quarta-feira, 9 de agosto de 2006

QUARTA

Mais gente do que a gente imagina ainda vê árvores e plantas de uma maneira geral como “sujeira”. Quando eu era pequeno ouvia muito falar que mandaram “limpar o terreno”. Significava derrubar as árvores, cortar os arbustos, deixar praticamente a terra nua. A terra “limpa”. “Ninguém quer comprar um terreno sujo”, diziam.

Mesmo agora, em bairros residenciais, a gente encontra pessoas muito incomodadas com árvores que ficam diante de suas casas. A foto acima foi tirada ontem. O dono da casa, mesmo sem ter, sobre a árvore da calçada, qualquer poder, a está cortando aos poucos. De tempos em tempos corta um metro ou mais.

Perto dali, uma moradora, há alguns anos, cortou duas belas árvores que existiam na calçada em frente à sua casa. Perguntei a ela por que fazia tanta questão de derrubar as árvores: “quando dá um vento isso aqui fica tudo sujo de folhas”. De fato, folhas pelo chão são uma sujeira inaceitável, com a qual nós, civilizados e limpinhos, não podemos conviver.

Certamente há quem pense que, com tantas árvores nos morros e matas que ainda sobrevivem, uma a mais ou a menos não faz a menor diferença. O que é uma pena, porque é justamente numa cidade que a árvore faz diferença. Imaginem que vocês são passarinhos, indo de um lugar a outro. As árvores são para eles como pedras em um rio para nós. Dá para atravessar um rio pulando de pedra em pedra. Eles podem cobrir enormes distâncias em busca de alimento e de afeto, se encontram, aqui e ali, árvores frondosas onde podem descansar um pouco e trocar uma idéia com outros pássaros em trânsito.

Mas já ouvi também gente se queixar da “barulheira” dos passarinhos. E para eles a derrubada dessas árvores à beira das calçadas resolve dois problemas vitais: a “sujeira” das folhas e a “algazarra” dos passarinhos.

A Celesc, as operadoras de telefonia fixa e as empresas de TV a cabo também não gostam de árvores: é complicado estender aquela nojeira de fios que eles vivem estendendo, com as árvores atrapalhando. Uma cidade com as ruas cheias de postes e com a paisagem comprometida por uma montoeira de fios é aceitável. Uma cidade com ruas arborizadas é um problema.

A natureza é um problema. Árvores têm raízes e como nem todos se preocupam em escolher as espécies certas para plantar nas calçadas, às vezes as raízes vão abrindo caminho e destruindo calçadas, esgotos e muros. As árvores, às vezes, caem. E tem gente que tem medo de árvores porque considera que, a qualquer momento, ela cairá sobre sua cabeça ou, o que é muito pior, sobre seu carro. A natureza é mesmo um grande problema.

Felizes os habitantes do deserto do Saara. Ou das áreas desérticas que começam a se formar Brasil afora. Não precisam catar folhas. Não precisam temer as árvores. Não sofrem com o trinado dos passarinhos. Não ficam com sombras indesejáveis nos seus gramados, mesmo porque não terão grama nem qualquer outro vegetal.

Dia desses fui dar uma olhada numa araucária que, apesar do clima da capital, estava crescendo muito bem, altiva e saudável, no terreno de uma casa aqui perto. Acompanho seu crescimento há uns quinze anos. Levei um susto: tinham acabado de cortá-la, os pedaços do tronco ainda estavam por perto. Deu uma tristeza ainda maior porque, aparentemente, a derrubaram sem qualquer motivo sério. Apenas para não deixá-la crescer. Para evitar os pinhões. Com medo das grimpas. Pelo prazer obsceno de “limpar” o terreno.

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PRESENTINHO JOSEFENSE
No dia dos pais o prefeito de Florianópolis, Dário Berger, provavelmente ganhará presentinhos comprados no Camelão de São José. Ontem a primeira-dama-secretária Rose Berger e seu filho faziam compras naquele que é um dos principais “points” de comércio popular do vizinho município.

Não cheguei a ver o que eles compraram, mesmo porque tenho mais o que fazer do que espiar a sacola de compras da primeira família. Mas, como em todo camelódromo, lá se encontra todo tipo de importados (algumas lojas jamais conseguiriam explicar como alguns produtos entraram no país, mas pouquíssima gente pede nota fiscal e isso não é um problema).

Ainda bem que não sou comerciante em Florianópolis, porque se fosse ficaria chateado em saber que a primeira-família ainda não se adaptou à nova cidade e nem encontrou, aqui, fornecedores de confiança.

FALSOS DENTISTAS
O CRO está fazendo blitzen para combater os falsos dentisas que abundam estado afora. Tudo muito certo. Só que eu não vi, em nenhum momento, o CRO esboçar qualquer movimento na direção de popularizar ou baratear os tratamentos dentários. Ou mesmo estimular seus profissionais a oferecerem, à população de baixa renda, o que eles buscam nos improvisados consultórios dos dentistas de araque: um tratamento que possam pagar.

ESTRANHO VOCABULÁRIO
A nota assinada pelos presidentes do Tribunal de Justiça, do Tribunal de Contas e pelo Procurador-Geral de Justiça, onde pedem mais dinheiro do orçamento para suas áreas, não se restringiu ao conteúdo reivindicatório. Inovou estilisticamente (pelo menos para mim, que não sou afeito ao linguajar pomposo dos tribunais).

Enumeraram, os doutos signatários, seus considerandos, iniciando com verbos:
“1. Entendem...”;
“2. Sublinham...”;
“3. Destacam...”

e aí parece que deu um branco, porque começaram o item seguinte desta forma:

“4. Negritam a inafastável...”

Negritam? Como assim? O fato de terem usado o “sublinham”, que se refere também a um destaque gráfico será que os autorizaria a usar tão esdrúxulo vocábulo, derivado do “negrito”, variação tipográfica em que as letras aparecem mais grossas, como estas aqui?

Ou terá o redator querido criar um neologismo que lembrasse a expressão “Nigro notanda lapillo” com que os antigos ressaltavam a lembrança de um dia especialmente ruim (em oposição ao “Alba notanda lapillo”, para marcar um dia que se destaca pela luminosidade)?

Tirante isso, a nota deixa claro que que se não conseguirem o que pretendem, poderá ocorrer um “colapso e irreversível comprometimento dos serviços públicos”. Ou seja, o caos.

Patere quam ipse facisti legem – Já que estamos no assunto, então negritaremos também nós, maiúsculos contribuintes, donos do dinheiro ao qual Vossas Excelências querem ter acesso mais eqüânime, a necessidade que todos, de a a z, usem tais recursos com parcimônia e respeito. E que a futura abundância não sirva para afrouxar as rédeas dos controles e engordar a cobiça dos fracos de caráter.

Um comentário:

Aline Cabral disse...

Oi Cesar! Penso exatamente como você sobre a questão das árvores. De vez em quando xingo o zelador do meu prédio, que apesar de ser um amor, tem essa mania de ficar "podando" e tirando o verde e a sombra. Pior que isso, só passarinha na gaiola! beijo