sexta-feira, 1 de setembro de 2006

SEXTA



A FAZENDA EM EBULIÇÃO
A divulgação, ontem, do relatório da comissão encarregada de examinar os processos do Compex, apontando indícios de irregularidade em cerca de uma dezena deles, joga um pouco mais de gasolina na fogueira que arde nos porões do Centro Administrativo.

O fogo, entretanto, não aumentará de uma vez só: os indícios de irregularidade agora serão submetidos a novas investigações que deverão determinar sua gravidade e se de fato se constituem em fraudes ou foram apenas erros ou outros problemas menores.

A conclusão que Aldo Hey Neto é o único responsável pelas irregularidades não supreende. Afinal, se alguém mais estivesse envolvido a situação do ex-secretário Max ficaria ainda mais difícil.

CONFLITOS INTESTINOS
As circunstâncias da exoneração do assessor de imprensa da fazenda, Paulo Kastrup, deram algumas pistas sobre a tal fogueira interna.

O jornalista demitido era amigo íntimo do Rodrigo Bornholdt (filho de Max), foi seu padrinho de casamento, é seu instrutor informal de tênis e o ajudava nas negociações com jogadores de futebol, que parece ser um dos hobbies do vice-prefeito de Joinville.

E era amigo também do Aldo Hey Neto, outro indicado de Rodrigo. Os dois não faziam parte dos “menudos” da Fazenda, o grupo de jovens técnicos que Luiz Henrique e Max Bornholdt trouxeram, principalmente de Joinville.

Logo depois da prisão do Aldinho, Kastrup levou para ele, na cadeia, colchonete, travesseiro e cobertor.

Mas nos últimos dias Kastrup andava assustado. Chegou a dizer a algumas pessoas que tinha recebido ameaças de morte. Como defesa, escreveu uma carta e a remeteu a 50 pessoas, entre familiares e amigos, para o caso de lhe acontecer alguma coisa. E preparou 20 cópias de um dossiê, a cujo conteúdo não consegui ter acesso.

Aldo Hey Neto tem afirmado que aquela dinheirama encontrada nas casas dele foi armação. Ele jura que não é dele. Amigos do Aldo dizem que não faz sentido ter tanto dinheiro em notas pequenas. Ele lidava com grandes empresas importadoras e exportadoras, se fosse o caso de ter comissões ilícitas guardadas em casa, o "normal" seria ter notas maiores. E aí surge uma dúvida de filme policial: armação de quem? com ou sem a participação da PF?

QUEM É DE QUEM?
Com a saída de Max Bornholdt, o controle da Secretaria da Fazenda foi retomado pelo time do ex-governador Paulo Afonso Vieira, que tem a simpatia e apoio do governador Eduardo Moreira. Gente que não pisava no palácio há anos e que tinha sido deixada de fora do governo, ao que parece por orientação direta de Luiz Henrique, agora circula com desenvoltura.

É possível, então, identificar claramente a existência de dois times excludentes: o que Max montou com apoio de Luiz Henrique, que agora está em baixa, batendo em retirada. E o que o Dr. Moreira está trazendo. E a “transição” não está ocorrendo tranqüilamente. Há arestas, farpas e caneladas.

Algo me diz que jamais saberemos com exatidão tudo o que está acontecendo no Centro Administrativo. Mas que está acontecendo, está.

DOIS LADOS DA MOEDA
Qualquer fato pode ser descrito de pelo menos dois pontos de vista. Por exemplo: a polícia militar estacionou carros e policiais em alguns pontos do centro da cidade.

Leitura 1: a polícia reforçou o policiamento, mantendo os policiais mais próximos das áreas mais movimentadas, isso facilita a ação e melhora a sensação de segurança da população.

Leitura 2: a polícia deve estar completamente sem grana para o combustível. A dificuldade é tamanha, que em vez de ficar fazendo rondas, os carros têm que ficar parados.

Provavelmente nenhuma das duas leituras é completamente verdadeira e, portanto, também não é completamente mentirosa. E a escolha vai depender do estado de espírito de cada um: quem acordou de ressaca, ou olhou para as contas a pagar antes do café da manhã, ou está fazendo campanha para a oposição, certamente vai sentir maior simpatia pela leitura 2.

Ou seja, é tudo muito relativo.

PAÍS DE BANDIDOS
Rouba-se de tudo nesta casa da mãe Joana que é o Brasil. E, naturalmente, o sujeito que rouba os fios da rede elétrica faz isso porque tem quem compre o produto roubado. O indivíduo que arrebenta a porta de um carro popular comprado a duras penas para roubar um radinho de R$ 150, faz isso porque tem quem compre sem perguntar de onde veio. O traficante fica rico porque tem quem compre a droga. Não adianta fazer cara de paisagem e achar que isso muda ou melhora sozinho.

PAÍS DA HIPOCRISIA
Tem crianças trabalhando nas minas de talco de Ouro Preto, num ambiente insalubre mesmo para adultos. As multinacionais Basf, Faber-Castell e ICI Paints compram o talco produzido com mão-de-obra dessas crianças por empresas clandestinas em Minas Gerais.

Não seria uma grande idéia, um bom serviço às causas sociais, fazer uma reportagem sobre isso? Mostrar as crianças sendo exploradas?

Pois a revista do Observatório Social fez isso. Mostrou tudo, tintim por tintim. E tão bem, que os incomodados já se fizeram ouvir e membros zelosos do Judiciário mandaram apreender a revista e retirar as imagens do site (www.observatoriosocial.org.br).

O motivo alegado: a matéria e as fotos das crianças trabalhando teriam sido forjadas. E tanto a promotora que propôs a medida quanto a juíza estavam muito preocupadas que a região de Mata dos Palmitos, conhecida pelo seu belo artesanato, ficasse mal falada, como região de exploração do trabalho infantil. A ação não contesta a existência de trabalho infantil, mas acha demais que a revista mostre as crianças trabalhando.

E o que era, e é, uma denúncia, foi tratado na ação como “exploração da imagem dos menores” pela revista.

Como disse amigo meu depois que, uns dias atrás, dei uma força para uma campanha da Associação Brasileira de Magistrados: “seria muito bom se os juízes começassem a levar o seu trabalho mais a sério”. Não se pode generalizar, mas tem coisas sendo decididas por aí que parecem piada.

5 comentários:

Anônimo disse...

Um milhao de dolares gasto em uma armacao. Sera que tem alguem que acredita. Por favor. Cadeia em todos os envolvidos. Essa dinheirama em vespera de eleicao eh obvio que tinha o destino para as despesas de campanha. Com a vinda a tona dos desvios sexuais, eh bem provavel que os depoimentos mudem seu curso. Ai a cobra vai fumar. Aldinho vai falar...

Anônimo disse...

Ja pagaram o Besc. A trirradial que tinha como um dos socios o Eduardo Pinho Moreira devia uma grana preta ao Besc.

Anônimo disse...

Agora eu entendo o motivo das coligações. Existem muitos milhões de motivos.

Anônimo disse...

Na Sec. da Fazenda a coisa tá feia.
Até eu vou inventar um motivo particular para pular fora antes que o barco afunde ainda mais, porque a água já está batendo no umbigo. Poupem seus salarios para os próximos meses.

Renata Bertolucci disse...

O prefeito da Capital, Dário Berger, não deveria estar exercendo a função à qual foi eleito em vez de se licenciar para participar de campanha?

Marcílio Ávila, presidente da Câmara, fará o mesmo: deixará de trabalhar um mês para se dedicar à campanha. Antes, vereadores do PP, do PMDB e do PTB fizeram o mesmo. Detalhe: a maioria não concorre, mas servirá de cabo eleitoral.

Ainda que abram mão dos vencimentos (não fazem mais que obrigação, visto que não estão desempenhando o que lhes foi determinado), é um desrespeito. Devolver o dinheiro é demagogia e reduz a um rito burocrático a atividade de governo.

O lamentável ato só tem uma característica positiva: torna explícito que esses "políticos" estão visando apenas a disputa de poder e não o governo (em seu sentido mais amplo). Querem garantir qual grupo vai ficar mais tempo no poder, agradando seus próprios interesses, seja por ganância ou vaidade.

Esses apenas reforçam o que Marco Aurélio Nogueira define em "Em Defesa da Política" como "política dos políticos", que seria forma de condução menos política (no sentido etimológico da palavra) do sistema democrático. A vida da pólis fica apolítica, idiotizada.

O pior é que ninguém vai fazer nada, além de, como eu, criticar.
Não há um meio de puni-los?