Daí, quando fui editor-chefe do jornal O Estado, no tempo em que o mar vinha até aqui e ali pra cima era tudo mato, resolvi macaquear os norte-americanos, que no dia da mentira fazem brincadeiras colocando notícias falsas nas capas de seus jornais.
E preparei uma capa de 1º de abril para o jornal. Falava, se a memória não me trai, da interdição da ponte Hercílio Luz (uma coisa inimaginável, na época, embora sempre temida) e das dificuldades que a turma teria. E tinha outras chamadas, todas falsas. Lá na página dois é que eu explicava que aquela capa era uma brincadeira de primeiro de abril.
Claro que eu estava meio preocupado com a possível repercussão. Afinal, nunca antes neste país um jornal tinha feito uma capa como aquela, totalmente de brincadeira. A cada passo da confecção da capa eu dava uma olhada. E mandava tocar.
Fui pro lado da rotativa, para ver como ficaria impresso. Assim que a tinta foi acertada e sairam os primeiros exemplares, peguei o jornal, olhei e mandei parar a impressão.
Tinha ficado forte demais. O Comelli (dono do jornal), Florianópolis e quiçá Santa Catarina não estavam assim tão americanizados para encarar com naturalidade uma brincadeira daquele tamanho (o jornal, na época, era tamanho standard, daqueles grandões).
Pelo sim, pelo não, o jornal circulou, no dia da mentira, com uma capa de verdade. Fiquei tão chateado com a minha falta de coragem, que nunca mais falei nisso. Acho que nunca contei esta história em público. Talvez tenha comentado em alguma aula, mas em jornal acho que é a primeira vez.
MARADONA E SOBEL
De tudo que vi e li sobre a maluquice do rabino Sobel (preso roubando gravatas em Miami), a coisa mais sensata foi o que escreveu o Juca Kfouri. Ele juntou os dois personagens que tiveram uma vida memorável e, em determinado momento, escorregaram na maionese: Sobel e Maradona.
Entre outras coisas, disse Kfouri: “que se ignore a biografia de um homem pego em erro grave é incompreensível. Para alguma coisa há de valer o passado das pessoas”.
Não se pode apagar os bons e produtivos momentos do Maradona porque agora ele não consegue parar de cheirar. Não se pode esquecer a coragem com que o rabino se portou nas piores horas da história brasileira, porque agora, depressivo e sob a ação de remédios, virou cleptomaníaco.
Diz o Juca: “se a vida pregressa não vale para nada, de que vale a vida?”
CAOS GOVERNAMENTAL
O que tem infernizado a vida daqueles que precisam viajar de avião é o caos em que Anac, Defesa e governo, se encontram. Não tem nada de caos aéreo. É caos ao rés-do-chão mesmo.
Ontem os controladores publicaram um manifesto onde apontam, novamente, as mazelas que só o governo não vê. Fazem denúncias, levantam questões graves. Mas não se ouve, do presidente da República, uma única palavra sensata que possa tranquilizar o contribuinte.
Lula fez apenas uma cobrança retórica, para aparecer no noticiário: “quero que me digam o dia em que isto vai acabar”. E não deu prazo para que os três patetas dêem a resposta pedida. E dá-lhe bate-cabeça, protelações, desvios de rota. E o contribuinte, idiota e desamparado, dorme nos bancos dos aeroportos, mal servido pela Inchaero. Espera horas dentro de aviões cada vez mais alquebrados. E reza para, se conseguir voar, possa chegar vivo ao seu destino.
A BRONCA DO LEITOR
A propósito da dispensa de licitação do Ministério Público estadual, para conserto de ar condicionado, a que nos referimos ontem, um leitor manda uma sugestão para eles: “da próxima vez que ocorrer de não aparecerem candidatos aos pregões, talvez seja melhor contratar a empresa por meio de carta-convite, em vez de dispensa de licitação. Porque aí pelo menos tem três orçamentos”.
QUE MERDA!
Às vezes não dá um cansaço de viver num lugar onde coisas básicas como o esgoto precisam de ordem judicial para serem feitas?
Florianópolis, a Funasa e a Casan foram condenadas pela Justiça Federal a implantar um sistema de esgotos no Canto do Lamin, em Canasvieiras, norte da Ilha de Santa Catarina.
Não tem rio, riacho, córrego, praia e baixio deste nosso estado, que não receba seu quinhão de merda. Cagões de todos os tipos, níveis sociais e títulos despejam solenemente seus detritos no ambiente que nos cerca. E fazem de conta que não sabem o que está acontecendo.
Seus porcalhões engravatados, seus nojentos com doutorado, seus imundos letrados: não adianta nada o dinheiro, os títulos, as viagens, as propinas, o nariz empinado das autoridades. A Santa e Bela Catarina está afundando na merda. Literalmente. E em todos os sentidos.
Precisar de ordem judicial para construir esgoto é sintoma de um câncer intestinal no cérebro de quem teve e tem alguma responsabilidade. Nem adianta apontar o dedo para o adversário. Tem antes que olhar para o teu rabo. E tomar conta para que o que sai dele não vá para os rios e para o mar.
Gente hipócrita e incompetente que fala, fala e não consegue resolver um dos mais antigos, mais graves e mais urgentes problema da humanidade.

