terça-feira, 23 de outubro de 2007

SONHA, SONHA, MARCELINO...

Ah, se o Brasil tivesse uma oposição...

Volta e meia falo (ou me lamento) sobre a apatia de quem deveria fazer oposição e sobre a dificuldade que os “oposicionistas” têm de encontrar seu rumo na vida. Aqui e ali, às vezes, aparecem algumas vozes, mas não há, mostrando a cara, uma oposição forte e combativa, como uma democracia merece.

Deve ser, naturalmente, porque todos os que perdem eleição passam, imediatamente, a negociar, com quem ganhou, a forma de mudar de lado. Chegará o tempo em que as eleições não terão derrotados: automaticamente, assim que for anunciado o resultado, todos alinham-se, de bocas e bolsos abertos, embaixo do palanque vencedor, prontos a prestar serviço a quem, um dia, criticaram.

Aí, no final de semana, li um artigo que diz exatamente o que eu sempre quis dizer. É do Alon Feuerwerker, que publica regularmente no Coreio Braziliense. Tomo a liberdade de reproduzir o artigo na íntegra, mesmo levando em conta que é um tijolão, que pouca gente lê tijolões de texto. Mas o fato é que esta discussão é fundamental.

SE O BRASIL TIVESSE UMA OPOSIÇÃO

Por Alon Feuerwerker

“Qual deve ser, em tese, a atitude esperada de um partido de oposição? Fazer oposição. E por quê? Porque quanto mais forte estiver o governo menos provável será que a oposição chegue ao poder. Acho que vem do tempo do regime militar a nossa mania de adjetivar a oposição. “Responsável”, “autêntica”, “propositiva”, “moderada”. Haja adjetivos. Oposição é oposição, e ponto final. Ela é contra o que o governo propõe, por definição. Acha defeito no que parece não ter defeito. Fuça incansavelmente até encontrar casos a partir dos quais possa acusar o governo de ser o mais corrupto de todos os tempos. E por aí afora.

Você poderá argumentar que a modalidade de oposição descrita acima é impatriótica, porque trabalha com a premissa de que quanto pior, melhor. Paciência. O inverso é que seria complicado de administrar. Quem define o que é “patriótico”? O governo? Não dá, porque segundo o governo tudo o que ele faz é para o bem do país. A opinião pública? Mas qual setor da opinião pública? O que está a favor do governo ou o que está contra? E quem controla a opinião pública? Como se vê, o problema é insolúvel. Melhor ficar com a minha definição inicial.

Um partido de oposição, por exemplo, gritaria aos quatro ventos que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva entregou de graça para exploração pelo capital estrangeiro as rodovias federais leiloadas na semana passada. Faria disso um escândalo. Pediria uma Comissão Parlamentar de Inquérito. E quando o governo viesse com a explicação de que o objetivo de não cobrar nada das felizes concessionárias foi garantir um pedágio bem baratinho, a oposição já teria a resposta na ponta da língua. Diria que o governo pratica “renúncia fiscal” com os usuários de auto-estradas ao mesmo tempo em que se recusa a abolir a CPMF, que onera tanto quem usa estrada quanto quem não usa. E reafirmaria a necessidade da CPI.

Um partido de oposição cobraria duramente do governo a aceleração do programa de reforma agrária. O presidente da República viaja pelo mundo para defender a tese de que há terra sobrando para plantar coisas que podem ser usadas na produção de biocombustíveis. Já o presidente do Incra dá entrevistas para dizer que as terras brasileiras estão muito caras, porque há uma corrida por elas. Principalmente de estrangeiros. O presidente do Incra diz que o excesso de demanda faz explodir o preço da terra e portanto dificulta o programa de reforma agrária. Até porque o governo paga terra com títulos públicos, enquanto os estrangeiros pagam com dinheiro. Se o Brasil tivesse uma oposição de verdade, ela exigiria do Incra a relação das terras improdutivas, que o presidente da República diz existirem em abundância. Onde estão elas? Por que não são desapropriadas por interesse social?

Um partido de oposição convocaria ao Congresso o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central (que agora é ministro e, portanto, pode ser convocado) para justificarem por que uma economia que está à beira de obter o investment grade não consegue operar com juros básicos compatíveis com o status de quem quase atingiu o grau de investimento. Durante a audiência, essa oposição cobraria a demissão do presidente do BC. Constrangê-lo-ia até esse ponto. Se o presidente do BC não sabe como fazer a coisa, que dê lugar a quem diz que sabe. Se o país está a maravilha que o presidente da República e seus ministros dizem estar, não há motivo para que o Tesouro Nacional continue arcando com uma despesa exorbitante na conta de juros.

Se o Brasil tivesse um partido de oposição, ele procuraria minar a todo momento a força do principal partido de sustentação do governo. A oposição lutaria, por exemplo, para evitar que a legenda do presidente da República abocanhasse a presidência das duas Casas do Congresso Nacional, mesmo com apenas 20% dos deputados e senadores em suas fileiras. Ainda mais quando se sabe que o presidente, por enquanto, não pode ser candidato à reeleição. E que, portanto, o principal adversário da oposição na próxima eleição não será o presidente, mas o partido do presidente.

Os exemplos são apenas alguns dos que nos garantiriam assunto se o Brasil tivesse mesmo uma oposição. Se ela, por alguma razão, não concordasse com nada do que está escrito acima, se achasse tudo uma maluquice, poderia chegar a outros pontos falhos do governo, desde que se dispusesse a usar os neurônios em vez de permanecer num estado de dormência, que só se interrompe quando algum jornalista aparece com um escândalo.”
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

5 comentários:

Bruxinha Nova disse...

Ah, se o Brasil tivesse um governo...Adulteram o leite - PARMALAT e NESTLÉ - e nenhuma, absolutamente nenhuma palavra, nada disso aí que chamamos de governo....Bem, mas a oposição, ah a nossa oposição....

Anônimo disse...

Ah se o Brasil tivesse uma oposição.... Realmente faz muita falta e fica parecendo que todos tem o rabo preso!!
Como é que os sem terra, financiados pelo governo, continuam invadindo fazendas de pesquisa, pessoas morrem e a oposição não faz nada???
É cada vez mais difícil de entender.
A Carlos

Schneider disse...

César. Não apenas em nível nacional carecemos de oposição. Se houvesse uma oposição atuante em SC, certamente alguém não agiria como imperador e não atuaria como se fosse um chanceler.

Anônimo disse...

Realmente não vejo oposição. Todos ficam somente criticando de longe, esperando o momento oportuno pra chegar "lá" também.
Pobres de nós. Concordo plenamente com o que diz o jornalista sobre as terras improdutivas. Eu tô esperando pela reforma agrária há anos. Enquanto isso só vejo acampamento e pneu sendo queimado no meio das estradas. É verdade que nunca "sigo" os acontecimentos até o fim, mas porque nunca se sabe claramente de nada sobre isso? É segredo, é? Ou sou eu que nao me informo mesmo e sou língua firina, como diria minha mãe?
Tereza (Bruxelas)

Cesar disse...

Oi Tereza, há quanto tempo! Tudo bem? Não te preocupa, o problema é que os jornalistas são como crianças pequenas: logo perdem o interesse pelo brinquedo. Muito difícil convencer os coleguinhas a acompanhar um assunto por mais de uma semana.