e esta coluna falavam no livro. Os grandes veículos mantinham um silêncio obsequioso sobre o assunto.

Com a prisão, se por um lado se colocava o assunto como “caso de polícia” e mostrava-se o “extorquidor” de algemas, atrás das grades, por outro fez com que todos os demais veículos também entrassem no caso. Nos primeiros dias as notícias eram apenas sobre o caso policial, mas depois passaram a incluir os argumentos da defesa do acusado.

Ontem o deputado Joares Ponticelli fez um pronunciamento multimídia: reproduziu, nos telões da Alesc, a reportagem do Jornal do Almoço sobre as gravações e leu mais um capítulo do livro na tribuna.

A ferida aberta pelo livro, em vez de cicatrizar, ameaça infeccionar. Não seria o caso do Dr. MPE se mexer?

8 comentários:

carlos disse...

O MPE se mexer? O senhor é um fanfarrão, Tio Cesar! Ainda se fosse o MPU ... O senhor já reparou a quantidade de propaganda ( e não publicidade oficial) veiculada diariamente nos jornais e TV, principalmente de São José? Acho que os votos dos ministros do TSE no caso da cassação do governador são bem elucidativos sobre o que é uma coisa ou outra, e mesmo assim a coisa corre solta, o MPE letárgico, nem uma simples ação de improbidade, nada! Quem sabe pedindo o cabo de vassoura ...

jânio disse...

Sifu. Prá isso não tem vacina!

Schneider disse...

Além de uma CPI (falta apenas uma assinatura)está na hora da Polícia Federal entrar em ação.
Aliás, o pessoal da PF já está habituado a lidar com os amiguinhos do LHS.

Anônimo disse...

Se o Ivo Carminatti tem razão, que estavam aprontando para o Ney, as gravações não teriam que ser realizadas pelo governo ? O enforcado é que gravou, não entendí.

Anônimo disse...

Valente, te deixo uma pergunta: desde o início da atual administração, quantas vezes o MPE divulgou alguma ação dele relacionada à investigação de atos ilícitos no Executivo Estadual? Hã?

mauricio disse...

Cesar.
Afinal a dívida era do governo, do governador ou o partido.
Se era do governo por que o partido teria pago uma parte?
Se era do governador por que tantos ocupantes de cargos se envolveram?
Se era do partido, por que os contatos eram efetuados com o governo?
O Ney diz que recebeu R$ 120 mil em três parcelas. Não há recibo dessas importâncias? De que caixa saíram?
Abraços.

Carlos disse...

Todos estranhando a omissão da Justiça ?
Alguém ainda tem dúvida do motivo de termos o atual governador de plantão ?
Ora, ora, que santa ingenuidade !

Anônimo disse...

SR. CESAR,

ACREDITO QUE JÁ PASSOU DA HORA DA REFORMA DO JUDICIÁRIO. PRECISAMOS, COMO CIDADÃOS, NOS MOBILIZAR PARA QUE TODO E QUALQUER CARGO PÚBLICO, INCLUSIVE DOS DESEMBARGADORES DO JUDICIÁRIO SEJAM VIA CONCURSO PÚBLICO. ENQUANTO A POLÍTICA PARTIDÁRIA PREDOMINA, NINGUÉM ESTÁ LIVRE DAS "AMARRAS" DO TRÁFEGO DE INFLUÊNCIAS.