terça-feira, 25 de outubro de 2005

TERÇA

AS OBRAS DO MERCADO MOSTRAM A CARA DA CIDADE
Parece que não há mais dúvidas: a reconstrução do Mercado Público de Florianópolis vai continuar, às pressas, para que os lojistas tenham seu espaço de volta a tempo de ainda faturar algum antes do Natal.

Os cuidados, as preocupações, a atenção que talvez devesse ter foram jogados para debaixo do tapete. Ninguém quer se incomodar.

O Serviço do Patrimônio Histórico, Artístico e Natural do Município, que por lei deveria ser ouvido ou se manifestar, está quieto. Como estão quietas as ONGs que têm Florianópolis ou Floripa no nome. E são muitas. Está absurdamente quieto o Instituto Histórico e Geográfico, talvez preocupado com delimitações burocráticas de competência.

O Mercado, patrimônio municipal, está fora do alcance do patrimônio nacional (pelo menos até que seja examinado o pedido de tombamento). E no município a prioridade, explícita, é pela reconstrução das lojinhas. Se possível sem entrar em muita conversa sobre essas frescuras de pedra velha.

A cidade, inerme, passiva, parece que adora chorar e se lamentar quando não tem mais jeito. Faz assim com o Miramar, que viveu abandonado, maltratado, esquecido, como um bêbado na sarjeta, que todo mundo faz de conta que não vê. Quando derrubaram, aí o choro começou. Todo mundo, de repente, tomou-se de amor e saudade pelo Miramar.

Cansei de passar pelo Miramar e sentir o fedor de mijo e excremento que exalava, abrigo de párias, paredes sujas e pixadas, placas de compensado onde havia janelas, retrato acabado do abandono. Nada na cidade indicava que alguém gostava daquele prédio. Que iria sentir sua falta.

Com a ala queimada do Mercado parece ocorrer a mesma coisa. Ninguém está se importando se vão fazer mezaninos de escravos baixinhos, se a história de duas paredes é a melhor solução, se arquitetonicamente houve prejuízo. Todos estão quietos.

Quando, daqui a alguns anos, descobrirmos que essa reconstrução causou algum prejuízo ao patrimônio (certamente alertados por algum especialista estrangeiro ou de outra cidade), começará o choro típico da cidade omissa.

Nas reuniões sobre Mercado aparecem, em massa, os comerciantes. Defendem seu ganha-pão. Para eles o mercado é apenas um espaço físico bem localizado, de aluguel escandalosamente barato. Mais nada. Aqueles que vêem no Mercado um pouco mais que isso e sonham em ter aqui alguma coisa que possa funcionar como o Mercado Central de São Paulo ou mesmo o Mercado Público de Porto Alegre deveriam se mexer. Para não ficar chorando pelos cantos daqui a pouco.

A prefeitura já mostrou que tem pressa, que precisa transformar a cidade num canteiro de obras, que suas prioridades são determinadas pelo calendário eleitoral. O que também significa que, se a comunidade se organizar e pressionar, poderá ser ouvida: nenhum político é louco de se indispor com os eleitores às vésperas de um ano eleitoral.

DEU BRANCO
A coluna de ontem (no jornal impresso) saiu sem o cabeçalho, que tem o nome dela, o meu, o e-mail e o barrigudinho apressado. Aposto que vocês nem notaram, né? A culpa foi dum treco técnico que atende pelo nome melífluo de “vínculo”. Deu pau no vínculo e o cabeçalho dançou. Saiu em branco. Coisas da informática, maravilhas da tecnologia. Mas hoje, se a Lei de Murphy deixar, está tudo certo, como sempre.

DE PONTA CABEÇA
Quando eu era editor-chefe do jornal O Estado (o mais antigo), tinha uma coluninha onde contava para os leitores um pouco dos bastidores (do “making of”) do jornal. E um dia pedi desculpas porque alguém tinha errado e colocado, na edição anterior, uma foto de cabeça pra baixo. Disse que acidentes acontecem, mas que a gente estava trabalhando para reduzir os erros ao máximo. Claro que, na mesma edição em que saiu essa explicação, tinha outra foto de cabeça pra baixo. Ou seja, a Lei de Murphy é poderosa: “tudo o que pode dar errado, dará”.

A CPMF E A SAÚDE
Vocês sabiam (ou se lembram) que a Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras (CPMF), foi criada em 1996 com o propósito de resolver os problemas na área da saúde no Brasil?

De lá pra cá, o que mudou na Saúde, com os milhões e bilhões arrecadados?

Nada, né? Talvez porque a CPMF seja uma das mais vergonhosas caixas-pretas governamentais. Entra governo sai governo e ninguém mexe, porque é uma galinha dos ovos de ouro. E ninguém se importa se não está cumprindo seus objetivos iniciais.

Mesmo um leigo pode imaginar que os problemas da saúde no País seriam bem menores ou nem existiriam, se todo o dinheiro arrecadado com a CPMF fosse aplicado, com honestidade, sem ladroagem, onde deveria ser.

CELESC TÁ COM TUDO
Deixa aproveitar que está acontecendo a Futurecom, em Florianópolis (foi na semana da Futurecom que deu o grande apagão de 2003), pra comentar que a Celesc está no ranking que a revista América Economia fez, das 500 maiores empresas da América Latina.

Segundo a revista, a Celesc é a 29ª maior estatal da América Latina e a 266ª posição entre as grandes empresas da Região. Subiu 21 posições em relação à lista anterior.

As outras catarinenses que aparecem na lista: Sadia (105ª), Perdigão (155ª), Seara (307ª), Weg (316ª) e Embraco (322ª). No total são 202 empresas brasileiras. A pesquisa foi feita com base nos balanços contábeis de 2004.

FERIADÃO MESMO
Vocês, que são experientes, podem me ajudar nessa matemática do serviço público: o Poder Judiciário anunciou que dia 28 é ponto facultativo. E o estado informou que não trabalha dias 31 e 1º. E o dia 2, quarta-feira, é feriado.

Portanto, segundo entendi, dá pra marcar a passagem para quinta à noite. E aproveitar o feriadão até dia 3 de manhã (o expediente só começa às 13h, lembra?).

Quase uma semana. Cinco dias em plena primavera. E o pessoal ainda se queixa do salário baixo. Que nada, esses benefícios adicionais valem mais do que muito aumento.

JORNALISMO A PERIGO
Os jornalistas, não sei se vocês sabem, vivem uma situação profissional esquisita. Uma juiza, dia desses, achou que pra ser jornalista não precisa ter curso superior e cassou a regulamentação profissional. Amanhã, em São Paulo, a decisão vai a julgamento. O diploma dos jornalistas está em jogo.

Para os maus patrões (quase todos), é muito conveniente derrubar qualquer exigência para o exercício profissional: a oferta de mão de obra aumenta enormemente e os salários, que já são vergonhosos, poderão continuar a cair.

Para os leitores, não é bom negócio. Contar histórias sem mentir, sem enrolar, sem cometer erros de português, sem enganar o leitor, é uma tarefa que exige muita habilidade e algum estudo.

Existe técnicas, no jornalismo, que o profissional precisa aprender, de preferência na escola, para poder colocar bons jornais na rua, bons programas informativos de rádio e TV na sua casa. Não é fácil fazer jornal, o jornalismo não é simples como muitos pensam.

Tem gente que acha que jornalismo é só escrever umas bobagens numa coluna (como esta). Que nada, é muito mais. Tem que ir atrás da informação, descobrir o que está acontecendo e depois contar direitinho. E fazer isso com grande profissionalismo.

Um comentário:

Pedro Lemos disse...

A CPMF pretendia complementar a verba da saúde .. teve na figura do ministro Adib Jatene a simpatia que faltava para sua aprovação .. depois que o Adib descobriu que a CPMF "substituiria" e não "complementaria" a verba para a saúde, resolveu deixar o governo .. mas aí era tarde demais. Obrigado, Adib!