terça-feira, 6 de janeiro de 2009

A enchente vista de dentro

Outro dia comentei aqui sobre as lembranças meio longínquas que tinha das enchentes. A Márcia, de Balneário Camboriú, mandou sua contribuição para essa conversa que, como ela também notou, estava ficando meio adocicada demais...
“Uma bela história, muy bem contada como só vc sabe fazer (Merece a puxada! X? Tive que conferir no velhíssimo dicionário que sobrou aqui, precisa ver o estado dos demais que estou secando. desembarrando, desgrudando no sol...).

Consoladora, em parte. Contudo, este tom doce de aceitação deve-se ao fato de ser só reminiscência de criança, para quem tudo é aventura, festa, felizmente. Quando a casa foi coberta, vc só foi visitar. Não passou por aquilo. Seguramente não estaria assim tão cordato, caso perdesse muita coisa pelo menos uma vez ao ano, e visse o fenômeno "natural" tornar-se cada vez mais grave, a ponto de vc ter como opções demolir sua casa, aterrar o terreno em 3m e fazer outra, para revolta dos vizinhos que ficariam "lá em baixo". Quem sabe mudar-se de vez para o telhado, manter o térreo vazio só para hospedar o barrão, que já apareceu até meia dúzia de vezes num ano, fazer garagem de barco... Ou enjaular-se num apê, após jogar seu velho amigo cachorro fora, ou comê-lo assado, como fez a mulher do Dali com o coelho deles.

A maioria das pessoas não tem opções. São Pedro e os fenômenos naturais não podem servir de cortina de fumaça (água? barro?) para a omissão generalizada das autoridades em planejamento urbano e ecologia.

Depois que tivermos saneamento básico, que a construção civil dos ricos e dos pobres seja bem fiscalizada e ordenada, que existam praças verdes (não moeda verde), etc, aceitarei a parte realmente natural dos fenômenos. Não podemos achar natural ver pessoas morrer em casas desmoronadas. Veja que tem gente feliz vivendo lá nos países que têm temporada de furacão (com evacuação das cidades, abrigos, planejamento...).

Aqui precisamos que os irmãos do norte nos avisem dos nossos ciclones-zinhos e dependemos daquela moça enjoadinha da Band para saber se vamos ver o telhado voando ou se a chuva vai arrasar tudo. Como vc mesmo já contou, é possível saber que vai chover tantos milímetros daqui a pouco no autódromo, mas tem-se deixado milhares de pessoas no escuro, no pânico, crianças sem água ou comida, sem saber se a Arca de Noé já passou, se é o fim do mundo, ou se o sol vai voltar amanhã.

Defesa civil não pode ser bombeiro desfilando de jet sky ou aqueles políticos oportunistas recolhendo pessoas de barco para jogá-las num colégio.

Em vez de estarem planejando gastar milhões do contribuinte no alargamento da praia, em Balneário Camboriú precisamos de ESGOTO! Praças! Ajude aí, já que vc é um César dos Valente.”

2 comentários:

Anônimo disse...

http://www.mafiadolixo.com/

marcia disse...

Obrigada. Quanta honra ocupar este espaço. Ressalto, gostei da história adocicada e consoladora da sua enchente. Mostra que sendo velha a situação, deveríamos estar ultra-super-bem preparados. Assim como constroem à prova de terremoto, no Japão.

Só joguei o meu fel ai para cortar a bola que vc bem levantou. O povo aqui também encara as vicissitudes, com bom humor para levar a vida adiante. Só não podemos deixar as "Otoridades" acharem que adoramos levar porrada, como mulheres de Nelson Rodrigues.

Esqueci de dizer que em meio ao caos de Balneário Camboriú (o que é crime relatar, tem que esconder dos turistas...), mesmo sendo atéia, ainda tenho que rezar pela SC 401, onde tem que passar irmã, sobrinhos, amigos. Ou pelos morros e matagais de Zimbros, onde podem ficar ilhados irmão, sobrinho, cunhada grávida, aquele antigo engarrafamento que nos priva de visitá-los. E todo mundo andando para lá e para cá na BR 101, cenário de pavor, como conta o Mario Medaglia. Santa Catarina continua sendo violentada, a pobre, agora pelos corruptos e omissos. Não desanime, profe, navegar é preciso!