sexta-feira, 20 de abril de 2007

Sexta

Fiz a montagem acima, aproveitando o momento carinhoso que rolou no encontro dos ex-adversários, para que vocês pudessem avaliar se tem cabimento chamar o Zé Serra de Homer Simpson. Agora, já que estamos falando nele: quando vocês ouvem o Lula discursar, não dá impressão que ele acha que a gente é tão simplório quanto o Homer Simpson?

MULTA PARCELADA
Antes que o Kennedy (autor da lei que parcela multas de trânsito) ache que eu pego no pé dele injustamente, deixa eu mostrar o bilhete que um leitor me mandou ontem:
“Vale lembrar que o Inciso XI do artigo 22 da Constituição Federal determina que compete privativamente à União legislar sobre trânsito e transporte. Desta forma, o deputado está fazendo média e jogando para a platéia. Este caso é idêntico à isenção da tarifa básica de telefonia aprovada na Assembléia e que já foi derrubada no STF”.
PRESIDENTE ANA PAULA
As mulheres têm se destacado em muitas áreas e recuperado espaços importantes, que eram ocupados por homens apenas porque a tradição e o preconceito mandavam. Na política, contudo, o caminho tem sido mais difícil. A Assembléia Legislativa catarinense tem, hoje, só três deputadas.

E a partir de segunda-feira, a Alesc será presidida por uma delas. A deputada Ana Paula Lima (PT), 2ª Vice-Presidente, será, por alguns dias, a presidente da Assembléia Legislativa. Será a primeira mulher a presidir aquela casa de Leis que, desde 1947 (quando iniciou seu período contínuo de funcionamento), teve 35 presidentes.

Ainda há muito caminho diante das mulheres. Entraram na política, na sua maioria, porque são esposas, filhas ou irmãs de políticos. E poucas conseguem libertar-se da sombra masculina senhorial, levantar a cabeça, erguer a voz e alçar vôos próprios.

NOVA BANDEIRA
Não sou só eu que pega no pé do governo. O cartaz ao lado está diante do prédio onde funciona o curso de Direito da Univali, em Itajaí. Tem até um logotipo, usando a bandeira tremulando, marca do governo LHS. O “direito sonegado” a que se refere o cartaz, é a falta, no estado, da Defensoria Pública (advogados para quem não pode pagar). SC é o único estado que ainda não oferece, sabe-se lá por que e atendendo a que interesses, este serviço a seus habitantes.

MANGUE SOFRE...
Tem gente que acha um sacrilégio ficar reclamando que o shopping, tão grande, tão bonito, tão de primeiro mundo, foi construído em cima do mangue. E manda a gente trabalhar. Claro, sem assinar nem se identificar, porque nem todo mundo é Valente que nem eu. Mas reproduzo o recado, mesmo anônimo, porque acredito que deve ter mais gente pensando desta forma. O próprio LHS já disse coisa parecida. Lê aí:
“Esse negócio de Shopping em mangue é conversa de quem não tem o que fazer. Ora, se os órgãos ambientais, o MP e a justiça liberaram o empreendimento, quem é o defecador de sentenças que vai questionar? Só a concorrência mesmo. Então é só o Shopping que está em cima do mangue, ou o bairro Sta Mônica inteiro? Por que esses do contra, nada falam que a favela do siri está em cima de dunas? e tantas outras invasões? Dá-lhe negada do contra, do atraso, do ranço, da preguiça, da hipocrisia. Vão trabalhar...”
MPF MANDA DEMOLIR
Que o zangado anônimo não nos leia: o Ministério Público Federal resolveu ir fundo nas ocupações irregulares de terras de marinha no município de Governador Celso Ramos (aquele mesmo, que “regulamentou” a farra do boi). E está pedindo uma liminar para demolir uma casa na praia do Magalhães (baía dos Golfinhos). A família Tortelli, além da casinha (267 m2) fez a fossa na beira dágua. E, pelo jeito, estão cagando e andando, apoiados pelas vistas grossas do Ibama. Pois agora todos viraram réus na ação. Ocupar o litoral de qualquer jeito, vocês sabem, é matar a galinha dos ovos de ouro.

DEBAIXO DA PONTE
Esta semana começaram a examinar as condições dos pilares da ponte Hercílio Luz, dentro dos trabalhos de manutenção e restauração (foto ao lado). E, por coincidência, recebi, por e-mail, uma série de fotos mostrando a construção da ponte. Separei uma (ali embaixo) para comentar sobre aqueles quatro pontos numerados:

1. Como era lindo o morro do Antão, sem aquele paliteiro de antenas e prédios feiosos que enfiaram-lhe no cocoruto, de uns anos pra cá...

2. Já no começo do século passado tinha casinhas morro acima. Uma ocupação que já é quase secular.

3. Esta era a casa da família Valente. Meus avós devem ter sofrido bastante com o barulho e a bagunça das obras de construção da ponte.

4. Daquele trapiche saiam as barcas para a ilha (da empresa Valente). Depois da ponte, nunca mais teve transporte coletivo marítimo por aqui. Apesar da necessidade crescente de alternativas para o transporte de massa.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Quinta

Do jeito que a coisa vai, daqui a pouco o Detran vai deixar que os guardadores de carro façam as vistorias e liberem as carteiras de motorista. Por uns trocados.

MULTA PARCELADA
Será que estou ficando ranzinza além da conta? Essa bobagem do Kennedy Nunes (PP), de querer parcelar multa parece igual àquela bobagem do Paulinho Bornhausen (DEM), que queria proibir que se fiscalizasse velocidade nas estradas.

E a defesa que o deputado faz do projeto é patética: “não se pretende premiar o infrator, já que se mantém o sistema de multas, mas apenas facilita-se o seu pagamento”.

É claro que facilitar o pagamento premia os infratores. Torna as multas mais fáceis de pagar, tira delas o poder coercitivo, o impacto no bolso, que é o órgão mais sensível do ser humano. Se passar (e é possível que passe, porque tem um monte de deputado com filhos e parentes cheios de multas), ninguém precisa mais aliviar o pé nem cuidar onde estaciona: se o guarda pegar, a gente depois paga em suaves prestações e pronto. Quá-quá-quá!

VANDALISMO SUPERIOR
Ainda sobre o caso da falta de segurança da UFSC, onde, entre outras coisas, orelhões foram depredados, o Carlos Andrade, leitor da coluna, faz um reparo ao meu comentário. Eu concentrei as suspeitas sobre as maldades em alunos da UFSC. Ele discorda e defende seus colegas:
“Na UFSC já fui roubado por um menino descalço, com um revolver, já fui atacado e levei muito chute e soco de uma gangue de muleques que não tinham mais de 14 anos. A UFSC precisa de segurança sim, mas não para prender quem vai pra lá estudar e sim pra quem vai, de fora, se esconder em um ambiente onde a lei não impera.”
MANGUE SOFRE...
Pra quem não entendeu direito a relação que fiz, entre o novo shopping e o mangue, transcrevo uns trechos de uma carta que o leitor Guilherme Pontes, que é estudante de Geografia mandou:
“Segundo a Ação Civil Pública impetrada no Ministério Público Federal, contra a empreendedora do Shopping Iguatemi, o aterro ali pode promover o confinamento de porções de manguezal, alterando a topografia e possivelmente dificultando a penetração das marés (o que proporciona um maior aporte de água doce no manguezal). Assim, será reduzida a salinidade do solo, podendo gerar uma situação insuportável para algumas espécies de animais nativos do manguezal”.
RIO SOFRE...
Ainda, do mesmo leitor:
“A cobertura vegetal nas margens dos cursos de água cumpre um papel fundamental no combate à sedimentação e ao assoreamento do leito do rio, porém, para construção de uma via de acesso lateral ao shopping, parte do leito foi completamente desmatado, comprometendo a normalidade do rio Sertão”.
Claro que a gente sabe que o mangue e os rios urbanos sofrem ataques de todos os lados (o maior deles, dos esgotos domésticos) e não há um responsável único pela degradação. Nem seria o caso de demonizar o shopping sozinho. Mas é bom aproveitar a oportunidade pra chamar a atenção do povo para o ambiente e sua fragilidade.

Entrevistinha com o Palhares
O Palhares, como todos sabem, é um canalha. Imortalizado pelo Nelson Rodrigues, que expôs com maestria toda a canalhice desse sujeito capaz de atacar a cunhada no elevador, o Palhares é um dos meus conselheiros preferidos. Sempre que tem um tema mais espinhoso, recorro a ele.

Ontem, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, foi aprovado o pacote de segurança pública, nascido sob o impacto da morte daquele menino no Rio, arrastado por bandidos. Fui conversar com o Palhares, que não confia muito nas “autoridades”, para saber o que ele achou das decisões.

Tio Cesar – Palhares, o primeiro projeto permite a policiais e procuradores acesso a dados de criminosos, como endereço, telefone, estado civil e informações bancárias de acusados, sem a prévia autorização da Justiça. Isso é bom, não é?

Palhares – É ótimo... pra bandidagem. Todo dia a gente descobre que tem policial corrupto em todas as polícias. Pois então, imagina como esse pessoal vai ganhar dinheiro só levantando informações de todo tipo? A malandragem vai poder ir pros assaltos sabendo exatamente quanto o sujeito tem na conta.

TC – Mas não é só pra investigar bandido?

P – Tá, e meu nome é Papai Noel.

TC – Outra proposta destina recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública para criar um sistema de rastreamento eletrônico de veículos de carga e de carros-fortes e para a instalação de bloqueadores de sinal de celulares em presídio.

P – Grande negócio pra quem tem empresa de rastreamento. Não é o Piquet que tem uma? E os bloqueadores de celular estão sendo usados pelos ladrões para evitar que as vítimas chamem a polícia. Na mão deles funciona, mas nas cadeias não tem jeito. Nunca funciona direito. Em todo caso, sempre que o governo resolve fazer grandes compras, a turma da propina bate palmas.

TC – Um terceiro projeto amplia a aplicação de penas alternativas. A legislação atual determina que o juiz pode substituir a pena de prisão por uma alternativa, desde que o réu tenha sido condenado a menos de seis meses de prisão. O projeto aprovado obriga (e não mais faculta) o juiz a substituir a prisão por pena alternativa para quem for condenado a menos de um ano de cadeia.

P – É, tá cada vez melhor. Daqui a pouco as duas pontas se encontram.

TC – Não entendi.

P – Presta atenção, mano: o final da pena está cada vez mais curto, com a tal “progressão”. Agora começaram a encurtar o começo da pena. Daqui a pouco as duas pontas se encontram.

TC – Um quarto projeto permite deduções do imposto de renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) para empresas que ofereçam trabalho para presidiários. O texto ainda precisa passar pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) antes de ser enviado para a Câmara.

P – Mais um grande negócio. É claro que as empresas não vão pagar um salário decente, mas vão vender os produtos pelo preço de mercado. Mão-de-obra barata, sem férias, que não entra na Justiça do Trabalho pra reclamar os direitos.

TC – A comissão votou também o projeto que aumenta de dez para 18 anos a pena prevista para crimes de lavagem de dinheiro. O texto ainda passará pelo plenário do Senado antes de ser remetido à Câmara.

P – Bobagem. A questão não é aumentar a pena. Pode ser dez, quinze ou 30 anos, dá na mesma. Malandro não fica mais de três ou quatro anos preso. Tem tanta brecha, tanto recurso, que essa história de mais tempo fica sendo só pra engambelar o eleitor.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Quarta

VANDALISMO SUPERIOR
A gente fala mal da Brasil Telecom, mas nesta história dos telefones públicos arrebentados por idiotas no campus da UFSC, ela tem agido direito. A empresa me escreveu para informar que aquele telefone público, que aparece depredado na foto do Paulo Dutra, publicada aqui no final de semana, já foi consertado e reativado.

Mas o pior, que só mostra o nível de debilidade mental de alguns “universitários” e a falta de eficiência da “segurança” da universidade, é que, segundo a Brasil Telecom, “neste mesmo período, outros quatro telefones públicos instalados no Campus da UFSC foram atacados por vândalos e tiveram seus monofones arrancados. Ainda na mesma semana, na praça da Trindade, próxima à UFSC, outros dois equipamentos também foram seriamente danificados”.

Ou seja, em poucos dias sete telefones, numa área de grande circulação de pessoas “de bem” foram destruídos. Naturalmente, alguém aparecerá para colocar a culpa na gurizada pobre dos morros próximos. Mas eu acho que alguns dos imbecis que fazem os trotes que fazem nos calouros são bem capazes de sair por aí destruindo orelhões.

BONS VIZINHOS
Comercial que está sendo veiculado na capital anuncia para o dia 28, no “centro multiuso” da prefeitura de São José, um show com o cantor Fábio Júnior, promovido pela prefeitura de... Florianópolis. E a gente que achava que os dois prefeitos estavam de mal, hem?

COMEÇOU A CAMPANHA
Leitor, pertencente ao MSCD (MOvimento dos Sem Câmera Digital), mandou umas mil palavras para descrever o lindo out-door que foi plantado na área industrial de Palhoça, com as fotografias do Pitanta e do Cesinha Souza. Vou esperar que um leitor do MTFT (Movimento dos que Tiram Foto de Tudo) passe por lá e mande o retratinho que, como vocês sabem, vale mais que mil palavras, para só então perguntar à Justiça Eleitoral se isso pode ou não pode.

ATORANDO PREGO
A operação furacão (também conhecida como “hurricane”) deve estar deixando muita gente sem dormir em Santa Catarina. Afinal, um estado cuja administração se dedicou, com tanto empenho, para a liberação dos caça-níqueis e da jogatina em geral, não pode deixar de ficar apreensivo com a prisão de desembargadores, promotores e delegados responsáveis pela disseminação de caça-níqueis.

Não que uma coisa tenha obrigatoriamente a ver com a outra, mas se tiver um único ponto de contato, vai ser o diabo explicar que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.


DILEMA VITAL
Um shopping, nas cidades modernas, é como uma praça, um parque, É um equipamento urbano cuja importância não pode ser ignorada. O que abriu ontem em Florianópolis (nas fotos acima) é amplo, bem construído, do melhor nível.

Os manguezais são ecossistemas importantíssimos, nascedouros de várias espécies, criadouros de outras tantas. Desprezados por ignorantes, que vêem a lama e o lodo como sinônimos de sujeira e não de vida, os mangues são fundamentais para que tenhamos uma fauna e uma flora saudáveis, nesta ilha dos casos e ocasos raros.

O grande desafio moderno é manter os manguezais e ter shoppings. Preservar áreas vitais e ter marinas. Por que as duas coisas não podem coexistir?

Empreendimentos como o Iguatemi, o Beira Mar e o Floripa Shopping são, sem dúvida, geradores de emprego, dinamizadores da economia. Mas não deveriam, por causa de sua importância relativa, serem colocados acima de outros valores urbanos e naturais.

É sintomático que os dois shoppings tivessem que fazer acordos com o Ministério Público, para compensar supostos prejuízos que suas localizações causaram ao ambiente. E é igualmente sintomático que as autoridades públicas refiram-se à legislação ambiental e aos cuidados ali previstos, como “entraves” que “atravancam” o “progresso”.

Mas os empresários modernos sabem que desacatar a natureza, principalmente numa ilha como a nossa, é ajudar a matar a galinha dos ovos de ouro. E muitos deles têm essa consciência mais clara do que alguns de nossos governantes, para quem o ideal seria poder consumir, em poucos meses, o que a natureza levou milhares de anos para, caprichosamente, criar.

Pra mim, shopping é tudo muito parecido, mas Chávez, Lula e Bachelet, ali em cima, ficaram muito impressionados.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Terça

[Apesar das aparências, a foto acima não tem nada a ver
com
os títulos e textos abaixo.]

DESMORALIZAÇÃO
Neste nosso querido Brasil tem muitas coisas, pessoas e instituições desmoralizadas. Foram boas e úteis um dia, mas de tanto mau uso e abuso, acabaram perdendo a função e o respeito.

É o caso, por exemplo, das agências reguladoras. Tem coisa mais desmoralizada que a Anac? A agência que deveria colocar ordem na casa do transporte aéreo? Ou mesmo que a Anatel, que deveria manter as telefônicas na rédea curta e de quem as prestadoras de serviço deveriam morrer de medo?

Outra instituição desmoralizada é o direito de greve. Cruzar os braços, parar de trabalhar, deveria criar um fato grave e impactante. Deveria servir como um alerta gritado do alto da montanha e as autoridades e a comunidade reagiriam espantadas, como se estivesse para chegar a grande onda, o furacão, o terremoto.

A greve é uma ferramenta de uso complicado. Sempre se sabe como a greve começa e por que ela começa, mas em geral não se sabe como vai terminar nem por que terminará. Qualquer imbecil pode começar uma greve. Afinal, todo mundo gosta de tirar uns dias de folga. Mas, e depois?

SEM SENTIDO
De tanto fazer greves sem sentido e tantas greves, a ferramenta se vulgarizou. Hoje o contribuinte não sente mais pena do professor estadual que suspende as aulas porque houve uma mudança no sistema de escolha de diretor. Só sente, na pele, os efeitos nocivos, não consegue enxergar os eventuais efeitos positivos, se é que existem.

Quem pena nas filas, quem volta pra casa sem a consulta, quem perde o horário, quem tem que se virar para acomodar os filhos que deveriam estar na escola, não consegue mais vibrar com a luta dos companheiros. Mesmo porque, em geral, o objeto da luta, não parece ser um beneficio coletivo. E às vezes não é mesmo.

É BOM PRA QUEM?
A maior escola estadual do estado (que em algumas ocasiões dizem que é a maior da América Latina), o Instituto Estadual de Educação, em Florianópolis, está sem aulas (dizem que hoje tudo volta ao normal), porque a secretaria da Educação resolveu indicar um diretor e desconsiderar a escolha feita no ano passado. Uma luta política, por um princípio democrático de escolha.

Qual o benefício para alunos e pais de alunos? O senso comum informa que tanto faz: se continuar o diretor indicado pela secretaria, dificilmente a escola e o ensino melhorarão. Se for empossado o diretor escolhido pelo pleito do ano passado (sem amparo legal, mas aparentemente com o bleneplácito da gestão anterior da secretaria), também a escola e o ensino ficarão na mesma. Serão beneficiados, pelo menos com os louros da vitória, os grupos partidários do lado que ganhar. E o lado que perder se mobilizará para novas lutas, tentando dificultar a vida dos vencedores.

O aluno e o pai do aluno e a mãe do aluno, continuarão a fazer como a D. Mariza Lula: sonhar com o dia em que os filhos poderão ir viver em outro país, que lhes garanta o futuro. Porque aqui, neste gigante abobado, de tanto sol, praia e fartura natural, parece que ninguém está muito preocupado com o bem estar e a qualidade de vida do contribuinte. Dizem que estão, juram que só pensam nisso, mas na prática só têm olhos para seus próprios umbigos.

DE VOLTA AO BATENTE
Fiz uma greve, nos últimos dias, que não foi notada por ninguém. Afinal, não dirijo ônibus, não sou professor com ânimo para deixar alunos sem aula, não sou caixa de banco chateado com os lucros do patrão. Que eu trabalhe ou deixe de trabalhar, afeta pouquíssima gente. Talvez dê um pouco de trabalho para a diretora do jornal, que terá que chamar alguém para me substituir.

Dependendo de quem for chamado, os leitores nem notarão a diferença ou, pior pra mim, acharão que o jornal ficou melhor.

Ainda mais porque condicionei a minha greve ao atendimento de reivindicações que estão completamente fora de questão, hoje em dia. Cumprir a lei, punir administradores desleixados e administrar pensando no usuário dos serviços públicos é coisa tão distante da realidade que nem como piada serve.

Mesmo se eu tivesse feito greve de fome, com direito a reportagem no Fantástico e no Hélio Costa, se tivesse me amarrado nu a uma das colunas da ponte Hercílio Luz e fosse citado na CNN, nem assim alguém se mexeria para atender reivindicações tão fantasiosas. E essa fantasia, vejam só, é o desejo da maioria dos brasileiros.

DE PAPO PRO AR
Saio da greve derrotado, sem ter ganho um centavo a mais no meu salário, sem ter conquistado uma secretaria municipal, muito menos estadual e nenhuma diretoria de estatal. Meu grupo político não conseguiu também ocupar o diretório de nenhum partido e certamente não elegeremos um único vereador no ano que vem, o que dirá um prefeito. Mas acho que consegui alcançar pelo menos um objetivo. Que infelizmente tem sido também o objetivo de tantos grevistas ultimamente: tirei uns dias de folga. E isto é o que interessa. O resto não tem pressa.

CHÓPIN NOVO
Ontem à noite fui à inauguração do Shopping do Mangue, digo, do Shopping Iguatemi da Madre Benvenuta, ou do Santa Mônica. Qualquer que seja o nome com que ele venha a ser conhecido, tem, como quase tudo, seu lado bom e seu lado ruim. O bom é a novidade, são os cinemas, novos ambientes e, principalmente, a concorrência ímpar (agora são três shoppings na ilha).

O ruim é o vício de origem, de ter sido construído sobre área tomada do mangue, sabe-se lá a que preço.

Quer dizer, os vereadores e empreendedores que nos idos do início da ocupação do lado de cá da Madre Benevenuta tiveram a idéia de avançar mangue adentro, talvez saibam.

ARTES E ELITES
O Fábio Brüggemann perguntou, na sua coluna de sábado no Diário Catarinense, “Por que a elite não gosta de arte?” E para buscar uma resposta, analisou o comportamento da elite catarinense diante da arte local.

Diz ele que “o desenvolvimento das artes, infelizmente, depende muito de uma elite que seja culta, porém desprendida de valores morais e burgueses. Se não há quem invista (e quem mais pode fazer isto se não a elite?), a arte se cobre de uma invisibilidade cruel aos artistas e a seus consumidores”.

E entre os fatores que dificultam o relacionamento adequado daqueles que têm recursos (a elite) com a arte e os artistas, ele cita o exagerado apreço a tudo que é “de fora”. E aí transcreve um trecho daquele comentário que fiz aqui, criticando o governador LHS e seu entusiasmo com festivais italianos e escolas estrangeiras.

SEM FARRA
Atravessei a temporada de farras do boi sem falar aqui sobre este assunto. No ano passado e em anos anteriores, aqui e em outros veículos de comunicação, sempre tocava, com maior ou menor entusiasmo, na farra.

Afastei-me do assunto porque me pareceu que a coisa ganhou novos componentes e um contorno diferente, mais adaptado aos tempos ilógicos e violentos em que vivemos.

A falta de razão e sensibilidade de um lado, ao que parece, contaminou o outro. E tudo agora não está muito longe de uma baderna sem sentido, onde como em toda baderna, quem sofre são os mais desvalidos.

Não vejo motivo para tratar o deprimente espetáculo montado por bêbados e imbecis, como se fosse uma tradição a preservar. Não há quase o que manter, cuidar e respeitar. A ignorância se encarrega de ir acabando com tudo.

sábado, 14 de abril de 2007

Sábado, domingo e segunda

Aproveitando a greve do tio Cesar, fui remexer nas gavetas do arquivo e achei esta preciosidade: o momento exato em que o Fritsch perdeu o ministério da Pesca. O flagrante aconteceu em terras catarinenses, em março do ano passado. A Senadora Ideli, que é leitora da coluna, levou para o Lula a foto e ele viu a careta de nojo do companheiro. A partir daí, Lula disse que o Fritsch, se saísse para concorrer ao governo, não retornaria ao ministério.

NOTA DO INTERINO
O titular desta coluna está em greve, de papo pro ar, em alguma praia do nordeste ou em alguma estância hidromineral do sul. Em todo caso, como não tem cabimento deixar um espaço tão grande em branco, tratei de arrombar a caixa postal do grevistinha e preencher a página com os e-mails dos leitores. Aposto que fica mais interessante do que as bobagens que esse jornalistazinho de arque publica aqui. Por mim ele pode ficar em greve o ano inteiro!

a) Palhares, fura-greve profissional

CHORO JUSTIFICADO
Por Enrique Escobar

Fiquei no prejuízo e minha calculadora quebrada foi pro lixo.

Tudo começou quando lI no DIARINHO, que os deputados federais estão brigando para aumentar seu salario de R$ 12.200,00 para R$ 16.200,00. Ou sêja, 33 % aproximadamente. Não acreditei e refiz o cálculo, obtendo o mesmo resultado.

Aí fui pelo mais fácil e concluí que minha calculadora estava com defeito e por esse motivo quebrei ela e joguei no lixo. Fui radical demais? Acho que não. Sou aposentado e o que recebo mensalmente é de 3,5 salários mínimos aproximadamente. O governo informou recentemente que meu reajuste anual em maio será de 3,3 %.

Peraí, eu que ajudei com anos a fio com trabalho duro para construir esse Brasilzão de hoje, recebo a merreca de 3,3 % e os Srs. Deputados Federais querem 10 vezes mais? Será que o salario minimo dos parlamentares federais, é diferente ao nosso? E mesmo sendo, eles valem 1.000 % mais que a gente?

O que eles têm com certeza, é a cara 1.000 vezes mais dura que a nossa. Cada povo tem os governantes que merece, mas parece que já estamos pior que isso. Como diría aquele personagem da saudosa Escola do Professor Raimundo, “não sou palhaço, estou palhaço”.

TOLERÂNCIA ZERO
Por Ângelo Cristofoli

Caro César, tudo bem? parabéns pela sua reportagem sobre o tolerancia zero. Deves cada vez mais ‘lembrar’ aos administradores públicos suas funções e obrigações.

RECADINHO PRA LÁ
Por Paulinho Bornhausen

Cesinha, queria aproveitar a tua coluna para falar para os prefeitos catarinenses a mesma coisa que já falei para os prefeitos do GRES Democratas: Lula disse que mandou aprovar o 1% só para vocês irem embora mais cedo e sem reclamar e para tentar convencer vocês, prefeitos, a ficarem a favor da CPMF. Mas é engodo, vocês não devem confiar neste governo. E a emenda era legal aprovada por uma deputada do PT.

RECADINHO PRA CÁ
Por Carlito Merss

Valente, se alguém prejudicou os prefeitos do Brasil foi o senhor Paulo Bornhausen, que não permitiu um acordo em plenário para a aprovação de um texto que corrigia a inconstitucionalidade da emenda que tratava sobre transporte escolar. O Bornhausen Júnior sabia da ilegalidade da emenda e mesmo assim a apresentou.

DÚVIDA CRUEL
Por Soninha (aquela, daquele dia)

Querido, me explica uma coisa: li que o executivo e o judiciário fizeram um acordo para fazer exames de DNA já durante as audiências para discutir paternidade. Audiências onde participam “supostos pais com hipossuficiência de recursos”!! Quem será o iletrado ou iletrada que inventou de chamar pobre de “hipossuficiente de recursos”?

BANCADA NA WEB
Por Evory Pedro Schmitt

Sem querer botar banca e nem mesmo bancar o banco cheio de recursos, a bancada do PMDB catarinense está em www.bancadadopmdb.com.br a qualquer hora do dia ou da noite. Eu sei que vais achar um defeito ou outro, mas, como diz o deputado Manoel Mota, só erra quem faz.

OLHA SÓ!
Por Alaércio Lopes

E aí, primo, tudo bem? Seguinte, só pra avisar que fiquei vovô hoje!
Abraço.

VANDALISMO DE NÍVEL SUPERIOR
Por Paulo Dutra

Amigo Cesar: fiz esta foto (abaixo) no campus da UFSC. Puro vandalismo, que só pode ser de estudantes, conforme informação que obtive lá. Que homens de futuro serão estes? Será que eles não sabem que um dia poderão precisar para uma emergência?

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A PEDIDO

A LUTA CONTINUA
Os sindicatos e entidades abaixo assinados manifestam publicamente seu apoio ao movimento deflagrado na manhã de ontem pelo ínclito, impoluto e escorregadio jornalista Tio Cesar e exigem das autoridades o imediato atendimento das reivindicações apresentadas que, mais do que urgentes, são emergentes.

Fazemos nossas as reivindicações da lista de dois pontos e passamos também a exigir:

Item 1: aquele troço relacionado com o apagão aéreo, porque nunca neste país foi tão difícil a vida de quem vive nas nuvens.

Item 2: aquele negócio de saúde pública, que é mais que justo, porque nunca neste país levaram a sério a pobreza que tem que ir pra fila de madrugada e depois aturar atendente e médico de mau humor em consultas que nunca duram mais de dois minutos.
Santa Catarina, abril de 2007

Fundação Orlando Valente; Sindicato dos Colunistas de Política Estadual do DIARINHO; Sindicato Holístico dos Jornalistas Alternativos; GRES Império dos Sentidos; Organização Não Governamental de Apoio às Causas Perdidas.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Sexta

POR QUE PARÔ?
Não sou policial federal, não sou controlador de vôo, não sou (mais) professor de universidade federal, não sou fiscal da receita, não sou motorista de ambulância, não sou médico do estado, não sou motorista, nem cobrador, muito menos dono de empresa de ônibus e não sou deputado, mas também sou, como todos esses aí, filho de Deus.

E é nesta condição que venho apresentar minha pauta de reivindicações e declarar-me em greve. Se minhas exigências não forem atendidas, não volto mais a trabalhar. Até posso aparecer, como meus ex-colegas de universidade, no dia do pagamento, para receber o salário, mas não vou mais trabalhar.

E nem venha algum juiz abelhudo exigir que eu mantenha 30% da coluna funcionando, a pretexto de manter atendimento aos casos de emergência. Não escreverei mais uma única letra, nem uma palavra, sequer uma vírgula, muito menos uma frase. Este espaço ficará em branco. Ou ficaria, se não fossem os fura-greves que há em todo movimento.

Então, a partir deste momento, deste segundo, deste nanosegundo, estou em greve. Desligo neste exato instante meu computador, não sem antes transmitir a lista de reivindicações mais abaixo, que precisa ser atendida com presteza, porque a paciência há muito se esgotou. E nem venha o ministro do Planejamento prometer gratificações e passagem da coluna para a área militar, porque já sabemos que o que ele diz, não se escreve.

PARÔ POR QUE?
Ainda outro dia, sem poder pagar as contas porque os bancários estavam em greve, sem poder viajar porque os controladores estavam em greve, sem poder ir ao centro porque os ônibus estavam em greve, sem poder tirar passaporte poque a polícia estava em greve (e antes porque estava faltando papel) e sem poder reclamar pro bispo, porque ele estava num retiro, sentei-me à beira do rio Itajaí-Açu e tomei uma decisão: na primeira sexta-feira 13 que tiver, eu entro em greve.

Chega de ser discriminado, de sofrer na pele o opróbrio e o desprezo. Agora eu também sou um grevista, posso encarar o caixa do banco sem baixar os olhos, posso entrar no ônibus de cabeça erguida e dizer, em alto e bom som, “bom dia, colega, como vai a luta?”

Aprecatem-se: a paralisação pode durar um dia, uma semana ou um ano. Não importa.

Hasta la victoria siempre!

Diante do majestoso prédio (palácio?) da Procuradoria Geral da República, em Brasília, uma manifestação que bem poderia ser em solidariedade ao tio Cesar

PAUTA DE REIVINDICAÇÕES
A paralisação que começa nesta sexta-feira 13 só será suspensa se e quando forem atendidas as reivindicações abaixo. Estou em assembléia permanente, mas é favor não ligar fora do horário comercial (das 11 às 16h).

Item 1: todo o pessoal que teve alguma responsabilidade na deterioração do sistema de proteção ao vôo brasileiro, do aspone ao presidente da República, deve prestar serviço como aeromoços e aeromoças, voando ininterruptamente durante um ano no espaço aéreo brasileiro, para verem o que é bom. Depois, os que não sucumbirem com o medo de voar sem segurança, devem ser encarcerados numa sala de espera de aeroporto, sem ar condicionado.

Item 2: Todo político (do executivo e do legislativo) e todo desembargador, só poderá recorrer ao sistema único de saúde. Ao serem eleitos e diplomados, perderão acesso a todos os planos particulares, médicos no exterior e clínicas chiques. Terão que marcar consulta pessoalmente (não podem mandar assessores) e esperar em todas as filas. Até mesmo os exames urgentes (que no SUS levam meses) terão que ser feitos seguindo exatamente a mesma rotina a que o resto do povo brasileiro está sujeito. E se, em decorrência desta obrigação, alguma melhoria for feita no sistema, ela passa a ser desfrutada por todos os brasileiros, sem distinção. E nem venham com a história de “direitos adquiridos”.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Quinta

CHEGA DE SAUDADE!
Hoje cedo, ali pelas 9 e pouco, LHS terá um tête-a-tête com o presidente Lula. O clima que foi criado para o reencontro é o mesmo de antigos namorados que, por alguma bobagem, estiveram brigados, mas morrendo de saudade um do outro. E hoje poderão, finalmente, olharem-se nos olhos, pegar na mão e, quem sabe, até trocar um abraço afetuoso. Vão colocar a conversa em dia e, se não brigarem de novo, LHS voltará sorridente e feliz.

(A molecagem fotográfica foi feita com fotos do Jaksson Zanco, do A.C. Mafalda e da Ivone Marcarini, todos da SECOM)

CRISE? QUE CRISE?
O personagem do dia, ontem foi o presidente da Anac, o sujeito da foto ao lado, um gauchinho bem-querer chamado Milton Zuanazzi. A Anac é nada menos que a Agência Nacional da Aviação Civil, que deveria fiscalizar as empresas aéreas e o cumprimento de metas e da lei. Pois o indigitado cidadão teve o desplante, a petulância e a falta de senso do ridículo de afirmar, numa audiência na Câmara dos Deputados, que o Brasil não vive uma crise do transporte aéreo. Não tem crise!

Noblat e outros jornalistas chamaram-no de maluco por dizer uma coisa dessas na mesma mesa onde pouco antes o Ministro da Defesa tinha falado em crise. E ele se abespinhou, ficou irritado com os jornalistas. Se disse vítima de preconceito. Ora, vá se catar!

Com um idiota presidindo a Anac, resta-nos apelar, antes de cada vôo, para Santo Expedito, Madre Paulina e outros santos da devoção de cada um. De preferência vários. Um colegiado. Porque um só é capaz de não dar conta de tanta cretinice junta.

GUERRA DE AUDIÊNCIA
A ida do Hélio Costa (ex-SBT) para a Record continua rendendo fofoquinhas e historinhas nos corredores das duas emissoras. Na Record riem-se das tentativas do SBT de mostrar que continua com a audiência alta. No SBT riem-se da Record, porque a contratação milionária não a distanciou das concorrentes.

Como resultado da mágoa empresarial, parece que funcionários da Record que prestavam serviços temporários para o SBT não foram mais chamados.

Para alimentar a polêmica, o grupo do SBT divulgou, no seu jornal, que o programa SBT Meio Dia, agora comandado pelo Náder Kalil, ocupa a vice-liderança do horário, perdendo apenas para a RBS. A Record apressou-se a minimizar o anúncio, dizendo que o SBT realmente passou a frente, mas por poucos minutos, na quarta-feira da semana passada, “antes do Hélio Costa entrar no ar”.

TROCA TROCA
O mercado nunca esteve tão agitado. Para trazer o Hélio Costa, a Record dispensou o repórter Dino Montez, que ocupava o horário. Dino não ficou desempregado muito tempo. Já está na TV Barriga Verde. Cesar Souza renovou seu contrato com a empresa do Saul Brandalise por mais alguns anos e o Dino é quem comanda o programa na ausência de seu titular e ainda é reponsável pelas reportagens de polícia.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Quarta

TOLERÂNCIA ZERO
Nossas autoridades de segurança e mesmo as outras de vez em quando falam na tal de “tolerância zero”, política que reduziu a criminalidade em Nova Iorque. Como nossas autoridades não são chegadas ao estudo, em geral são monoglotas e acham que dá para aprender sobre processos complexos apenas fazendo uma visita de alguns dias (como foi o caso da Colômbia), fiquei sem saber, afinal, o que era mesmo a tal “tolerância zero”.

Até que esta semana, por acaso, num livro que estava lendo, encontrei um bom relato sobre alguns aspectos da experiência noviorquina e pude, finalmente, começar a entender.

CRIME COMO EPIDEMIA
Estava lendo o The Tipping Point, do Malcolm Gladwell (Little Brown, 2000), mais interessado nos aspectos relacionados com a comunicação. Ele discute o que faz algumas idéias ou produtos virarem mania. O que leva uma coisa a se disseminar como se fosse um vírus, fazendo livros virarem bestsellers, produtos esgotarem nas prateleiras e as pessoas agirem de determinada forma.

[Clique aqui para visitar o site do livro (em inglês).]

Update das 10h: um amigo anônimo deixou, nos comentários, a informação que este livro saiu no Brasil pela Rocco, com o nome de Ponto de Desequilíbrio.

E a certa altura ele fala no caso de Nova Iorque. Afinal, nos anos 80, os índices de violência e criminalidade atingiram proporções epidêmicas. Por ano, cerca de 2 mil assassinatos e 600 mil registros de ocorrências graves.

No metrô, a situação era caótica. Os trens, totalmente pichados, por dentro e por fora, sujos, atrasavam regularmente. Em 1984 havia uma pane séria no sistema de metrô todos os dias. Incêndios e descarrilamentos eram comuns. Coisa de semana sim, outra também. Nesse ano eram seis mil vagões pichados (como estes das fotos), em praticamente todas as linhas.

Pular a catraca virou esporte nacional. Ninguém mais pagava o metrô. A companhia de tráfego calculou as perdas anuais em cerca de R$ 150 milhões, só com a malandragem viajando sem pagar. Em algumas estações, os espertos estragavam a maquineta onde se devia colocar a ficha para entrar no metrô e ficavam, numa das catracas abertas, “cobrando” a entrada. O cidadão de bem não tinha outra saída, a não ser entregar a ficha pro espertalhão e entrar sem rodar a catraca.

Os registros de assaltos, agressões e outros crimes no metrô chegaram, no final da década, a 20 mil por ano. Andar de metrô em Nova Iorque era uma aventura arriscada.

Esta era a situação, classificada como “a pior epidemia de crimes da história da cidade”. O inferno parecia não ter fim e a criminalidade crescia ano a ano até 1990, quando começou a decrescer vertiginosamente.

POR QUE?

O que teria acontecido? Não houve um transplante de população. Ninguém saiu de casa em casa ensinando os potenciais delinquentes o que era certo ou errado. Havia, no início dos anos 90, o mesmo número de tarados, criminosos, gente com todo tipo de distúrbio psicológico que durante os anos 80. O que teria levado essa gente a de repente parar de cometer crimes?

A resposta, acha Gladwell, está no que ele chama de “poder do contexto”. As epidemias são sensíveis às condições e circunstâncias do tempo e do espaço em que elas ocorrem.

Nos anos 90 o crime, em todo os Estados Unidos decresceu por vários motivos, incluindo uma recuperação da economia. Mas Nova Iorque, nessa mesma época, continuava estagnada. E apesar de todos os fatores contrários, a redução da criminalidade foi maior e mais rápida que no resto do país.

JANELA QUEBRADA

Uma das candidatas mais sérias a explicar a queda da criminalidade em Nova Iorque é a “teoria da janela quebrada”. Ela foi formulada pelos criminologistas James Q. Wilson e George Kelling e em resumo diz o seguinte: o crime é o resultado inevitável da desordem.

Se uma janela é quebrada e ninguém a conserta, os passantes vão concluir que ninguém se importa com aquilo e que não tem ninguém cuidando dali. Em pouco tempo, mais janelas serão quebradas e o sentimento de anarquia vai se espalhar do edifício para a rua em frente, enviando um sinal claro de que vale tudo. Verdadeiros convites para crimes mais sérios.

Ahá, começamos aí a entrar nas raízes da tal história de “tolerância zero”.

Wilson e Kelling dizem que trombadinhas e batedores de carteiras sentem-se mais à vontade para “trabalhar” em ruas ou bairros onde a população já esteja intimidada pelas condições de pouca segurança. Sabem que o transeunte que for roubado não terá ânimo, nem coragem, de chamar a polícia, muito menos de identificar quem o roubou. E sequer pensará em interferir, quando vir alguém sendo roubado.

O crime, portanto, é contagioso. Pode começar com uma janela quebrada e se espalhar pela cidade inteira.

A LIMPEZA DO METRÔ
Na metade dos anos 80, Kelling foi contratado pelo departamento de Trânsito de Nova Iorque como consultor. E começou a pressionar para que a teoria da janela quebrada fosse posta em prática. Isso começou a se tornar possível quando um novo diretor, David Gunn, foi encarregado de administrar uma reconstrução bilionária do sistema de metrô.

Muita gente, na época, achava que as pichações eram o menor dos problemas e que não valia a pena perder tempo com isso. Seria como se, no Titanic indo a pique, alguém resolvesse lavar o convés. Mas Gunn insistiu que “as pichações (os graffiti) são o símbolo do colapso do sistema”. Sem vencer a batalha das pichações, acreditava ele, todas as reformas e mudanças passariam em branco, como se nunca tivessem acontecido.

TEIMOSIA
Eles começaram limpando um carro do metrô depois do outro. Nos de aço inoxidável, usavam solventes, nos que eram pintados, pintavam por cima da sujeira. E depois que um carro tinha sido recuperado, cuidavam para que não fosse novamente pichado. Eles montaram, em finais de linha, “centrais de limpeza”. Se um carro chegasse ali com uma pichação, não voltaria a transitar antes de ser limpo.

Eles levaram seis anos (de 1984 a 1990), para limpar todos os carros. Fico imaginando, aqui nesta nossa terrinha abençoada, uma ação de governo do tipo desta, sendo mantida por tanto tempo.

EXEMPLO
O segundo estágio da recuperação do sistema de metrô começou com a entrada de William Bratton como chefe da polícia do departamento de trânsito. Discípulo da teoria da janela quebrada e de Kelling, Bratton encontrou uma maneira criativa para combater os crimes cometidos no metrô, a começar pela falta de pagamento da passagem.

Não parecia produtivo prender aqueles que pulavam a catraca, porque para levá-los à delegacia perdiam quase o dia todo e o sujeito estaria solto logo.

Em algumas estações, Bratton colocou policiais a paisana (no mínimo dez em cada equipe), prendendo os malandros um a um. O sujeito passou sem pagar, era preso. A “turma” era algemada uns nos outros e deixada ali mesmo, na estação, à vista de todos, até ter uma penca numerosa.

Os usuários, ao ver aquilo, recebiam uma mensagem clara: alguma coisa está sendo feita. Um velho ônibus foi transformado em delegacia móvel e ia a cada uma das estações onde tivesse uma penca, para registrar as ocorrências e checar a ficha de cada um. Mesmo que dali a pouco os malandros estivessem livres, sentiram que o ambiente estava mudando. As coisas já não eram assim tão fáceis.

Entre aqueles presos por pular a catraca, a polícia descobriu que um em cada sete, em média, tinha um mandado de prisão por um crime anterior. Um em cada 20, estava armado.

Esta prática durou de 1990 a 1994. Mas a polícia do departamento manteve o foco nas pequenas infrações, prestando atenção nos detalhes do dia-a-dia do metrô.

Com a eleição do prefeito Rudolph Giuliani, em 1994, Bratton foi nomeado chefe de polícia da cidade. E usou, no restante da cidade, as mesmas estratégias que tinha aplicado, com sucesso, no metrô.

Lavadores de parabrisas nos cruzamentos (sim eles também tinham isso), gente que mijava na rua, bêbados arruaceiros, garrafas jogadas na rua, nenhum delito era pequeno demais para a polícia. Sem o ambiente propício, sem janelas quebradas, o que parecia incontrolável começou a entrar nos eixos e assumir dimensões menos assustadoras.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Terça

AUXÍLIO GARANTIDO
O Ministério Público Estadual alterou o Art. 167 da Lei Complementar 197/2000 (a lei do Ministério Público) e pelo que estava publicado no Diário Oficial de 16 de março último, ao inciso 12, que garantia gratificação para quem quisesse ir para comarcas “de difícil provimento”(!?) foram acrescentados mais uns dez incisos, todos tratando do mesmo momentoso tema.

Tem auxílio moradia (no caso da comarca não ter “residência condigna”), auxílio alimentação, auxílio transporte, indenização de transporte, licença prêmio em dinheiro, abono de permanência, etc e tal. Nada de muito espetacular, mas o fato comprova que os procuradores são humanos e, como tal, tratam de garantir, nos seus contracheques, os penduricalhos que tantos outros servidores públicos já têm.

Num mundo de servidores públicos esses incisos não provocariam nem surpresa nem interesse. Mas num mundo de empregados (e desempregados) das privadas, a abundância de acréscimos (mesmo legais e até, em alguns casos, legítimos) sempre espanta. Afinal, pra gente conseguir um vale alimentação já é uma luta danada e ainda assim está sujeito a perder a qualquer momento.

SOFTWARE LIVRE
Este cidadão aí da foto, com um jeitão de Remy Fontana, é Jon “Maddog” Hall. Literalmente, o cachorro louco da Linux, cuja função atualmente é viajar pelo mundo, doutrinando corporações e pessoas sobre o “software livre”.

Está no Brasil para participar, a partir de quinta, do 8º Fórum Internacional de Software Livre, em Porto Alegre. Ontem Maddog deu uma palestra para a turma de TI da Caixa Econômica Federal.

Usar software aberto é uma boa para governos e entidades públicas. Não que seja exatamente gratuito, mas é mais flexível e barato que os softwares, por exemplo, da Microsoft. Em Santa Catarina o Ciasc tem feito a doutrinação em favor dessas ferramentas e uma lei de 2004 determina que a administração estadual usará “preferencialmente” programas abertos em seus equipamentos.

Os recursos disponíveis em programas Linux (como o Ubuntu) não ficam nada a dever (e em alguns casos superam) os que se encontram no Windows XP ou Vista. O problema é que, nascidos em berçários de “nerds” (aqueles caras que adoram tecnologia), os programas de código aberto nem sempre são simples e fáceis de instalar e usar. Mas é uma questão de tempo.

Mesmo porque não tem sentido pagar por um sistema operacional ou um programa, se puder usar um tão bom quanto e, legalmente, de graça.

A FATIA DO BOLO

Os prefeitos, alguns secretários municipais e vários vereadores, estão em Brasília. A Confederação Nacional dos Municípios calcula que mais de 2 mil prefeitos participarão da “10ª Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios”.

Reunião de prefeitos sempre alegra a capital federal e mais ainda as casas de moças boazinhas e dançadeiras, que ficam animadas com tanta gente nova e mão aberta na cidade.

Mas se nas despesas pessoais eles em geral não economizam, nas finanças municipais estão bem apertados. E, por isso, chegam a Brasília dispostos a pressionar o governo federal a aumentar o repasse do Fundo de Participação dos Municípios. Hoje 22,5% da arrecadação do Imposto sobre Produtos Industrializados vai para os municípios. Os prefeitos querem 23,5% já. Um aumento de cerca de R$ 1,7 bilhão.

O problema dessas redistribuições de renda e aumento de fatias, é que sempre acaba sobrando pra gente, pro contribuinte. Enquanto o País não enfrentar a sério a questão dos gastos públicos (e a redução racional da máquina estatal), cada pedaço que sair do bolo vai fazer falta e terá que ser reposto. Adivinha por quem?

O AUMENTO, DE NOVO

Vocês acharam que os deputados federais tinham desistido do aumento aquele? Pois bem, o presidente Chinaglia já avisou que logo depois de votar as medidas do PAC (Programa de Aceleração da Coceira), vai colocar em votação o aumento dos parlamentares.

O salário de suas excelências vai passar de R$ 12.840,20 (fora os penduricalhos) para R$ 16,5 mil. Um aumentinho modesto, praticamente franciscano, que só repõe a inflação dos últimos quatro anos.

De boca aberta embaixo da cascata, já estão os deputados estaduais, vereadores e outros tantos que têm vencimentos atrelados ao dos deputados.

NEPOTISMO LIGHT
Além do aumento, a Câmara deve examinar o projeto que acaba com o nepotismo nos três poderes (uma no prego e outra na ferradura). Mas é claro que o texto terá que ficar mais soft, mais redondinho e macio. Cairá a proibição de contratar parentes para serviços temporários, por exemplo. Afinal, eles querem mostrar uma cara séria para os eleitores, mas não vão querer prejudicar o futuro de suas próprias famílias, né?

REFORMA POLÍTICA

E a reforma política também está entre as prioridades da Câmara. O presidente Chinaglia até mandou fazer uma pesquisa para saber o que pensam seus pares sobre as questões mais espinhosas. Ou seja, tucanaram definitivamente o parlamento. Antigamente, para saber o que pensavam os deputados, era só colocar o tema em discussão e votação.

Hoje, só entra na pauta se houver “consenso” ou pelo menos chances de ter a maioria dos votos. Palhaçada. Não tem mais ninguém com opinião, não tem partido com programa? Não tem ninguém com a espinha dorsal intacta por lá?

Pelo jeito esta será, como tantas outras reformas, apenas uma lavação de aparência. No máximo uma demão de tinta. Talvez coloquem película numa ou noutra janela, para que a gente não possa ficar espiando pra dentro. Fidelidade partidária, voto em lista e financiamento público de campanha já têm consenso e por isso devem entrar em votação.

A TV DOS OTÁRIOS
A televisão por assinatura, a tal TV paga, que chega às nossas casas pelo cabo ou por satélite deveria ser, pelo simples fato da gente pagar para ver, diferente da TV aberta, A TV aberta (esta que se assiste de graça, apenas instalando uma antena) precisa de anúncios para se manter. Afinal, a gente não paga nada para assistir.

Pois os intervalos comerciais da TV paga tem superado, em muito, os das TVs abertas. E o que é pior, o consumidor não tem a quem reclamar. As sedes dessas emissoras são em Miami ou em algum outro local ainda mais inacessível e não estão nem um pouco preocupados com o chororô dos brasileiros.

A gritaria já chegou até ao Blue Bus, que é um site muito freqüentado por publicitários e gente da área de comunicação. Lá fiquei sabendo que na TV a cabo estão cortando até pedaços dos seriados para inserir propaganda (no satélite ainda não chegaram a este ponto, mas é só uma questão de tempo). E vem aí a TV digital, com muito mais sacanagem.

POLÍCIA INVISÍVEL

É impressão minha ou a Polícia Militar desistiu definitivamente de fazer rondas?

Não tenho visto policiais fardados nas ruas, em duplas, a pé, de bicicleta ou de baratinha, mostrando que estão presentes. E leio na coluna do Paulo Alceu que, em Florianópolis, tal qual no Rio e em São Paulo, tem escolas e postos de saúde co-administrados pelos traficantes.

Uma vez uma professora tinha me contado que, ali no Pantanal, a escola era literalmente dirigida pelo traficante-chefe da região e eu achei que ela estava exagerando. Sabe como é, tem gente paranóica, que vê perigo onde não tem. Mas, a cada dia, sinto-me mais abandonado e... tão paranóico quanto.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Feriadão de Páscoa

O CHARME DO PORTO
Willemstad, a cidade que aparece nas fotos acima, fica na entrada do porto de Curaçao. Tal e qual em Itajaí (e Navegantes), os navios mercantes passam por ali a caminho dos atracadouros.

No caso de Curaçao, tem uma refinaria de petróleo e um grande porto mercante num golfo natural cuja única entrada é esta que dá para ver na foto acima. E os navios de cruzeiro, pelo menos um por dia, ficam no pier turístico do canal (também na foto acima) ou no pier externo, para navios gigantescos.

Nos dois casos os turistas podem ir a pé até o simpático centrinho de Willemstad, fazer compras, visitar museus, tomar a boa cerveja local e esticar as pernas.

LEITE DE PEDRA
Os holandeses que colonizaram a pequena ilha do Caribe foram aqueles que tinham sido expulsos do nordeste brasileiro pelos portugueses e pelos usineiros caloteiros (mas isto é história do Brasil, que vocês podem ler em outros lugares). Pois bem, a ilha é pura pedra, não tem fontes de água potável, quase não tem como cultivar nada. E eles desenvolveram o lugar esquecendo os defeitos e usando as qualidades.

Como tinha um excelente porto natural, dedicaram-se ao comércio internacional, suprindo as deficiências portuárias da Venezuela (por isso a refinaria). A água é obtida da maior usina de dessalinização do mundo, que também produz a eletricidade da ilha.

Água pura, que permite à subsidiária da Amstel (cervejeira holandesa) produzir na ilha uma cerveja de primeira. A laranja nascia azeda, intragável, por causa do solo pobre. Eles inventaram um licor, feito da casca da laranja, que ficou famoso no mundo todo (e tem muita gente que conhece o licor curaçao, aquele azulzinho, mas nem sabe que a ilha existe).

A travessia de pedestres e bicicletas, no centro,é feita por uma ponte flutuante, de madeira, que gira e encosta na margem, para permitir a passagem dos navios. A ponte está lá há mais de um século.

TRABALHO E LAZER
Quando vim morar em Itajaí comecei a achar que já conhecia um lugar parecido, onde o mar tem uma presença tão importante e onde é utilizado tanto para movimentar a economia quanto para o turismo e o lazer. Quando caiu a ficha, comecei a reler as reportagens que escrevi sobre Curaçao no Caderno de Turismo da Gazeta Mercantil, a rever as fotos e a remexer nas lembranças.

Claro, eles têm o mar do Caribe, com sua água inacreditavelmente azul. Têm escolas que ensinam holandês, inglês e espanhol desde o primário, preparando os moradores para os negócios e o turismo. Mas essas coisas não são desvantagens permanentes. As areias finas das nossas praias são insuperáveis. E quando tivermos saneamento básico e mais educação, não ficaremos a dever nada. E aí Itajaí e Willemstad poderiam ser consideradas irmãs.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Quinta

IL FESTIVALE DI LHS
Por favor me corrijam se eu estiver errado. Mas se o LHS tivesse sido prefeito de Blumenau, a Oktoberfest não teria sido criada e organizada pelos catarinenses. Ele teria trazido alguém de Munique para fazer a festa.

Esta decisão de trazer um italiano para organizar um festival catarinense é uma acintosa demonstração de desrespeito por nós todos. É um tapa, sem luva, na cara de todos aqueles que, ao longo dos anos, pastaram e pastam tentando animar, gerir e organizar a cultura catarinense.

Chamou-nos, o governo, a nós todos, de incompetentes, de gentinha subdesenvolvida, de incapazes de fazer qualquer coisa de bom. Curvou-se, Sua Excelência, mais uma vez, como colonizado inseguro, ao poder imperial dos estrangeiros. Que, como falam uma língua diferente, devem ser muito melhores e mais cultos.

Arreganha-se o governador à “qualidade” alienígena, negligenciando seu papel de animador, estimulador e fomentador dos talentos locais. Não se vê, nas ações de cultura do governo, respeito por nenhum de nós. Para “estimular” a dança, traz o Bolshoi, para melhorar o ensino, traz um curso francês, para “animar” a cena musical, traz um festival italiano. Em cada museu que ele visita na Europa, pergunta se não querem abrir filial em Santa Catarina.

E como andam as escolas de música catarinenses, as orquestras, as salas de espetáculo, as atividades culturais? Esse novo festival importado faz parte de um programa amplo de popularização da cultura? Ou é apenas mais um delírio bem intencionado de um governante que, no fundo, sonha ser o prefeito de Veneza? Ou Viena?

“CULTURA MUNDIAL”

Não participei da reunião que o governador teve ontem à tarde com o De Masi (que não deve ter vindo de graça, para a reunião), mas fiquei envergonhado com o que li no relato distribuído pela Secretaria de Comunicação.

Reproduzem lá, a certa altura, palavras do Quirido Vinícius Lummertz:
“A versão catarinense terá uma formatação um pouco diferente daquela do festival de Ravello, na medida em que destacaremos valores brasileiros e seu contato com a cultura mundial.”
Como diriam os americanos: oh my God! Destacar valores brasileiros no festival de Santa Catarina é considerada uma coisinha adicional, um charme que diferencia do festival original, o de Ravello, na Itália?

Não entendi também essa história de “valores brasileiros e seu contato com a cultura mundial”. Como assim? Valores brasileiros que sejam apenas valores brasileiros não contam? Tem que ter um “contato com a cultura mundial”? Ou isso é pretexto apenas para trazer montoeiras de artistas estrangeiros para uns dias de mordomia no belo estado sulino?

Se alguém, dentre aqueles que têm alguma familiariade com as artes e a cultura brasileiras e catarinenses acredita que esse enfoque Luiz Henriquiano de doutrinar-nos, aos subdesenvolvidos, com os luminares (na opinião dele) da cultura ocidental seja correto, por favor escreva-me com urgência.

TÁ TUDO REFORMADO
Conforme se previa, a reforma administrativa do LHS foi aprovada sem qualquer problema. Por dever de ofício, assisti à sessão ordinária e à extraordinária. Mas levei um susto quando o oposicionista Kennedy Nunes (PP) foi ler um discurso contra a reforma. Até que estava bem escrito, mas o deputado precisa urgentemente ter aulas de leitura. Como lê mal! O cacete que ele queria dar saiu pela culatra, porque cada vez que ele repetia duas ou três vezes a palavra, até acertar, a ênfase já tinha ido pras cucuias.

De qualquer forma, os discursos contra eram só para marcar posição. O governo tem a maioria dos votos e pode aprovar o que bem entender. À oposição, resta espernear.

[Aqui neste blog é só clicar na foto, em qualquer foto, para abrir uma ampliação. Porque assim, pequenininha, não dá pra ver direito todos os detalhes.]

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Quarta

[Não tá conseguindo ver direito? Clica sobre as fotos que elas crescem!]

GOVERNO ELETRÔNICO
Repetem-se, no início do segundo mandato do LHS, cenas que já foram vistas no início do primeiro mandato. A cena da redução de despesas de custeio, a cena da “revogação do papelório e do carimbório”, as cenas da eficiência e da rapidez nas respostas, entre outras.

O problema é que mudar usos e costumes da burocracia estatal não é coisa simples, nem fácil. Não basta um governador criativo, sonhador, idealizar as coisas e verbalizá-las. É preciso dar a esse sonho uma consistência pedagógica, um fundamento teórico e uma conseqüência planejada. Implantar uma mentalidade de governo eletrônico, reduzindo, onde for o caso, os papéis e os carimbos, é tarefa que transcende o discurso do governante.

Não tinha lógica, por exemplo, deixar sucatear o Ciasc e falar, na tribuna, de modernizar os sistemas de informática que servem o governo. Não tem sentido desprezar a legislação que trata de arquivamento de documentos e manter o próprio arquivo público no século passado e ao mesmo tempo falar em digitalizar documentos.

É tudo integrado, orgânico. E secretários e diretores que chegam ao posto sem outro propósito que não o de ocupar espaço político e abrir portas para seus correligionários, não conseguem ver as coisas desse modo. Simplesmente não entendem um terço do que LHS quer dizer quando, nos discursos, sonha em voz alta. E a culpa, é claro, também cabe ao LHS, por achar que seus auxiliares são capazes do que não são.

A turma sonha com “gadgets”, brinquedinhos, computadores de mão, laptops, celulares incrementados, mas não tem noção do que seja abrir as entranhas do governo ao acesso público. E, os poucos que sabem do que se trata, morrem de medo.

ESSES GAÚCHOS...
O Delmar Buiz, de Navegantes, é leitor da coluna e, como ele diz, “gaúcho com orgulho”. Ele ficou cabreiro com aquela nota de ontem, sobre a notícia da “farra gaúcha”, porque entendeu que eu estava me referindo aos gaúchos de uma maneira geral. Claro que não, Delmar.

Deixa eu explicar uma coisa: nas rodas de jornalistas catarinenses, quando a gente fala nos gaúchos, está se referindo aos colegas da RBS. Assim como, anos atrás, falava nos galegos do Santa. Então quando falei na “desfaçatez usual”, estava dizendo que não gosto do jeitão de agir da RBS e me referia à forma como, costumeiramente, demonstram pouco caso e desprezo por este estado que tão generosamente os acolhe.

Conheço bem tanto os gaúchos quanto a RBS, onde já trabalhei. Fui o primeiro repórter do Campo e Lavoura, há uns 30 anos. Morei duas vezes em Porto Alegre e lá sou sempre muito bem recebido e tratado. Tenho dezenas de amigos gaúchos, muitos dos quais morando aqui em Santa Catarina. Portanto sei bem que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

NEPOTISMO INOVADOR
O LHS é mesmo um cara criativo. Acaba de inventar o nepotismo interestadual. É uma fórmula tão complexa que jamais algum promotor ranzinza conseguirá enquadrar. O velho amigo Leur Lomanto, da Anac, não pode empregar a filha lá? Não tem problema: o LHS coloca ela a administrar os recursos humanos do governo catarinense. E, quem sabe, indica alguém para alguma das repartições onde o Lomanto tem influência. Nepotismo cruzado, difícil de rastrear, impossível de identificar. E todos viverão felizes para sempre.

ESSES DEPUTADOS...

Piadinha que circula na Assembléia, sobre o empenho com que o Deputado Padre Baldissera (PT) luta contra o nepotismo: “claro, só mesmo um padre, que não tem mulher e não tem filhos é que pode querer acabar com o nepotismo”.

A LUTA CONTINUA
Depois do Ministério Público Federal, o Ministério Público Estadual também entrou na briga contra a tentativa do governo LHS, de legalizar na marra os caça-níqueis em Santa Catarina.

O Procurador-Geral, Pedro Steil, também protocolou uma representação junto ao Procurador-Geral da República pedindo uma ação direta de inconstitucionalidade contra as novas normas estaduais que liberam a jogatina.

Só quero ver até onde e até quando o governo estadual vai ficar insistindo nessa batalha inglória.

FOGO AMIGO
Na sessão de ontem da Assembléia uma coisa me chamou a atenção: os tucanos cobrando providências do governo. Primeiro, o deputado Marcos Vieira (PSDB) começou a falar sobre segurança e, aparentemente, a questionar as ações do governo que ele apoia. Logo depois, foi a vez do Nilson Gonçalves (PSDB) protocolar um pedido para que o governo que ele apoia resolva um problema de uma rodovia no norte do estado.

Mostra, pelo menos, que os tucanos não estão encontrando caminhos internos para fazerem-se ouvir.

A oposição não perdeu tempo e tratou de enfiar a colher torta: “se a descentralização é tão maravilhosa, por que os deputados da base ficam pedindo solução direto para o governador e não para o secretário da regional?”

terça-feira, 3 de abril de 2007

Terça

[Pra ver melhor os novos ministros é só clicar na foto que se abre uma ampliação]

O “NOVO” GOVERNO

Ontem, dia 2 de abril de 2007, foi realizada a primeira reunião ministerial do novo mandato do presidente Lula. E nem sou eu quem está dizendo. Está lá, no site de notícias da Presidência da República. Como Lula foi diplomado presidente dia 14 de dezembro (embora soubesse desde antes que tinha sido reeleito), passaram-se então mais de três meses de pura enrolação.

“Montagem de governo” é nome chicoso de indecisão, protelação e negociações rasteiras. Sem um projeto claro para o Brasil (exceto aqueles fragmentos soltos aqui e ali em improvisos que são esquecidos no dia seguinte), o presidente Lula fez, mais uma vez, o que todos os políticos da velha estirpe sempre fizeram: “se me apoiares, ganhas uma capitania hereditária”.

Olha só, no telão, que baita propaganda da Microsoft! Será que já é resultado da visita ao Bush?

SEM COMANDO
Desde 2003 (se quisermos falar apenas no governo Lula) há documentos alertando para os problemas do controle aéreo no Brasil. O ministério da Defesa investe abaixo de sua capacidade orçamentária nesta área.

Não é um problema que tenha começado há seis meses, com a queda do avião da Gol. E, sem comando, o País continua sem saber se um dia a coisa terá solução. Num dia Lula desautoriza o Ministro da Aeronáutica, no outro joga a culpa unicamente nos grevistas. Num dia se queixa, no outro dá broncas genéricas. Só que ninguém fala em montar um plano consistente para dotar o Brasil novamente de um sistema eficiente de controle do espaço aéreo.

Não se viu, nos seis meses de crise mais aguda, um só lampejo de inteligência, uma proposta que pudesse ser enunciada em voz alta sem provocar risos de pena ou de escárnio. O governo está na defensiva, encurralado e tudo indica que tentará cair de pau em cima dos controladores militares, como forma de dizer que “resolveu a crise”.

Como se uma crise deste tamanho tivesse causa única e únicos responsáveis. E, se de fato tiver, por que não tomaram as medidas há seis meses? Porque estavam ocupados com a eleição? Depois porque estavam ocupados com a distribuição de cargos?

Então agora que o ministério está “completo” e todas as sesmarias foram distribuídas, pode ser que alguém comece a trabalhar? É isso?

POR QUE SÓ ELE?
De vez em quando, principalmente em épocas de eleição, a gente vê o Tribunal Eleitoral punindo gente que faz propaganda eleitoral extemporânea. Até o Pavan já teve que se incomodar por causa de um out-door. Mas nunca vi o TRE pegar no pé do Gean Loureiro (foto acima), que adora gastar dinheiro em out-doors puramente promocionais. Dia das mães, aniversário da cidade, Natal, seja o que for, tem sempre um out-door do Gean na rua. E, até onde sei, nada acontece. Será que é porque ninguém denuncia?

PODE LEVAR!
Parece que os gaúchos da RBS gostam mesmo de se apropriar de idéias catarinenses: a imagem acima é de um portal de notícias da globo.com, o G1. Ali, “com informações da RBS TV”, dizem que “PM apreende e abate boi que faria parte da ‘farra’ gaúcha”.

Fui ler muito curioso, porque não tinha notícia que os irmãos gaúchos tivessem esse tipo de problema. Normalmente eles carneiam bois e vacas antes, durante e depois das gineteadas e dos rodeios, sem qualquer empecilho.

Mas a notícia já começava estranha, falando em “policiais militares do Rio Grande do Sul”. Ora, no RS existe a Brigada Militar, não tem Polícia Militar.

O que aconteceu é que, com a desfaçatez que parece estar se tornando usual, os gaúchos da RBS transmitiram, para os colegas da globo.com, uma notícia ocorrida em Santa Catarina, como se fosse da região deles e os cariocas embarcaram, sacumé?

E, cá entre nós, se eles querem mesmo levar essa encrenca para lá, o melhor é deixar levar. De uns tempos pra cá a brincadeira deixou de ter graça e tem virado coisa de bandido. Então o melhor é extraditar a farra. Eles que vão fazer a “farra gaúcha” e deixem-nos aqui, quietos no nosso canto.

Mas é claro que, depois de feita a mancada, dirão que foi um engano, culparão os controladores de vôo e nós perderemos mais uma vez a oportunidade de ficarmos livres dessa praga.

Atualização – só perto do meio dia de ontem a turma se tocou e corrigiu o erro. Dá uma olhada como ficou a chamada.