terça-feira, 23 de maio de 2006

TERÇA

TEMPORADA DE GREVES
Hoje os servidores públicos municipais da capital cruzam os braços pra tentar conseguir a reposição da inflação. Concentram-se (se não chover?) na escadaria da Catedral a partir das duas da tarde.

E os trogloditas do Sinte, cujas demonstrações de desvario estão cada vez mais alucinadas, decerto estão pensando em contatar o PCC para “dar um susto” no governo e na população. Porque, depois de manter 400 pessoas em cárcere privado, há pouca coisa com maior impacto a fazer.

Imagino que os trabalhadores das empresas privadas achem essa movimentação dos trabalhadores do serviço público muito curiosa. Eles parecem viver em outro mundo. No mundo do serviço público não tem falência, não tem concordata, não tem mercado ruim, não tem preço baixo, não tem concorrência dos chineses, não tem, até mesmo, ora vejam só, férias coletivas porque os containeres com a matéria prima tão retidos no porto... por causa da greve dos fiscais.

O PESO DA FOLHA

Boa parte dos líderes sindicais dos servidores públicos parece que ainda não acordou para a realidade concreta do mundo atual: o cidadão não agüenta mais pagar tantos impostos e todo sujeito alfabetizado que saiba fazer as quatro operações matemáticas acaba descobrindo, mais cedo, ou mais tarde, que o número de servidores públicos é muito grande. Claro que nas áreas em que seria preciso ter servidores bem pagos, bem treinados e solícitos, eles estão em falta. Mas nas atividades em que se trabalha pouco, abundam.

THOMAZ, O TEMERÁRIO

Nosso Ministro da Justiça gosta de viver perigosamente. Primeiro, leva pela mão um amigo advogado para apresentar ao acuado Palocci. Corre, com esse gesto, inúmeros perigos, inclusive o de ser demitido. Advogado experiente, atravessa esse mar de suspeitas e mantém-se acima da linha d’água (ou do que seja que esteja banhando o poder atualmente).

Pois na semana passada, sob uma chuva de boatos, de que o inimigo/amigo número um do governo Lula, Daniel Valente Dantas, estaria tentando chantagear os amigos/inimigos, o nosso valente ministro em vez de dar força às investigações da Polícia Federal ou soltar os cachorros, aceita bater um papinho, um tête-a-tête com poucas testemunhas (um senador do PFL e dois deputados do PT).

E depois justifica candidamente o encontro: “o Daniel queria me entregar uma carta”. Não é de espantar?

E os Correios? Ninguém mais confia nos Correios? Agora pra entregar carta precisa ser pessoalmente? Ninguém falou, ninguém conversou?

“A conversa foi absolutamente impessoal”, disse o ministro-kamikaze. Ora, meu Deus do céu, como é que duas pessoas têm uma conversa “impessoal”? Como é que o membro do governo que – suspeita-se – pode ser derrubado se o Daniel Dantas resolver abrir a boca, pode ter, com esse sujeito que os ameaça a todos, uma conversa “impessoal”?

Na “carta”, divulgada para dar veracidade à versão apresentada pelo nosso Ministro, fico sabendo que o Daniel é também Valente. Mas eu não sei de nada. Não me comprometam.

DELÚBIO SEM ESCUDO
Não acredito que ele vá dizer (ou balbuciar) alguma coisa que já não tenha dito (ou resmungado), mas em todo caso não deixa de ser uma atração a mais: Delúbio Soares depõe hoje na CPI dos Bingos sem qualquer proteção do STF.

Como da outra vez, Delúbio pediu penico, mas o Supremo negou todos os pedidos de habeas corpus que o pobre ex-tesoureiro lhe fez. Prova que as coisas estão mesmo mudadas naquela egrégia corte.

O ministro Marco Aurélio Mello, em seu despacho, disse que a independência da Comissão Parlamentar de Inquérito é “condição ínsita” ao bom desenvolvimento dos trabalhos.

Pra quem não sabe o que é “ínsito” e não tem dicionário em casa: o ministro quis dizer apenas que a independência da CPI é condição congênita, inata, ao seu bom funcionamento.

Uma boa notícia, afinal.

(IN) SEGURANÇA FEDERAL
O jornal O Globo pegou o Plano Nacional de Segurança Pública, lançado há quatro anos, com banda de música e serpentina como parte importante do programa do governo Lula e foi verificar o que foi cumprido.

Dos 28 ítens que os autores do programa do PT diziam que eram fundamentais, apenas três foram cumpridos integralmente desde que Lula chegou ao poder. Metade das propostas ainda está em implantação ou foi executada parcialmente e 11 promessas foram completamente abandonadas.

O Fundo Nacional de Segurança Pública (Funseg), de 2004 para 2005 teve uma redução de 28%. Então tá, né?

CANTINHO DOS JORNALISTAS
(FAVOR NÃO ESPIAR.
OS NÃO JORNALISTAS DEVEM PARAR DE LER AQUI.)

PROLEGÔMENOS
Uma das coisas que os jornalistas mais gostam de fazer é falar mal de outros jornalistas e às vezes até deles próprios. Por isso, de vez em quando sinto vontade de falar sobre coisas relacionadas com nossos colegas e com a profissão, mas fico sem jeito porque tem muita gente que não é jornalista lendo a coluna.

Mas agora bolei uma forma inteligente: criei este cantinho e proibi quem não é jornalista de espiar. Portanto, posso falar à vontade, como se estivesse numa mesa de bar, porque ninguém fora da categoria vai ler.

INFORMAÇÃO OFICIAL
Hoje quem vai ficar com as orelhas ardendo são os coleguinhas do Centro Administrativo, que dirigem e mantém a assessoria de comunicação do governo do estado. Eles fornecem material para jornais e emissoras de rádio do estado todo e o material é, em geral, bem aproveitado.

Transformar a informação oficial em notícia é sempre difícil, até porque nem tudo que as autoridades fazem é realmente relevante. Mas de vez em quando é bom a gente dar uma sacudidela nos coleguinhas, pra que eles não se acomodem.

O RÁDIO MUDO
Ontem alguns colegas que trabalham em rádio, no interior, me ligaram pra pedir que eu usasse a coluna pra dar um recado a quem for responsável pelo serviço de rádio do governo: “qualé? tão de férias? quase nada na sexta e praticamente nada na segunda?” Segundo eles, ontem teve uma previsão do tempo. Só.

Não que o pessoal morra de vontade de noticiar coisas do governo, mas ficam preocupados porque aquilo lá tá sendo feito (ou desfeito) com o nosso dinheiro. Um colega, querendo colaborar, até recomendou: “dá uma olhada na Radiobrás, na Rádio Senado, pra ter uma idéia como é que se faz um bom serviço com notícias oficiais”.

Os radialistas que falaram comigo acham que quem prepara o material da rádio do governo tá brincando com eles: “matéria de rádio é uma coisa mais ou menos estruturada, tem abertura, sonora e nota pé de fechamento. Colocar uns pedaços de gravação, como se fosse entrevista e como se desse pra usar, só pode ser brincadeira”.

E tem reclamação também contra a centralização radiofônica: “praticamente só tem matéria, ou pedaço de matéria, com o governador, quase nada das secretarias regionais”.

No site de notícias do governo (pra não falar mal só da turma do rádio), tinha a foto acima, cuja legenda era, ipsis litteris:
“Secretário de Estado de Desenvolvimento Regional em Laguna Pedro Motta Roussenq (D) prestigiou a instalação da Justiça Federal em Laguna, representando o governador Eduardo Pinho Moreira. - Laguna, 22/5/2006 - Foto: Fabrício Faustina da Rosa / SDR-19”.
Tá, agora vocês, que são espertos, me digam, qual dos senhores à direita (de quem?) é o Secretário Regional? E não tem mais nenhuma autoridade na foto?

3 comentários:

Ruy Rohr disse...

Tio Cesar, esta um pouco atrazada, mas como voce inaugurou o cantinho dos jornalista lhe relato fato acontecido no sábado no Palácio da Alvorada em Brasilia.

Lula o nosso Presidente, após posar para as fotos com Roberto Carlos e Alexandre Pires, falou para os fotografos que eles já teriam ganho dia, quando prontamente o fotográfo da AFP, Evaristo Sá respondeu que não havia ganho, muito pelo contrário havia perdido o almoço com sua família. É que a foto tinha sido marcada às 10:00Hs e foi feita somente as 14:00Hs.
Cumprir agenda é uma coisa que nosso mandatário não faz.

Aline Cabral disse...

Oi Cesar,
Adorei o cantinho dos jornalistas!
Agora, por favor, me dá o contato desses teus amigos das rádios do interior! Tô cheinha de novidades pra eles! ; )

Anônimo disse...

Prezado César,

Em relação aos teus amigos das rádios do interior tenho duas ponderações:
1. Deveriam esperar menos notícias do Palácio. Uma produção mais independente seria muito melhor para os ouvintes.
2. Reclamar que só tem notícias com o governador tá certo, embora, e com nosso dinheiro, o serviço de rádio provavelmente esteja a serviço do próprio governador. Mas pedir mais entrevistas com os secretários regionais, aí é demais. A criação das secretarias regionais faz justamente a descentralização do governo (e dos cabides de emprego). Ou seja, a descentralização tem um monte de problemas, entre os quais definitivamente não está a inexistência de um político em cada cidade para falar em nome do governo. Pedir entrevistas com os secretários regionais é pedir muito penico. Depois vêm dizer que na Capital não se trabalha.