quinta-feira, 29 de maio de 2008

BAIXINHO NO SUPERMERCADO

[DA SÉRIE: VELHAS CRONIQUINHAS QUE ESTAVAM ABANDONADAS
NO FUNDO DAQUELE BAÚ CHEIO DE CUPINS]


Ontem foi um dia daqueles. Quando percebi, estava num supermercado, diante de uma gôndola (eram prateleiras, mas eles chamam de gôndola, fazer o quê), parado, olhado para a prateleira mais alta e imaginando: “quem tem menos de 1,60 m, mesmo que estique a mão, não vai conseguir pegar essa, como é que é mesmo? moço, por favor, me alcança essa lata ali de cima?” E quando a gente tem esse tipo de pensamento às dez da noite num supermercado é porque foi, de fato, um dia daqueles.

A ciência ainda não descobriu o que causa esse acúmulo de problemas, de tempos em tempos, num só dia. E também não explica direito como é que a gente faz de conta que não é com a gente. Se tivesse descoberto e tivesse explicado, com certeza ontem eu não acharia o livro ou a revista em que saiu a notícia e o Google não encontraria o saite.

Esses dias sempre começam um pouco mais tarde. O despertador não toca porque a pilha acabou. O carro não pega porque o filho que saiu com ele ontem conseguiu coincidir a chegada na garagem com o final do final da última gota de gasolina do tanque. Saio e olho para ver se não tem pneu vazio. Pneu vazio na garagem leva o “dia daqueles” para outro patamar, 9 pontos na escala Ai Jesus!

Mamãe, senhora idosa cujo principal divertimento é ver leilão de gado e corrida de cavalos na TV, telefona dizendo que a tv cabo saiu do ar. Devo ter esquecido de pagar. E ser assinante desde o tempo em que o cabo era feito de imbira não conta, nessas horas, nesses dias.

É nesse dia, também, que a gente consegue bater, com toda a força, o ossinho do tornozelo na quina do último (ou primeiro?) degrau da escada no momento em que tomava cuidado para não escorregar e bater com o queixo no corrimão.

Por sorte olhei antes de colocar a pasta na escova de dentes. Trocar a pomada contra queimadura por pasta de dentes também tornaria o dia insuportável. Satisfeito por não ter cometido pelo menos esse erro, enfiei a cara no blindex do box. Foi dia de faxina e ele estava bem limpinho e transparente. Sorte que estava sem óculos.

Os óculos. Tenho dois, um de reserva. Para jamais acontecer de pisar num (sem querer, claro) e ficar sem poder ler as letras pequenininhas dos títulos dos jornais. A lente praticamente inquebrável não resiste a uma pequena queda, no máximo três metros, e racha. Tenho, bem guardado, óculos sobressalente. Onde foi mesmo que coloquei?

Evito usar o sal, no almoço, porque sei que nesses dias a chance da tampa do saleiro soltar ou estar solta é enorme. Tomo muito cuidado quando percebo que estou naqueles dias. Mas não consigo evitar que um movimento de mão derrube o copo sobre o prato. Sorte que era guaraná Pureza e tem mais na garrafa. Só que o último pedaço de lombo, tão arrumadinho, com o molho e a farofa, agora está mais úmido. Quem sabe se esquentar no microondas não fica bom? Não tem gente que usa cerveja para cozinhar? Por que não Pureza?

E o dia ia andando, como diziam antigamente, “do jeito que Deus é servido”. Aproveitei que estava no computador, sem conseguir acessar os saites que precisava, sem conseguir fazer o céu da foto ficar menos fúcsia, e fui olhar meu blog, para ver se tinha novos comentários, ou talvez apenas para ler mais uma vez meu próprio nome na telinha. E vejo, com estupor e incredulidade, que as fotos desapareceram. Retângulos com um x vermelho marcam os locais dos falecimentos.

Remendado o problema é que finalmente arranjei tempo para ir ao supermercado. E foi onde nós começamos esta conversa: eu parado diante da gôndola (não me conformo que o Lula até hoje não me ligou para cumprir a promessa de campanha de me mandar para ser porteiro na embaixada brasileira em Veneza), filosofando sobre o problema que aquele fabricante de não sei que teria para vender para a multidão de baixinhos (ou menos altos) que circula por ali.

Desisti e tratei de ir embora logo, sem levar aquela coisa lá de cima. Chega. Mas quem disse que o cartão funcionou na hora de pagar a conta? E o carro, onde está o carro?

2 comentários:

Pedro Lemos disse...

Como sempre, uma ótima crônica ... que, como sempre, está a esperar um livro: ô coisa difícil não?

A minha escala de putisse vai de 0 a 1 ...

:)

Gonzalo Pereira disse...

Valente:

Te convido a ler uma croniqueta minha, que também fala de supermercado. Tá no www.acontecendoaqui.com.br (http://www.acontecendoaqui.com.br/index.asp?dep=16&colunista=21&pg=12975) . Dá uma olhada. Tua opinião é sempre valiosa.

Abraço,

Gonzalo Pereira