sexta-feira, 18 de julho de 2008

EU SEI DE TUDO!

Estava relendo um livro de crônicas do Luís Fernando Veríssimo (“As Mentiras que os Homens Contam”, Objetiva, 2000) e de repente tive uma revelação. Acabara de ler um texto que explicava tudo. Sim, apesar de ter sido escrito há alguns anos (o livro foi publicado em 2000 e é uma compilação de textos publicados anteriormente), ele continha a chave mestra (ou micha, dependendo dos hábitos do leitor) para os mistérios atuais. Desvendava uma prega obscura da natureza humana, que torna possível praticamente tudo o que hoje existe, na política e em várias outras áreas.

Todo esse enredo do Daniel Dantas, homem poderoso em governos tucanos e petistas, essa novela da revista Metrópole, com a notoriedade alcançada pelo Nei Silva e pela Márgara Hadlich, ficam repentinamente muito claros com a leitura dessa crônica genial.

Não contem para a editora Objetiva, mas para não deixá-los com água na boca, surrupiei o texto do livro e reproduzo-o abaixo, clandestinamente, confiando no bom senso de todos vocês, que embora sabendo deste segredo, tratarão de não contá-lo a ninguém. Enjoy.

BRINCADEIRA
Luís Fernando Veríssimo
Começou como uma brincadeira. Telefonou para um conhecido e disse:
— Eu sei de tudo.

Depois de um silêncio, o outro disse:
— Como é que você soube?
— Não interessa. Sei de tudo.
— Me faz um favor. Não espalha.
— Vou pensar.
— Por amor de Deus.
— Está bem. Mas olhe lá, hein?

Descobriu que tinha poder sobre as pessoas.
— Sei de tudo.
— Co-como?
— Sei de tudo.
— Tudo o quê?
— Você sabe.
— Mas é impossível. Como é que você descobriu?

A reação das pessoas variava. Algumas perguntavam em seguida:
— Alguém mais sabe?

Outras se tornavam agressivas:
— Está bem, você sabe. E daí?
— Daí nada. Só queria que você soubesse que eu sei.
— Se você contar para alguém, eu...
— Depende de você.
— De mim, como?
— Se você andar na linha, eu não conto.
— Certo.

Uma vez, parecia ter encontrado um inocente.
— Eu sei de tudo.
— Tudo o quê?
— Você sabe.
— Não sei. O que é que você sabe?
— Não se faça de inocente.
— Mas eu realmente não sei.
— Vem com essa.
— Você não sabe de nada.
— Ah, quer dizer que existe alguma coisa para saber, mas eu é que não sei o que é?
— Não existe nada.
— Olha que eu vou espalhar...
— Pode espalhar que é mentira.
— Como é que você sabe o que eu vou espalhar?
— Qualquer coisa que você espalhar será mentira.
— Está bem. Vou espalhar.

Mas dali a pouco veio um telefonema.
— Escute. Estive pensando melhor. Não espalha nada sobre aquilo.
— Aquilo o quê?
— Você sabe.

Passou a ser temido e respeitado. Volta e meia alguém se aproximava dele e sussurrava:
— Você contou para alguém?
— Ainda não.
— Puxa. Obrigado.

Com o tempo, ganhou reputação. Era de confiança. Um dia, foi procurado por um amigo com uma oferta de emprego. O salário era enorme.
— Por que eu? — quis saber.
— A posição é de muita responsabilidade — disse o amigo. — Recomendei você.
— Por quê?
— Pela sua discrição.

Subiu na vida. Dele se dizia que sabia tudo sobre todos, mas nunca abria a boca para falar de ninguém. Além de bem informado, um gentleman. Até que recebeu um telefonema. Uma voz misteriosa que disse:
— Sei de tudo.
— Co-como?
— Sei de tudo.
— Tudo o quê?
— Você sabe.

Resolveu desaparecer. Mudou-se de cidade. Os amigos estranharam o seu desaparecimento repentino. Investigaram. O que ele estaria tramando? Finalmente foi descoberto numa praia remota. Os vizinhos contam que uma noite vieram muitos carros e cercaram a casa. Várias pessoas entraram na casa. Ouviram-se gritos. Os vizinhos contam que a voz que mais se ouvia era a dele, gritando:
— Era brincadeira! Era brincadeira!

Foi descoberto de manhã, assassinado. O crime nunca foi desvendado. Mas as pessoas que o conheciam não têm dúvidas sobre o motivo.
Sabia demais.

Um comentário:

Aldir disse...

Caro jornalista respeitado e querido por mim e minha família,isso parece mais é um recado para a moça lá...espera deixa eu voltar lá e pegar o nome.............voltei, Márgara,ela vai se assustar desta forma,espera ela falar na Assembléia ,depois vc escreve uma coisa dessa.