quinta-feira, 8 de maio de 2008

POR QUE NÃO O TRANSPORTE AQUÁTICO?

Na coluna de ontem lancei um desafio a arquitetos, urbanistas, etc, para comentarem a decisão do governo LHS, de implantar, até 2010, um metrô de superfície em Florianópolis. O arquiteto Alfred Biermann aceitou-o e enviou sua contribuição. Os negritos são meus.

“Prezado Sr. Valente

Suas preocupações quanto ao ritmo de implantação de um sistema de transporte urbano terrestre interligando diversas regiões da Grande Florianópolis são procedentes.

O que se constata, mais uma vez, é a defasagem entre o ritmo do “mundo real” e o dos interesses políticos em véspera de campanha.

Um aspecto não mencionado em relação ao sistema de transportes proposto é sua interferência com as diretrizes determinadas pelos Planos Diretores dos municípios nos quais será implantado.

No caso específico de Florianópolis a desatenção a este “pequeno detalhe” implica numa situação inédita: estarão sendo realizadas mudanças pontuais de zoneamento e conceituação antes mesmo da conclusão do novo plano que ainda está em discussão junto às comunidades.

Novamente, tal como ocorreu em inúmeras intervenções desastradas feitas pela Câmara de Vereadores para atender a interesses da Indústria da Construção Civil, o planejamento urbano será comprometido por interesses individuais sobrepostos aos da comunidade.

É o populismo matando o urbanismo, conceito repetidamente aplicado aos desastrados governos do Eng. Leonel Brizola no Rio de Janeiro, cujos resultados vemos todos os dias nos telejornais.

Os fatos, ao contrário das afirmações demagógicas, demonstram que sistemas de transportes coletivos tais como metrôs ou bondes, implicam em prazos consideráveis de estudos, projetos e implantação.

Para trechos que envolvem longa quilometragem, caso da ligação entre Barreiros e o centro de Florianópolis, em cidades nas quais já foram implantados tais sistemas eles demandaram 10 a 20 anos para sua concretização. É um dado estatístico.

A desobediência aos princípios do bom senso e da boa técnica resulta em soluções desastradas e caras, tais como os terminais do transporte integrado de Florianópolis, três dos quais, a um custo médio de 2,5 milhões de reais segundo divulgado pela imprensa, foram desativados e encontram-se sem uso.

A população de Florianópolis pagou esta conta que rendeu muitos votos.

Até mesmo a veneranda figueira da Praça XV sabe que a única solução fácil, rápida e eficiente de interligar os municípios da Grande Florianópolis é pelo mar.

Um sistema eficiente de transportes aquáticos, tal como existe no Rio de Janeiro, em Sydney, em New York e tantas outras cidades, pode ser implantado em prazos que correspondem a, no máximo, 10% daquele necessário para a implantação de um sistema terrestre.

Por que não é adotado aqui? A resposta é: desinteresse político.

Os sistemas de transporte aquático envolvem um volume reduzido de obras, o que contraria os interesses das empreiteiras e da Industria da Construção Civil.

Ele exige (quando exige) um volume reduzido de desapropriações, visto que os piers de acesso são construídos sobre a água, área de propriedade da União, isto desagrada aos advogados e à “indústria dos processos”.

Ele é um sistema mais rápido e confortável que os ônibus que circulam na cidade, é portanto um concorrente que desagrada ao cartel do transporte coletivo.

Ele não implica em concorrências complexas o que torna o processo bastante transparente, isto desagrada à “indústria da propina”.

Assim sendo, contrário ao bom senso, a boas soluções técnicas e aos interesses da população vamos assistir a uma “ópera bufa” cujos resultados serão muito semelhantes ao do execrado “papa-fila” de São Paulo que até hoje somente papou um volume enorme de verbas públicas.

Assim como o senhor espero estar enganado e aproveito a oportunidade para convidá-lo a um passeio do centro a Barreiros, utilizando o novo “metrô de superfície” na véspera das eleições de 2010.

As passagens, evidentemente, serão por minha conta.

Cordialmente.”

Alfred Biermann
Arquiteto

3 comentários:

Carlos disse...

O Arquiteto Biermann está repleto de razão na primeira parte de sua manifestação, quando fala na necessidade de planejar melhor uma obra do porte de um metrô de superfície. Não é um brinquedinho qualquer, que se não der certo a gente desmancha.
Que o metrô de superfície seria uma bela obra para a Capital, não há dúvida, só que envolve uma série de estudos técnicos e econômicos que não se faz de um dia para o outro.
Dentre as inúmeras dúvidas, selecionei três para começar:
A primeira: Quem vai operar esse trem ? Será o Deinfra, a Celesc, a SC Parcerias, uma PPP ?
Segunda: Existe uma pesquisa de origem e destino das pessoas para avaliar qual será a linha prioritária ? de onde surgiu a idéia de ligar Barreiros à UFSC ?
Terceira: Está a Celesc capacitada para suprir de energia um equipamento desse porte ? tem algum estudo das distorções harmônicas que um equipamento desse provoca na rede elétrica ? Foram dimensionados e avaliados os custos dos filtros necessários para eliminar esses harmônicos ?
Depois de respondidas essas, passaremos para outras dúvidas.

Com relação ao transporte marítimo, discordo do Arquiteto Biermann.
Só não tem transporte marítimo aqui, por que não tem viabilidade econômica. Para competir com o transporte terrestre, só se for fortemente subsidiado, isso quem afirma é o BNDES.
No exemplo da ligação Rio - Niterói é preciso lembrar que lá o transporte marítimo é a ligação mais curta entre os centro das duas cidades, enquanto aqui as pontes são a ligação mais curta entre o continente e a ilha. Para não me alongar mais pergunto: Se o transporte marítimo é tão maravilhoso, gostaria que alguém me explicasse qual a razão de não ter também transporte marítimo para Copacabana, para Ipanema ou para a Barra da Tijuca ? e nem para Icaraí, no outro lado ?
Das outras cidades citadas não tenho conhecimento para discutir.
Aliás, é bom lembrar que esse mesmo Luiz que agora está prometendo o metrô, já prometeu o transporte marítimo para Florianópolis e Joinville, que seria feito com "overcraft" que ele tinha comprado na Rússia, lembram ?
Depois ele prometeu que uma embarcação argentina iria iniciar a linha experimental ! Já esqueceram ?

Anônimo disse...

Esse Biermann não é aquele que pediu para a Camara de Vereadores alterar pontualmente um zoneamento para que ele pudesse projetar um monstrengo de 14 andares em Coqueiros na década de 90? É ele sim! E agora vem queixar? É aquela velha história: faz o que eu digo não faz o que eu faço.

Carlos disse...

Para recordar, pesquisar onde foram parar os "overcraft" e descobrir qual foi o resultado do estudo, está no jornal A Notícia do dia 27/01/2005:
BARCOS NA BABITONGA
Técnicos da Universidade Federal de Santa Catarina foram contratados pelo Deter para fazer um estudo de viabilidade técnica do Sistema Aquaviário da Baia da Babitonga.
A intenção do projeto é estudar a possibilidade da instalação do meio de transporte com embarcações hovercraft, que serão adquiridas pelo governo do Estado, por intermédio do Deter.
Conforme já foi anunciado pelo governador Luiz Henrique, o sistema vai permitir o transporte de passageiros, numa linha que sairá da Enseada, em São Francisco do Sul, com parada no Centro Histórico da cidade, e chegada no bairro Espinheiros, em Joinville.
A intenção é desafogar o tráfego pela BR-280.
Mais tarde será aberta uma concorrência pública para que empresas se habilitem a explorar esse nicho econômico.
Estudo de viabilidade deve ficar concluído até março deste ano.