segunda-feira, 21 de julho de 2008

O ESSENCIAL E O ACESSÓRIO

Nesta novela de terceira categoria cujo enredo está esboçado no livro “A descentralização no banco dos réus”, o que é perfumaria, quais são os adereços descartáveis e o que é fundamental?

A meu ver o fundamental é que houve quem achasse razoável pagar algumas centenas de milhares de reais para que se fizessem revistas falando bem do governo. Revistas ruins, mal feitas, cobradas a preço de material de primeira. E houve quem achasse que obteria boa vontade e boas graças do governo ou pelo menos de parcela do governo, se contribuisse para tal publicação.

Oficialmente, até onde se sabe, “não houve pressão”, como candidamente confessou o dirigente da Associação Empresarial de Criciúma, mas houve a sugestão. Havia a possibilidade, real ou imaginada, de compensar mais adiante, de alguma forma, o que hoje fosse “investido” naquele veículo. É importante apurar essas coisas. Afinal, um empresário tem todo o direito de anunciar em uma revista apenas porque ela fala bem do governo. Cada um faz o que bem entende com seu dinheiro. Mas quando existe a suspeita que antes, depois ou durante ele teve, tem ou terá algum benefício do governo que lhe permita recuperar a grana privada, metendo a mão em grana pública, a coisa precisa ser muito bem esclarecida.

Fornecedores e “parceiros” do governo aparecem naquelas revistas? Contribuíram? Pois bem, que se apure o que houve. É fácil, hoje em dia, cruzar bancos de dados. Se quiserem, os fiscais de contas, civis ou criminais conseguirão somar um mais um e chegarão ao resultado.

Há, ainda, a outra parte, já investigada, que resultou no processo que tramita no Tribunal Superior Eleitoral. São coisas complementares. O processo no TSE inclui, entre as provas, dois números da revista. Que, não por acaso, não constam do livro. O livro abre novas áreas de investigação no mesmo âmbito do uso indevido dos meios de comunicação e abuso do poder econômico. O governo diz agora que a revista é insignificante, que não teria poder para alterar resultado de eleição, seria incapaz de influenciar pessoas. Muito bem, até pode ser, mas é um ponto ainda controverso.

E embora a pendenga toda tenha se dado por causa de um acerto de contas específico, é fundamental também estudar as publicações que não tiveram problemas de caixa. Como a da Casan. Ou a que tem o então presidente do Tribunal de Justiça na capa. E a do Badesc.

E o resto? Ora, o resto é o resto. Que o Nei seja condenado por extorsão, que seja preso, que desminta tudo, que publique o livro, não altera em nada o essencial. Da mesma forma, se a Márgara não quiser mais falar, se não aparecer amanhã na Assembléia ou mesmo se não aceitar o convite do Ministério Público, nada muda. Assim como nada mudou quando ficamos sabendo que ela foi concorrente da Marlene Rica. E que, dentre tantas donas de “casas” de Joinville, foi a única condenada.

Ah, outra coisa salutar é não achar que crime, se houve, foi unicamente relacionado com a revista. É muito mais grave saber que fornecedores do governo estão vulneráveis ao acesso ou mesmo assédio de membros, representantes ou amigos do governo. Outro dia me falaram (e nada publiquei porque não houve comprovação cabal) que um comissionado do governo teria recorrido a uma empreiteira para “ajudar” nos custos de uma viagem. E que isso seria mais ou menos comum, em certa área do governo: quando não há recursos oficiais para fazer alguma coisa, recorre-se ao fornecedor.

Não interessa se o empresário foi procurado para fornecer uma passagem, para comprar um anúncio, para doar uma mesa, para dar presentinhos para a festa de Natal, para arranjar emprego para algum afilhado. O crime é igual. E isso é o importante. Se a viagem foi para Salvador ou para Curitiba, se o anúncio foi na Metrópole ou na Perfil, se o presente foi para ser sorteado entre os funcionários ou para ser dado ao secretário, se o emprego foi de servente ou de diretor, são meros detalhes. Valorizá-los além da sua medida correta, é ajudar a desviar o foco. E o foco, naturalmente, é o combate à corrupção.

Inibir a ação de corruptos e corruptores é tarefa permanente, apartidária. Não podemos ter ilusões pueris: os santos homens da oposição de hoje, se e quando estiverem no poder, sofrerão as mesmas tentações e alguns cairão, outros resistirão. Igualzinho ao que ocorreu ontem e ocorre agora. Nem todos, no governo, são desonestos. E nem sempre é possível a um indivíduo, sozinho, escapar das teias de corrupção instaladas aqui e ali.

Um dia um fiscal me contou que, ao chegar em determinado local para trabalhar, era jovem, idealista e fundamentalmente honesto. Não recebia propinas, não facilitava, não aceitava favores. Um dia encontrou, na gaveta de sua escrivaninha, um envelope com muito dinheiro. Um colega mais velho, respeitado pelos seus pares e a quem ele admirava pela competência, aproximou-se dele e disse, sem demonstrar nervosismo, como se fosse a coisa mais natural: “ou tu entras no esquema, ou tua vida vira um inferno”. Só. Ele teve uma vida boa. Ótima. Até se aposentar. Tentou compensar o remorso de ter feito parte do “esquema” pensando que estava fazendo o que fazia pelo bem da sua família. E que nada mudaria, no esquema, caso ele tivesse se recusado.

É por isso que acho que, no caso da Metrópole a dívida, o Nei, a Márgara, o Danilo, têm papel cada vez mais coadjuvante. E os indícios de que houve (há?) uma relação promíscua entre o governo (ou parte dele) e seus fornecedores, ganha cada vez mais protagonismo.

EM TEMPO

Já que estamos no assunto, vocês podem ler, se quiserem mais material de reflexão e debate, a entrevista que o Bolivar Lamounier deu ao jornalista Pedro Doria no O Estado de S.Paulo:
“O Brasil é essencialmente corrupto e precisamos encarar isso”, diz o cientista político Bolívar Lamounier, autor, com outros estudiosos, de Cultura das Transgressões no Brasil (Ed. Saraiva). “Vivemos há cem anos a ilusão de que com o crescimento econômico e a melhoria educacional tudo vai melhorar. O País está mais rico e, ao que tudo indica, mais corrupto. Existem avanços. O Ministério Público, a Polícia Federal, a própria Justiça.” Mas, na avaliação do professor, temos uma política pior.
A íntegra está aqui.

ATUALIZAÇÃO DA MADRUGADA

Graças ao lembrete do “A política como ela é”, dei-me conta que saiu o relatório final da CPI da Moeda Verde, da Câmara de Vereadores de Florianópolis.

O final da CPI prova, por a + b, que vivemos num vilarejo que poderia muito bem ter sido inventado por Gabriel García Marques ou qualquer outro ficcionista do realismo fantástico. Duvida? Então continua lendo.

O relator é o vereador Deglaber Goulart, líder do governo na Câmara. É do gabinete dele o papel timbrado em que o relatório está escrito. Oficialmente, é ele o autor, responsável último pelo conteúdo das quase 300 páginas do relatório. E pela citação do prefeito Dario Berger, junto a outros suspeitos.

O vereador Alceu Nieckarz discordou do relatório, porque acha que não aconteceu nenhum ilícito, nada se comprovou e aí fez um voto em separado, naturalmente falando mal do relatório e suas conclusões. Adivinha quem assina o voto em separado junto com o Alceu? Ele mesmo, o Deglaber, o relator! O relator diz uma coisa no relatório e se desdiz no voto em separado. E assina os dois papéis. Morde e sopra.

Provavelmente deixou alguém escrever o relatório por ele, não leu direito e só se deu conta do que estava escrito ali quando alguém mostrou o tamanho da encrenca. Aí quis cair fora, mas foi impossível, era tarde demais. O jeito que achou foi assinar (de novo) o que outro escreveu, desta vez metendo o pau no relator. Ou seja, nele mesmo.

Não é uma coisa típica de republiqueta bananeira? Depois eles não sabem por que a população não os leva a sério.

O relatório e o voto em separado estão aqui, no site da Câmara de Vereadores.

Quando estiver lá, se resolver baixar, lembre-se que são arquivos em pdf e que o relatório tem quase 300 páginas. É pesado para conexões discadas.

7 comentários:

mauricio disse...

Cesar.
Quanto ao texto "O Essencial e o Acessório", farei nova leitura amanhã, depois de amanhã ou daqui a um mês para ver se o que entendi é o que entendi.
Abraços.

Anônimo disse...

No episódio do impeachment do Paulo afonso, em 1997, o relator, deputado Jaime Mantelli (PDT), emitiu parecer pelo afastamento do governador e, no plenário, votou contra o próprio relatório. A história se repete, com outros personagens e em outras circunstâncias, mas o partido no poder é o mesmo. Coincidência, não?

Marcelo Santos

Anônimo disse...

E de que adianta ler este "calhamaço", se já sabemos que tudo foi ajeitado para não complicar a reeleição do Alemão, o Dário?
O Deglaber, vai mais uma vez, concorrer a reeleição pela Câmara. Então, porque se incomodar?
Aliás, este mesmo vereador, anda fazendo campanha também em São José para o irmão do Alemão, o Djalma, que está em clima de "Já ganhou", na cidade vizinha da capital. A irmã dele (Kátia Goulart) tbém concorrer à uma vaga na Câmara de São José. Enfim, uma bandalheira, em nome do favorecimento pessoal e familiar.
Eleitor: Vote Consciente!!!

Wilmor Henrique disse...

Rá!
Esse Deglaber é uma piada!
mandei um e-mail perguntando qual foi o objetivo disso.

Será que ele como relator é obrigado também a assinar os votos em separado?

Anônimo disse...

Quanto ao texto "O Essencial e o Acessório", sobre a novela mais baixalha que eu já vi na minha vida, volto a dizer o que já disse aqui nesta coluna uma vez: ninguém nega que houve extorsão, certo? O governo é cklarríssimo em afirmar que houve "extorsão". Pergunto: pra que serve uma EXTORSÃO? Pra chantagear alguém e ficar caladinho sobre alguma coisa ERRADA que o outro fez. Isso é da LÓGICA DA EXTORSÃO. Ora, ora, meu caro Watson, se "coisa errada a esconder" não havia, PRÁ QUE EXTORSÃO??? Bota corda pra se enforcar nisso...

Anônimo disse...

Deglaber, é o “deixa que eu deixo” da vez. Puxando um saquinho daqui, empurrando pepino dali, ele vai levando sua “gloriosa” carreira, sempre na sombra dos pequenos poderosos. Uma biografia e tanto. Por isso me orgulho dos políticos do meu país.

Wilmor Henrique disse...

A resposta do vereador ao meu e-mail foi:
"Sr. Wilmor,

Seu e-mail foi passado ao Vereador Deglaber Goulart e ele pediu que antes de fazer juízo de alguém o Senhor se informasse melhor, para não julgar errado as atitudes das pessoas. Quem deu voto em separado no relatório final da CPI Moeda Verde foi o Vereador Alceu Nieckarz. O Vereador Deglaber, como relator da referida CPI, apenas acatou as sugestões feitas pelo Vereador Alceu em seu voto em separado.

Atenciosamente,

Assessoria Parlamentar
Gab. Vereador Deglaber Goulart
"

Eu sugeri a ele, vir a publico, com uma nota explicando o caso, pois não sou apenas eu que não entendi a atitude dele, até agora nao recebi outra resposta.
Nao sei porque, mas naã botei muita fé na resposta.