domingo, 21 de janeiro de 2007

In memoriam

Normalmente só publico aqui a transcrição da coluna do DIARINHO. Mas como lá só terei coluna na terça-feira abro uma exceção para lembrar o aniversário de morte do Aldírio Simões, que ocorre nesta segunda, dia 22.

A internet permite maior flexibilidade não só quanto ao momento de publicar, mas principalmente quanto ao espaço. O Manezinho Chico Amante, amigo dedicado do Aldírio e um cultivador das nossas coisas, reuniu com carinho um extenso material que dificilmente poderia ser publicado, na íntegra, num jornal. Mas aqui dá. E ao leitor custa apenas ir lendo e rolando a tela, para mergulhar neste mundo que a passagem do tempo não nos pode fazer esquecer.

Aí estão, para que a gente possa, durante a segunda-feira, parar uns minutos e lembrar desse nosso amigo que se foi, além de uma biografia e da última crônica do Aldírio, textos publicados à época da morte dele (2004) por vários autores:

– Chico Amante
– Carlos Damião
– Wilson Libório de Medeiros
– Sérgio da Costa Ramos
– Ricardinho Machado
– Moacir Benvenutti
– Jean Hermógenes Saibro
– Moacir Pereira
– Fausto Silva
– Cyro Barreto
– Acácio Garibaldi S. Thiago Filho
– Celso Leal da Veiga Júnior
– Ilmar Carvalho

ALDÍRIO SIMÕES DE JESUS
Pequena biografia, por Chico Amante

Natural de Florianópolis, nascido às margens do Rio do Brás, em Canasvieiras, em 5 de janeiro de 1942, filho de Waldemar Raulino de Jesus e de Maria Iglacides de Jesus.

Seus estudos tiveram início na Escola Isolada de Canasvieiras, concluindo o primário no Grupo Escolar Arquidiocesano São José, no Centro da Capital. Posteriormente ingressou na Academia de Comércio Santa Catarina.

Ainda garoto, executava serviços na agricultura da família e na pesca de subsistência. Transferindo-se para o centro, foi trabalhar na Confeitaria Chiquinho, como balconista, transferindo-se a seguir para A Soberana.

Entretanto, suas ambições eram bem maiores do que representavam profissionalmente aqueles empregos, e assim, em 1976, ingressou na Prefeitura Municipal de Florianópolis, exercendo inúmeros postos da hierarquia funcional, até assumir a superintendência da Fundação Franklin Cascaes, isto nos idos de 1988. Foi também, por longos anos, Coordenador Geral do Carnaval de Florianópolis, desde 1985, designado por vários prefeitos da Capital. Além disso, foi diretor de Artes da Fundação Catarinense de Cultura.

A partir de 1972, e paralelamente às suas atividades profissionais, ingressou no jornalismo, primeiro como paginador do Jornal O Estado. Com a tenacidade que lhe era peculiar, abraçou todas as oportunidades que lhe surgiram, tendo sido inclusive repórter esportivo do referido jornal. Trabalhou igualmente nos Diários Associados, no Diário Catarinense, nas rádios A Verdade, Cultura e Diário da Manhã. Na televisão, trabalhou na RBS, na TV Cultura e na TV Barriga Verde. Por último, apresentava no SBT-SC, o renomado programa “Bar Fala Mané” – sua criação – sucesso absoluto de audiência em Santa Catarina. Também assinava uma coluna diária no Jornal ANCapital, suplemento regional de A Notícia, com o título “Fala Mane”.

Mercê sua condigna, honrada e profícua atuação profissional, tornou-se uma figura por demais conhecida dos catarinenses – pois seu desempenho transcendeu os limites da Capital, ressoando em todos os rincões do Estado – sendo digno dos maiores encômios e da consideração de todos.

Advindo de longínquos rincões ilhéus, de família modesta e com pouca formação didática, teve que redobrar seus esforços e assim impor perante a população toda a marca indelével de dignidade e profissionalismo que hoje serve de exemplo a muitos de seus colegas jornalistas.

Durante sua vida profissional, além do renomado programa “Bar Fala Mané”, foi criador de muitos eventos, destacando-se no rádio o “Clube do Samba” e as promoções que marcaram época em Florianópolis, como o Torneio de Dominó “Dominópolis”, a Maratoma e a Parú-Fest. Sua paixão pelo carnaval ensejou a criação da Banda Mexe-Mexe e do Bloco Ânsia de Vômito, que desfilavam pelas ruas de Florianópolis, prenunciando o início dos festejos momescos. Entretanto, a maior delas é sem dúvida a criação do Troféu “Manezinho de Ilha” que, ao longo dos últimos dezoito anos, homenageou pessoas da comunidade florianopolitana com a cobiçada honraria e que se tornou bastante disputada.

Consta de seu acervo literário as seguintes obras: “Sou Ilhéu, Graças a Deus”, “Fala Mané” e “Domingueiras”, nos quais selecionou um sem número de crônicas que escreveu para jornais da Capital; “Retratos à Luz de Pomboca”, onde traçou o perfil de diversos Manezinhos da Ilha; e “O Pirão Nosso de Cada Dia”, que versa sobre a gastronomia com predominância para a tipicamente Manezinha. Participou, ainda, do livro “Contos de Carnaval”, uma coletânea de crônicas de renomados e reconhecidos escritores e folcloristas florianópolitanos.

Em 2003 foi agraciado com a Medalha do Mérito da Câmara Municipal de Florianópolis, ocasião em que seu trabalho foi comparado ao do emérito professor Franklin Cascaes. Incontinenti contestou tal comparação, afirmando:
“Não aceito a comparação com o professor Franklin Cascaes que tinha um trabalho bem mais profundo, enquanto eu faço isso de forma espontânea e sem me preocupar em deixar algum legado”.

E acrescentou: “Franklin Cascaes foi um estudioso, um pesquisador. Eu não me considero um pesquisador, faço apenas um trabalho de resgate jornalístico. O que faço é abrir espaço na mídia para o sujeito simples que de outra forma não poderia contar sua história, revelar um caso. Espaços nos jornais, emissoras de rádio e televisão, e nas ruas, para aqueles que se dedicam ao samba e ao Carnaval, à música, a gastronomia da Ilha e ao folclore”.
Segundo o professor Nereu do Vale Pereira, “Os trabalhos de ambos são diferentes, mas o do Aldírio é hoje preponderante na preservação da cultura popular e das características do ilhéu”. Já a professora Lélia Pereira da Silva Nunes, Superintendente da Fundação Franklin Cascaes, assim resumiu: “Cascaes era muito fechado, o Aldírio é mais aberto. Mas os dois têm e tiveram a mesma missão, com visões diferentes. Ambos preocupados com o registro, resgate, preservação e difusão dos elementos culturais locais”.

Para o museólogo Gelci Coelho (Peninha), que trabalhou muitos anos com Franklin Cascaes, “um foi comunicador” e “o outro artista e educador”. Mas declarou aplaudir o trabalho do jornalista na “valorização da memória do povo e das pessoas, preocupando-se em abordar o nosso cotidiano de maneira singela, dando valor às coisas simples, numa verdadeira resistência cultural”.

O jornalista Celso Martins, discorrendo acerca da figura do Aldírio Simões, em artigo no jornal A Notícia, citou um depoimento sobre as transformações que ocorreram na Capital, cuja bandeira de preservação de nossa cultura foi galhardamente empunhada pelo Aldírio, que disse em certa ocasião: “Com o surgimento da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e da Eletrosul, sentimos que os nossos espaços foram sendo ocupados, que a nossa identidade estava se perdendo”. E Celso Martins arrematou: “Ao longo de sua vida, Simões prestou muita atenção nos antigos 'Manés da Ilha', residentes nas praias, bairros e distritos que o Aldírio reuniu num precioso acervo oral”.

Nos últimos anos participou ativamente das excursões internacionais de intercâmbio dos Manezinhos da Ilha, sob a coordenação do advogado Nestor Lodetti. Esteve em vários países da Europa, no Canadá, nos Estados Unidos e alguns países da América do Sul. Viajou igualmente, e em várias oportunidades, para Portugal e Arquipélago dos Açores.

Dentre suas preferências, além das já citadas, era um torcedor apaixonado pelo Botafogo do Rio de Janeiro e pelo Figueirense da Capital. Suas escolas de samba preferidas eram a Portela, no Rio e a Copa Lorde, em Florianópolis.

Dividia seu tempo entre sua residência no Abraão e a casa na Praia do Sonho, em Palhoça, onde, em 22 de janeiro último, se refugiou para se encontrar com a legião de Manezinhos que subiram os degraus da eternidade antes dele, onde, por certo, continuará realizando o trabalho que tanto o destacou entre nós.

Falecido em 22 de janeiro de 2004, foi casado em primeiras núpcias com Rosa Maria Setúbal, com quem teve dois filhos: Simone e Sione, e com Maristela Figueiredo, advindo dessa união mais dois filhos: Mariela e Bruno. Está sepultado no Cemitério São Francisco Xavier, no Itacorubi, Florianópolis.

Aldírio (e) com o amigo Chico Amante, no Abrão

A ÚLTIMA CRÔNICA
(Última crônica do Aldírio Simões publicada na sua coluna “Fala Mané”, do ANCapital, exatamente no dia de seu trágico falecimento, onde lembra do colunista Miro, que também fazia parte do grupo de Manezinhos contemplados com o troféu e que morrera pouco tempo antes).

UMA VIAGEM COM MIRO
Aldírio Simões

Como ilhéu, conhecia o Miro há muitos anos, mas a nossa amizade ficou consolidada durante uma viagem a Miami, há cerca de seis anos. Foi então que descobri uma figura notável, descontraída, sincera, atenciosa, que exercitava em todas as oportunidades o bem-querer, que se doava, que dividia o pouco que tinha. Que fez da vida um sempre hoje, porque o amanhã é uma incógnita. Era assim que ele vivia a vida.

Com muitos carimbos em seu passaporte, Miro conhecia Miami como poucas pessoas e não era diferente com Nova Iorque, onde transitava com perfeita desenvoltura: conhecia os mais badalados bares, inclusive aqueles que eram freqüentados por brasileiros famosos. Em Miami estávamos num grupo formado por ele, eu, seu cunhado Ricardinho Machado e o radialista J. Pacheco. Ele se assumiu como nosso cicerone e mergulhamos na noite de Miami conhecendo os lugares mais badalados, com os quais demonstrava bastante intimidade.

Com energia suficiente para atravessar noite a fio, Miro motivava a turma da Confraria dos Manezinhos a cair na gandaia, e os bons velhinhos que tentaram acompanha-los se deram mal, percorrendo um circuito de bares que terminava em noitada s com a mulherada tirando a roupa. Lembro de uma cena em que um desses velhinhos assanhados exibiu uma nota, dólar é claro, que foi esfregada no corpo da mulher que dançava, e depois devolvida. O exibido passou o resto dos dias em Miami exibindo o dinheiro. E o Miro, gozador, se deliciava diante do velhinho se locupletando.

De Miami seguimos para Orlando numa Van e o Miro, que conhecia a estrada, assumiu o volante. A viagem, embora não muito longa, tornou-se extenuante, pois vínhamos de noitadas seguidas. E seguíamos nos divertindo, com o Ricardinho solando blues em sua gaita de boca. Ao passarmos por Boca Raton lembramos que o César Struwe mora lá, mas nos frustramos por não termos seu endereço, pois queríamos uma boca livre. Foi quando o Ricardinho sugeriu, no melhor estilo manezinho, que perguntássemos pelo Galego no posto de gasolina. Miro também conhecia Orlando na palma da mão.

Durante uma semana em que estivemos juntos, em Miami, Orlando e Nova Iorque, conheci o Miro na sua intimidade e me impressionei com a sua alegria de viver. Um sujeito que se doava aos amigos, dividia o pouco que tinha, patrocinava noitadas e não descansou enquanto não convenceu o grupo a fazer um vôo panorâmico sobre Miami, pagando parte de seu bolso.

Esse foi o Miro que conheci e depois passei a admirá-lo até seus últimos dias aqui na terra. Amigo fraterno que fazia de sua intensa alegria de viver uma lição de vida. E foi dessa forma que viveu o quanto pode. Deus, que nos surpreende de vez em quando, o chamou muito cedo para mais uma missão celestial. Sabem por que? Porque o Miro era um sujeito extremamente bondoso. Era tão bom que costumava cuidar das pessoas em sua volta e esqueceu de cuidar de si próprio. Que Deus o tenha, amigo!
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HOMENAGENS PÓSTUMAS
(Crônicas de Manezinhos, jornalistas, amigos, admiradores e leitores do Mané Maior Aldírio Simões, publicadas por ocasião de seu falecimento, em 2004)

A DESPEDIDA
Chico Amante – ANCapital de 31/01/2004

Pesadelo? Alucinação? Ficção? Não, absolutamente, não! Dia fatal – 22 de janeiro de 2004 – 17 dias após ele ter completado seus bem vividos 62 anos. Justamente ele que amava tanto a vida, deixou-nos tão prematuramente, órfãos. Sim, porque, independentemente de idade, éramos pai, filho, irmão, e sobretudo amigo do Mané–Maior, o Aldírio. O Aldírio Simões, filho da Dona Bicota, irmão do Édio (saudoso) e do Marinho, marido da Maristela e pai da Simone, do Sione, do Brunão e da Mariela.

Com uma amizade e convivência de mais de cinqüenta anos, remonto o dia em que o Mané foi ao escritório da firma Moritz, isso nos idos de 1950. Queria trabalhar na A Soberana, e sua credencial maior era a de ter trabalhado no Chiquinho. Fiz o teste para atender uma formalidade, e incontinenti o admiti.

Marcou época no novo emprego, quando atendia as senhoras “freguesas”, sempre com amabilidade e as chamando de “madame”, o que, às vezes, provocava a admiração e até inveja, porque elas, à partir de então, escolhiam o Aldírio todos os dias.

O tempo passou, e o Mané–Maior, sempre com absoluta independência, iniciou sua trajetória de sucesso, tanto nos serviços da Prefeitura Municipal como na imprensa de Florianópolis.
Alguns anos depois, tive a felicidade de vê-lo meu vizinho no Abraão, juntamente com outro Manezinho famoso, o poeta Zininho. Daí em diante, selou-se uma amizade indissolúvel, e tornei-me, involuntariamente, seu confidente e seu conselheiro, principalmente quando algo sobre nossa cidade fugia de sua memória, e ele precisava para ornamentar suas inconfundíveis crônicas no jornal.

Há 25 anos atrás, quando foi morar no Abraão, o Aldírio já era uma figura pública, por sua atuação na imprensa e pelas promoções que encetava.

Pois em 1988, fui agraciado com o Troféu Manezinho da Ilha, assim como tantas figuras do cotidiano ilhéu, E, desta forma, ele resgatou e perenizou uma denominação singular, que em outras épocas era utilizada como pejorativo para “inticar” com os nossos irmãos do interior da Ilha.

E, de sua pertinácia, visão e tirocínio, surgiu o “Bar Fala Mane”, referência incontestável de nossa cultura, cuja repercussão transcendeu nossos limites, tornando-se um dos programas de maior audiência da televisão catarinense.

E a Ilha e os Manezinhos perderam o seu maior porta-voz; uma voz atuante em defesa de nossos interesses culturais, folclóricos, usos e costumes, que não media esforços para manter acima de qualquer coisa, tudo aquilo que sempre nos pertenceu e que diuturnamente “alienígenas” tentam de todas as formas nos roubar.

Porém, jamais deixaremos a peteca cair. Em memória do Aldírio, iremos defender com intransigência toda a sua obra, dignificada pela sublime atuação profissional e o comportamento exemplar no seio de nossa sociedade.

Estejas onde estiveres, Aldírio, assumiremos tua trincheira em defesa de nossa cidade e de nosso povo, na certeza de que, irmanados ao mesmo ideal que norteou tua existência, haveremos de manter viva a tua memória e os sagrados anseios do povão, justamente aquele povão que sempre reverenciou tua pessoa, prestigiou e foi solidário com o teu trabalho.

Descanse em paz, mô Pombo, até um dia na eternidade e um beijo no fundo do teu coração!

OBRIGADO, “MÔ POMBO”
Carlos Damião – ANCapital de 23/01/ 2004

É difícil escrever num tom impessoal – como recomenda a regra jornalística – quando se trata de reverenciar um amigo, com quem tive o privilégio de trabalhar durante quatro anos e de quem recebi o carinho ao longo de mais de 20 anos. Estivemos juntos há três dias, no enterro de outro Manezinho de primeira hora, o Miro, velho companheiro de tantas jornadas.

Achei que o Aldírio estava meio triste. Mas quem não estaria, naquele clima de comoção que tomou conta de todos durante o enterro do Miro?

A Ilha de Santa Catarina perdeu duas de suas personalidades mais alegres, solidárias e encantadoras num espaço de apenas três dias. O Miro, que andava doente desde 1998 e estava internado havia 19 dias no Hospital de Caridade, não chegou a surpreender a cidade. Todos sabíamos de seu estado de saúde delicado, motivado por uma vida intensa, como bem lembrou outro Manezinho, o Paulo da Costa Ramos (PCR), em sua coluna de “O Estado”. Agora o Aldírio, no vigor de seus inacreditáveis 62 anos (como a tua aparência jovial desmentia a tua idade real, ô istepô), é uma notícia mais difícil de se receber e assimilar.

O que aproximava o Miro e o Aldírio é um termo francês – “bon vivant” – que encontra uma tradução ruim para o português. Dizer que eram “boas vidas” não é o termo correto, porque no nosso idioma essa expressão tem um sentido pejorativo. O “bon vivant” do francês é um sujeito que sabe viver, que vive bem apesar das dificuldades do cotidiano. Miro tornou-se colunista por acaso e engajou-se com seriedade nessa missão, embora vez ou outra se deixasse levar pelas longas noitadas e perdesse a noção de disciplina.

Aldírio planejou sua vida profissional dos últimos anos em torno de uma coluna – primeiro em “O Estado”, depois aqui no ANCapital –, voltada ao folclore, à gozação, ao estado de espírito do Manezinho, que tão bem soube encarnar ao longo da vida. Por onde andassem, das rodas do Mercado Público aos cenários mais sofisticados, os dois mereciam respeito e admiração de todos, até dos mais ferrenhos críticos de suas colunas.

Feitos os paralelos, motivados pela seqüência de perdas, mais duas ou três lembranças do Aldírio. Uma delas: a impossibilidade de dissociá-lo do ANCapital e de uma personalidade que ajudou a construir o suplemento de A Notícia, o português Henrique de Carvalho. Quando chegou à cidade, com a missão de dirigir a sucursal, Carvalho encontrou em Aldírio um suporte fundamental para “entrar no clima” florianópolitano. Tornaram-se amigos inseparáveis, freqüentando todos os ambientes da Ilha, francamente abertos para o generoso lusitano, mediante um simples gesto de Aldírio. Foi por causa do colunista que Carvalho acabou incorporado à condição de Manezinho, com a vantagem de encontrar na Capital muito mais referências físicas e culturais de sua terra natal do que em Joinville, onde viveu até 1997.

Outra lembrança é o Carnaval: vê-lo no comando de nossa festa maior, nervoso, enroscado nos fios das emissoras de televisão, brigando com assessores e técnicos, era a confirmação de que se tratava de um homem sério, que encarava o trabalho com valentia, embora fosse, de verdade, um sujeito boa praça, brincalhão, de bem com a vida.

Sabê-lo morto dói mais no coração dos Manezinhos. É impossível não voltar a se emocionar, apenas três dias depois da morte do Miro, lamentando mais uma ausência, numa Capital que perde sua identidade de forma progressiva e inapelável – de uma maneira que nenhum dos dois gostava – por causa do rápido desaparecimento das referências locais.

Mas valeu a tua luta, Mané! Tinhas convicção de que alguma coisa – um exemplo, uma história, uma paixão, uma pessoa, uma expressão típica – sempre fica na memória da cidade. E como fica, “mô pombo!”

ALDÍRIO SIMÕES
Wilson Libório de Medeiros – em O Estado de 20/1/2004

Corria o ano de 1972, quando em maio, o jornal O Estado passou a funcionar nos altos da Felipe Schmidt, com a nossa nova rotativa fazendo eco com o coral da vizinha Assembléia de Deus.

Foi ali e neste tempo que apareceu no jornal um magrão, alto, de cavanhaque e bem falante, um Manezinho da Ilha – nascera no Distrito de Canasvieiras, ali perto do rio e recém retornado do Rio de Janeiro. Era o Aldírio Simões de Jesus, um bonachão.

Então desempregado, procurou o jornal em busca de emprego. Conseguiu o de paginador, função da qual nada entendia. Rápido no aprendizado, logo dominava as técnicas da função, o que lhe valeu a promoção de chefe do setor.

Mas não era essa a sua idéia quando procurou o jornal, mais tarde ele confessava: “desde o primeiro dia eu queria era ser repórter”. Gostava de esportes, especialmente os amadores, e esta passou a ter por meta: ser repórter esportivo.

Começou, então, a “peruar” o trabalho do Mauro Pires, que também já havia passado pela paginação, e do Mário Medaglia, por sua vez editor de esportes da casa. Com o apoio dos dois, uma colaboração aqui, outra ali, em pouco tempo deixou a paginação e tornou-se um eficiente repórter esportivo.

Sua primeira grande cobertura foi lá pela década de 70, a dos “Jogos Abertos” em Chapecó, onde enfrentamos um incidente e até ameaças por causa de uma matéria sobre o alojamento dos atletas de um município que já não me lembro qual era.

Naquele tempo, um dos meus trabalhos em O Estado era a cobertura do Carnaval, que lhe passei como se fosse uma herança, e que pelo Jesus – como o chamávamos – passou a ser melhor realizada, pois sempre, desde menino, fora um amante do samba e das escolas.

Portador de notável espírito criativo, em pouco tempo motivou e liderou a fundação da “Banda Mexe-Mexe”, criada no Praia Clube e, entre os que o apoiavam, lá estava eu, um dos fundadores e não muito afeito ao Carnaval. Criada aos moldes da "Banda de Ipanema”, que tinha como madrinha Leila Diniz, a nossa “Mexe-Mexe” tinha a Marisa Ramos como madrinha.

Sempre voltado às coisas nossas, criou o “Troféu Manezinho da Ilha”, o programa de tevê “Bar Fala Mané” e colunas em mais de um jornal, nas quais contava hilariantemente, as “manezadas” dos ilhéus.

Bom contador de histórias e estórias era um papo agradável, proporcionando aos seus ouvintes gostosas gargalhadas.

Mas – sempre há um mas – tudo isso chega, agora, ao fim. O Aldírio partiu e se aqui no nosso “mundinho” a alegria foi reduzida, com os surdos batendo em cadência de funeral, lá no andar de cima a bateria deve estar a todo entusiasmo em ritmo de desfile, na vibrante das apoteoses.

Enfim, neste carnaval teremos um folião a menos na nossa passarela, mas, por outro lado, teremos uma inspiração a mais, a de um carnavalesco e manezinho que deixou sua marca na nossa Ilha.

Vá em paz, amigo, junte-se a outros bons que lá se encontram, conte-lhes uma “manezada”, tome mais aquela e cantarole mais um samba, pois a vida continua, sem lágrimas e sem rancores, somente com muito amor, como recomendavas seguidamente.

O HOMEM QUE INVENTOU O MANÉ
Sérgio da Costa Ramos – no Diário Catarinense de 24/01/2004

Ser Manezinho da Ilha já foi ofensa. Urbanos e forasteiros usavam essa desinência para rotular os nativos de sotaque chiado, cujo falar escorregava em elipses e acréscimos, seus esses e zés saindo de uma panela de pressão: se quesh, quesh, se não quesh dish! Era o português açoriano transformado no dialeto Manezês, hoje consolidado no dicionário de Fernando Alexandre – Falar e Falares da Ilha.

Essa era a língua. Faltava alguém sistematizar a alma e o jeito dessa autóctone cuja aura está balizada entre o folclore e a sabedoria popular, pródigas em frases-valises, como “Se é segredo não me contes. Se é intriga, não me digas”.

No texto Com a Ilha na Balaia arrisquei, na apresentação de um livro de Raul Caldas Filho (Oh, Que Delícia de Ilha), pincelar sem antropologês quem seria esse ente conhecido por Manezinho da Ilha, outrora objeto de derrisão, hoje merecedor de uma comenda de Sir, cavaleiro andante da alma ilhôa, a um só tempo rica e humilde.

Primeiro, era necessário perguntar:

– Quem é o ilhéu genuíno, de que gema é feita o Manezinho da Ilha e o Manezinho urbano? De quem teria herdado seu hábito de fazer de tudo um objeto de chiste e a todos perpegar um apelido absolutamente perfeito? Teria esse espírito se materializado na mistura entre o comadrio açoriano e a malandragem carioca?

Em nenhum outro lugar do planeta se completa com tanta picardia a acepção do verbo enticar, açorianamente inticar, que ganha uma nova espoleta na boca do Mané. Inticar: implicar, importunar, aborrecer, aporrinhar, pirracear, mexer com irrisão.

De resto, dizia eu, naquela inútil e improvável tentativa de definir esse generoso matuto, ao mesmo tempo ladino e gozador, naquela inútil e improvável tentativa de definir esse generoso matuto, ao mesmo tempo ladino e gozado:

– O Manezinho é aquele espírito que nutre um profundo sentimento de apego à terra, cultiva a semente do calor humano, exerce o ofício de viver com franciscana tolerância e perfurante senso de humor – tudo isto, cercado pelas duas mais belas baías do Mundo e por duas lagoas recheadas de camarões e camaradagem.

Se há um léxico resumindo os falares ilhéus, haveria também algum arquétipo que representasse em carne e osso esse Manezinho típico, que tanto vestiria a indumentária do Mané praieiro como do Mané urbano?

Aldírio Simões, tão tragicamente desaparecido – e dessa forma tão díspar de seu perpétuo bom humor – foi, sem dúvida, esse Mané manufaturado com o mais legítimo barro da Ilha, e a cujo corpo o Senhor deu vida com um sopro de vento Sul.

Quando esta vida se apaga, com o carpir das personagens fantásticas de Franklin Cascaes e com o pesar daqueles ilhéus simples de Homens e Algas, de mestre Othon D'Eça, é preciso que se diga que Aldírio Simões foi o verdadeiro inventor desse novo olhar sobre o Manezinho – que com ele vestiu a toga dos saberes populares, inaugurando-se a Universidade Manecrata, com título, diploma e troféu.

Foi ele que arquitetou a reabilitação e o upgrade dessa lenda da herança ilhôa, não só eternizando os falares da Ilha, mas a ela acrescentando muito fazeres – assumindo a organização de muitos Carnavais, dirigindo suas instituições culturais e exercendo, no dia-a-dia da existência, a autêntica vida de herói autóctone.

O melhor elogio que se poderia fazer a Vinícius de Moraes, segundo ele mesmo, seria dizer após sua morte: viveu como um poeta.

O mesmo se dirá de Aldírio Simões, que não era apenas um professor de manezismo: vivia com um.

MAIS UM MANÉ NO CÉU
Ricardinho Machado – no ANCapital de 24/01/2004

“Um beijo no fundo do coração”, costumava dizer nas despedidas o fraterno amigo Aldírio Simões. Palavras que jamais vou esquecer em minha existência. Como também fica ressonando em minha volta, ainda nesse momento, incrédulo, quando tentava escrever a coluna após receber a notícia, um imenso petardo, que tristemente vai dilacerando minha alma.

Companheiro de várias jornadas e vizinho “de página”, Aldírio foi o chanceler de todos os Manezinhos da Ilha, outorgados ou não com o troféu que trouxe à tona a verdadeira vontade de se intitular como tal.

Não quero pensar no que houve na cinzenta manhã de quinta-feira, em que os céus já choravam sua tristeza amargurada e solitária na Praia do Sonho. Devo lembrar, isto sim, de sua luta constante na conquista do território ilhéu e suas ilhas turísticas, culturais, folclóricas que conseguiu reunir num arquipélago de nossa mais fluente tradição. No bar – onde os Manés tiveram vez e voz – aprendeu-se que a vida da Ilha “é bonita, é bonita e é bonita”. No “Bar Fala Mane”, os ilhéus aprenderam que a cara da cidade precisa ser preservada e ali, com seu apresentador Mané-Mór, tinha a Ilha sua maior identidade sócio-cultural.

Aldírio Simões se foi, mas seus ditames em prol de nossa terra e nossa gente ficam guardados para a nossa geração e do futuro. E fica mais arraigada ainda com seu triste desaparecimento, como prova de reconhecimento de sua cidade, seus usos e costumes ao autêntico ilhéu que tão bem soube viver nesse “pedacinho de terra perdido no mar”.

A Deus, mais um Manezinho chegando no eterno portal dos céus. À família, aos amigos e seus fãs, segurem na mão de Deus... e vamos. Sempre desejando, como o grande Mané, um beijo no fundo do coração.

AO AMIGO ALDÍRIO
Moacir Benvenutti – em A Notícia, de 24/01/2004

Conheci o jornalista Aldírio Simões na época em que retornei ao território catarinense, depois de ter morado mais de 15 anos em São Paulo, Milão e Rio de Janeiro. Lá pelos idos de 1977.

Naquela época já o admirava pela liderança com que conduzia os assuntos da Ilha de Santa Catarina, nos jornais e na televisão, com destaque à área do Carnaval, onde ele sempre foi um mestre-maior. Nos aproximamos mais ainda quando escrevi os enredos para os desfiles da escola de samba Embaixada Copa Lord, também a sua escola favorita, já na década de 80.

Com a minha ida para o jornal A Notícia, em 1995, criamos uma irmandade entre os jornalistas – ele, eu, Raul Sartori, Ricardinho Machado, Moacir Pereira e Cláudio Prisco Paraíso. E de vez em quando, com a direção do jornal, nos reuníamos, para longos bate-papos e degustação. Íamos noite à dentro, com assuntos sérios e muitas piadas (o forte de suas hilárias estorinhas com os Manezinhos da Ilha).

Aldírio, com a sua Maristela, também compartilhou, com amigos catarinenses, de momentos inesquecíveis em viagens internacionais, lideradas pelo advogado Nestor Lodetti. A última em que participei com eles, foi em 2002, pelo Leste europeu.

Ele sempre soube ser um homem digno e honesto, nascido em berço humilde e que, graças à sua inteligência e caráter, tornou-se um dos grandes escritores de Santa Catarina. Foi sempre um amigo leal e fraternal, como poucos. Lamentável para todos nós que ele tenha tomado a decisão de encerrar sua missão. Deixa muitas saudades e a certeza de que o amaremos pelo que sempre foi e pelo que ele será eternamente em nossas memórias. Adeus, amigo.

MANEZINHO
Jean Hermógenes Saibro – no ANCapital de 25/01/2004

Eu nunca conversei com o Aldírio Simões, mas quase todos os dias sempre via o Manezinho no calçadão ou no Mercado Público. Sujeito simples, cabisbaixo, sempre cumprimentando todos os amigos em uma educação fraternal com a tradicional frase: “fala meu querido”.

Aldírio era um apaixonado por Florianópolis e conhecia, como ninguém, as mil e uma histórias das figuras tradicionais da Ilha, registrando com carinho os causos em sua coluna do Fala Mané.

Esse Manezinho foi colunista, boêmio e um pesquisador de nossa história social, que se destacou em divulgar fatos pitorescos e os registros de uma Florianópolis saudosa que não volta mais. Não perdia tempo com fofocas e não provocava ninguém, vivendo apenas em função do seu saudosismo, sempre valorizando a arte da terra e divulgando os talentos culturais da Ilha.

Esse eterno Manezinho amava a boemia e a mesa de bar. Adorava ouvir os músicos da terra ao som do violão, do trompete e do metal do Mazinho do Trombone.

Aldírio conseguiu concretizar seu sonho com a elaboração do programa Bar Fala Mané, uma referência em comunicação que divulgou a cultura da Ilha em todo o Estado. Com um cenário típico de venda do interior da Ilha, o Manezinho idealizou seu estilo simplista e saudoso. Ao vivo, os catarinenses podiam assistir as entrevistas, os causos, ouvir a música de boa qualidade e também se deliciar com as maravilhas da culinária luso-açoriana, regada a risotos de marisco e camarão e o tradicional pirão com berbigão ensopado.

Aldírio Simões não gostava de gravações. Fazia tudo ao vivo e sem rodeios, o que tornava o programa atraente. A sua pauta era a rua, os bares e as histórias saudosas dos tempos dos saraus, da poesia, dos coretos e da vida tranqüila dos habitantes da Ilha.

Foi dessa maneira que ele se tornou querido por todos e por onde passava deixava um rastro de alegria e de saber, pois sempre compartilhava as informações ajudando quem fazia pesquisa sobre a história da Ilha.

O Manezinho partiu deixando um vazio, uma brecha de solidão e tristeza, mas as histórias que foram registradas jamais se perderão no tempo, pois sua coluna é um referencial importante no jornalismo social e nos acontecimentos que marcaram a vida e a história de muitos ilhéus.

A ILHA PERDE IDENTIDADE
Moacir Pereira – em A Notícia e O Estado de 26/01/2004

Há uma semana falecia em Florianópolis o colunista Miro. Cláudio Hahn da Silva, no registro civil, conquistou o coração de milhares de leitores e amigos pela bondosa alma, pelo caráter e pela simplicidade. Firmou-se, prestigiado e reconhecido, por amar, defender e divulgar tudo o que a cidade tinha de bom.

Era um Manezinho autêntico que se desdobrava em multiplicar relações e viver de forma intensa os eventos sociais e as promoções artísticas e culturais da Ilha. Aqueles que choram sua prematura partida e que não puderam comparecer à comovente despedida estarão hoje na Igreja São Luiz, onde, às 19,30 horas, realiza-se missa de sétimo dia, para a oração coletiva por sua alma e a renovada solidariedade à família enlutada.

Foi uma semana de tristeza e de luto para a imprensa. O inesperado falecimento do jornalista Aldírio Simões não abalou apenas os colegas de profissão que tanto o estimavam. Causou comoção na cidade, como provaram as milhares de pessoas, gente simples dos morros e da periferia, a classe média e as autoridades, presentes no penoso velório da Câmara Municipal.

Como Miro, Aldírio era outra personalidade marcante, igualmente amável com todos, solidário e generoso. Não se cansava de proclamar amor profundo à esposa, à família e à cidade.

Ninguém conhecia tão bem a alma do povo, suas histórias e suas tradições. Alertava com energia para os riscos da invasão alienígena, da destruição sistemática da paisagem bucólica, do avanço incontrolável da selva de pedra, do sufocar das atividades folclóricas.

Nenhum outro fez tanto pela promoção da música popular, dos talentos esquecidos pela mídia centralizadora, das escolas de samba e do nosso carnaval. Escrevia com incontida paixão tudo o que se referia à Ilha de Santa Catarina. Tinha um texto simples e leve, resgatando a memória do povo com uma visão cinematográfica dos cenários e dos personagens.

A ilha perdeu dois porta-vozes. E com eles, parte de sua identidade.

A CIDADE VIÚVA
Fausto Silva – no Jornal O Estado de 29/01/2004

O oriente eterno é o destino irrefutável de todos Nós.

Depositário misterioso em que o exercício da espiritualidade procura respostas, acolheu, recentemente, pessoas desta Ilha, cidadãos que se encontravam diariamente com nossas raízes, sua natureza privilegiada, seu tesouro maior que é a nossa gente.

Aqui, em Florianópolis, lamentando suas ausências, irreverentes que eram na defesa de seu patrimônio natural, ficamos a realizar o rescaldo de suas manifestações em vida.

A lágrima, como bem sabeis, é a gota do humor segregado e deve expressar o verdadeiro sentimento, de alegria ou tristeza. Mas ela pode ser representada sob formas que mostre ou acentue o quanto de fraternal e valor damos aos atos e gestos que praticamos.

Viver em alegria com o cotidiano para Miro e Aldírio. Fazer pessoas felizes, com seus registros que envolviam o real e a fantasia, uma tarefa em que se obrigavam.

Penso, então, que marcaram suas existências com a grandeza do ser simples, cada qual exaltando os seguimentos que lhes cabiam naturalmente na sociedade. E o fizeram com tal abrangência que em suas despedidas, não faltou o reconhecimento de pessoas de todos os padrões sociais.

O que constatamos, então, foi o sentimento de reciprocidade, amplamente exercitado.
É próprio da nossa gente, cativar, dedicar atenção, ser generosa. Mas a realidade é impura e vivemos sobressaltados pela insegurança, pela falta de descortino de dirigentes públicos, de uma política social que contemple todos os níveis da cidadania.

E não estamos escrevendo sobre assistencialismos.

Pretendemos, em verdade, associarmos as virtudes do bem querer, estampadas nos exemplos de dois dos cidadãos mais simples desta cidade grandiosa.

Investir nas pessoas é processo natural que deveria ser prioritário, pois o retorno é rápido e com os melhores resultados.

Dias atrás o Jornal O Estado “O mais antigo” nos apresentou uma página do Miro, em que os registros tinham tudo a ver com a nossa cidade e principalmente com o bem viver de nossa gente. Registros de anos variados, mas recentes, e fechando a página à viagem ao astral entre estrelas e apoiando-se no brilho da lua, por Ele ofuscado.

Quanto ao Chefe Mané, melhor falar com o Maurício e o Alvim, lá no Mercado Público.

Nada me permite discernir sobre a decisão dele ir embora. Exalava, havia algum tempo, o frescor dos ares da praia, a do sonho, como ele vivia.

Era um sonho transformado em realidade, e nele contava a integração dos poucos e dos mais afortunados, do morro com o centro, valorizava talentos musicais, enaltecia pessoas de comunidades e oportunizava a todos com igualdade. Sempre em clima de respeito.

Aldírio “Mané” Simões e Cláudio “Miro” da Silva, exercitavam, ao natural, a educação básica de relacionamento e receberam a reciprocidade dos cidadãos.

Para pessoas com suas referências, só cabe enaltece-las. Florianópolis está viúva.

O CÉU É DOS MANÉS
Cyro Barreto – no Jornal “O Estado” de 30/01/2004

A dor, o sofrimento, a perda, sempre fizeram parte do cotidiano do ser humano. São sentimentos inalienáveis e universais. Todavia, ninguém se dá conta disso e o inconformismo é sempre a tônica dominante, diante dos desígnios imperscrutáveis do destino.

O prematuro desaparecimento do Cláudio Silva (Miro) a quem tivemos a honra de registrá-lo no sindicato da classe, o que na gratidão de suas irmã Cássia possibilitou-lhe exercer a profissão até o fim de seus dias e o trágico desenlace do romântico e folclórico Aldírio Simões, cuja primeira máquina de escrever emprestamos, assegurando-lhe as primeiras reportagens e crônicas de “free-lancer”, confortam-nos diante do “day-by-day”. São lembranças gratificantes a testemunhar que nada foi em vão em todos estes anos em que estivemos a frente dos órgãos de classe.

O desaparecimento de ambos tomou-nos de surpresa e provocou um forte impacto nos meios jornalísticos e na sociedade como um todo, o que para nós da imprensa não deveria constituir-se numa notícia inesperada. Todavia o foi e é válida a reflexão.

A malfadada reforma previdenciária, ainda em tramitação no Congresso Nacional, não impõe somente mais ônus aos aposentados. Ela penaliza todos os brasileiros quando amplia o tempo de serviço necessário à conquista do benefício da aposentadoria. Vai mais longe, quando atinge categorias voltadas as atividades expostas à agentes de natureza física ou química e ao mesmo tempo ameaçam outras categorias que atuam em condições de periculosidade e de tensão psíquica, como é o caso dos jornalistas.

À muitos, por ignorância ou má-fé, escapa a percepção de que nestas condições, a saúde, a parca remuneração, o desemprego e a insegurança no trabalho, ceifam a vida e a sobrevivência de seus familiares, pois a maioria não chega a “melhor idade”.

Nos anos recentes centenas de jornalistas, repórteres fotográficos foram feridos e mortos no teatro de operações de guerra da Ásia, África, Europa e América Latina. Os dados estatísticos são confirmados pela ABI, ANI, FIJ e OJB e aqui em Santa Catarina a situação não é diferente.

Prematuramente desapareceram verdadeiros ícones da mídia impressa e eletrônica. Entre eles Adolfo Ziguelli, Antônio Kowalski, A. Seixas Neto, Oscar Berendt, Beto Stodieck, Celso Pamplona, Rubens Cunha, Lázaro Bartolomeu, Dakir Polidoro, Norton Batista da Silva, Jorge Salum, Amílcar Cruz Lima, Aldo Luiz, Édson Silveira, Elói Galotti Peixoto, Elói Alves, Mário Inácio e José Nazareno Coelho, Alírio Bossle (fundador da Casa do Jornalista), dentre vários colegas que se foram.

Não seria demais aqui parafrasearmos o empresário Osvaldo Moreira Douat ao apregoar que o maior patrimônio das empresas jornalísticas não são suas marcas, mas os nomes talentosos e criativos do seu capital humano, como o Miro que não poupava denúncias sobre as desatenções dos governantes para os problemas locais, tornando-se o “Vigilante de Floripa” e o Aldírio Simões na busca da preservação da nossa identidade cultural e da manecidade ilhôa. Daí, a homenagem póstuma recebida de uma comunidade que sabe ser agradecida a seus ídolos e ícones.

A esses comunicadores sociais de rara sensibilidade e expressão que souberam, como poucos, não se acovardar diante das dificuldades de uma sociedade mais crítica, em crise, contrapondo-se à globalização com a regionalização, as flores lilazes da nossa eterna saudade. Mas, não sem antes imaginar que lá em cima o Bar Fala Mané estará sendo reeditado com a participação do Pedrinho do Pandeiro, as cantorias do Luiz Henrique Rosa, da Neide Maria Rosa, do Zininho, o “bacalhau aos murros” do Henrique Carvalho sob os aplausos do Tupy Barreto, num happy hour “infernal” jamais visto, sob a complacência do Senhor.

FALANDO DO MANÉ
Acácio Garibaldi S. Thiago Filho – no Ancapital de 02/02/2004

O nosso Mané Aldírio, saudosista convicto, lutava diariamente através de sua coluna, para que o tempo não apagasse as histórias da cidade que tanto amava. Curtia muito aquela espontaneidade que se confundia com a ingenuidade que o ilhéu vem perdendo com o crescimento da cidade. Ele não perdoava, tinha sempre uma “tirada” para qualquer um... Se encontrasse um amigo com uma camisa xadrez, sapecava logo um “camisa do Roy Rogers” hein!” referindo-se ao famoso herói de sua infância, aquele que sempre apanhava mas nunca desalinhava o cabelo ou sujava a roupa, nos filmes de faroeste da época em que as matinês eram o programa preferido da garotada. Sem maldade ou xenofobia, provocava aos que vieram morar em Florianópolis, principalmente os gaúchos, mas assim como tinha especial carinho com o folclórico Ire, teve como grande amigo e confidente, o Mané naturalizado Maurício Amorim, que brincava chamando o Aldírio de “Sr. Ratinho” e, em pleno programa Fala Mané, teve a pronta resposta:

“A pinta da mãe!”

Aldírio se eterniza pela simplicidade como escrevia sobre a nossa querida cidade e não se fez de rogado ao descrever o que é ser ilhéu, para o Guia de Florianópolis, e, lembrando os tempos em que só havia a ponte Hercílio Luz, declarou que “ilhéu só atravessa a ponte para comprar pneu!” Mas foi do outro lado da ponte que ele nos deixou para entrar para o time de estrelas Manés, com Luiz Henrique Rosa, com Zininho, com Oswaldo Cabral e com os grandes bruxos Franklin Cascaes e Seixas Neto, entre tanto outros.

Como Aldírio Simões fez, outros tantos conterrâneos também lutam para manter nossa história viva, como o professor Nereu do Valle Pereira, ou Paulo Ricardo Caminha e seus registros fotográficos, ou ainda meu vizinho de infância o sr. Adolfo Nicolich – com seu livro “Ruas de Florianópolis”, o cineasta Zeca Pires e outros tantos que cometo a injustiça de não citar, mas a quem igualmente rendo minha homenagem.

Amigo Aldírio, que Deus o proteja e que os espíritos de luz o acompanhem na sua jornada, que com certeza será facilitada pelos fluídos positivos de tantos amigos dirigidos para quem nos presenteou não só com as histórias alegres e pitorescas, mas principalmente com sua amizade.

SILÊNCIO MANÉ
Celso Leal da Veiga Júnior – no Anexo de A Notícia de 03/02/2004

Aldírio Simões – que poucos sabiam ser de Jesus – calou-se em 22 de janeiro de 2004, justamente quando ocorria, em Florianópolis, o sétimo concurso de boi-de-mamão, no Largo da Catedral. Ele idealizou o Troféu Manezinho da Ilha. Mantinha a tradicional coluna “Fala Mané” no Ancapital. Defensor da cultura açoriana; foi cronista do cotidiano emanado pela Ilha da Magia. Na crônica publicada no dia de sua morte, relembrando o Miro, colega de profissão morto três dias antes, fez uma alusão que agora também lhe serve: “Tão bom que costumava cuidar das pessoas em sua volta e esqueceu de cuidar de si próprio.”

Aldírio soube reunir fatos pitorescos, dando-lhes a moldura amorosa da cidade antiga. Demonstrou a força dos “bailo” e bem caracterizou paisagens de tempos inigualáveis. Dizia “a vida, que bom se tivesse parado. Um só bocadinho”. Tinha encomendado franjas, “coisas de fresco”, para serem costuradas na camisa xadrez ao estilo Roy Rogers com a qual pretendia desfilar no Mercado Público. Ficou a intenção. Agora, época de campeonato futebolístico, Desterro está repleta de “olhos secadores” torcendo contra, enquanto a cidade “passa, quase parando”, pesarosa pela falta daquele que a retratou.

No seu integral amor à cidade, foi voz contrária à emancipação do Norte da Ilha de Santa Catarina. Conhecedor dos jeitos especiais; identificou estórias da “Rua do Pau Come”; no sentimento bruxólico dos nativos autênticos e nos entreveros carnavalescos. Observando o crescimento da Capital, morreu sem ler recente reportagem em revista de circulação nacional que anunciou sua terra como “pólo de migração nos próximos anos: de ricos e pobres”, apesar do município ter novo órgão com a missão de filtrar a chegada de forasteiros e, se possível, mandar alguns deles de volta para casa”. Assim, contra a audácia da bandidagem, o cidadão não poderá vacilar, mas “andar sempre atento, com um olho no padre e outro na missa.”

Um Aldírio, querendo conversar com a lua, desceu até a Praia do Sonho, com a certeza que se sentiria mais próximo dela. Naquela rara oportunidade, vendo a lua surgir “nova, pintada de um deslumbrante amarelo ouro, atrás da Ilha da Fortaleza, entre o Farol de Naufragados e a Ponta do Papagaio”, conversou com o Criador e agradeceu “por estar vivo”. Foi na dita praia que ele obrou seu fim material. Agora, lá de cima, está vendo o “navio Carl Hoepcke atracando no velho cais”. Certamente é mais um protetor da Ilha e do povo, que lhe devem um samba-enredo e outros bons presentes.

MANEZINHO ENCANTADO
NOVA HISTÓRIA DO DESTERRO
(À memória de Aldírio Simões)

Ilmar Carvalho – em A Notícia de 12/02/2004

Minha lira traquejada
De tocar desafinou
E meus dedos calejados
De tocar já se cansou!

Lira: cantiga de origem açoriana, recolhida na Costeira do Ribeirão, Florianópolis.

Palhoça, praia do Sonho, manhã. Dentro da casa, estampido seco, súbito. Neste instante, Manezinho fica encantado, porque é sempre assim que acontece: é rito conforme ensinou o bruxo protetor Franklin Cascaes, em sua última passagem pelo Desterro. Nessa nação Manezinha, tristeza. Só vendo.

* * *

Se a gente pensar bem, nota um misterioso e indefinido lusco-fusco na história das ilhas que ficam perdidamente longe dos continentes. Compositor sensível, afinado com o diapasão desterrense, Zininho referiu-se a esse tema no primeiro verso de seu inspirado “Rancho de amor à Ilha”: “Um pedacinho de terra perdido no mar.”

Alma gêmea de Zininho, o nosso Mané, que em batalha da vida inteira fez os Manezinhos se orgulharem da sua identidade, prepara-se para dar a antiqüíssima versão das origens do Desterro, só conhecida de bruxos mais velhos que o tempo. É que só agora, como recém-encantado, foi-lhe permitido assistir certa reunião lá nas grimpas do Cambirela, com outros seres encantados: sereias estonteantes que salvam quem cai no mar, uma multidão de medusas e magos, feiticeiros e entidades do bem que habitam e protegem a profundeza ignota do território das águas, o ventre abissal da terra e a grandeza inexprimível do espaço.

A reunião termina com a decisão dos bruxos: a de resguardar os homens nesta quadra tão tormentosa, tão opulenta em malignidade.

No momento em que se sucedem no topo do Cambirela vibrações profundas, decorrentes das despedidas das entidades, uma delas, um ancião grave, expressiva bondade no olhar, permanece a uns dois passos do Manezinho, que no instante se assusta. Pousa com firmeza a mão no ombro do recém-encantado e fala com pausa e serenidade:
“Já sei o que queres saber e vou ser breve. Há mais de mil e mil anos, o construtor da terra e dos mundos criou nove ilhas, os Açores, bem distantes do continente. A que era para ser a décima, pelas mesmas forças que emigram as pirâmides do Egito, vieram transportando, através do Atlântico, o pedacinho de terra de que fala Zininho em sua linda marcha-rancho. É que os primeiros colonizadores do Desterro seriam, como foram, os próprios açorianos. Daí a adaptação desse povo, do qual você é um dos milhares de descendentes, ter sido perfeita, conforme o desejo do Construtor. Foi e é essa a história, meu amigo. Pode passar adiante, quando chegar o tempo previsto para o seu retorno. Fica com Deus, como vocês mesmos dizem”.
Nas grimpas do Cambirela, ninguém mais a não ser Manezinho, que no momento sentia firmeza e paz. Olhou por instantes Desterro, as cidades, as luzes e a tênue trepidação daquele começo de noite. Prosseguiu no caminho do encantamento.

Aldírio comanda a entrega do troféu Manezinho da Ilha, em maio de 2003

2 comentários:

Cris Carriconde disse...

Que bom você fez essa homenagem e eu lembro da tua alegria ao ser um Mane agraciado :)

Anônimo disse...

Cesar,

Parabens! Aldirio eh uma saudade permanente.

A tua coluna de hj homenagenado nosso Mane maior, vem confirmar porque meu dia comeca pelo teu Blog.

Mais uma vez, Parabens!


Abs


Pedro de Souza