sábado, 3 de janeiro de 2009

Essas enchentes...

Tem gente que acha mesmo que essas chuvaradas, com enchentes e enxurradas são coisas novas. Pode até ter alguma alteração climática, mas essas coisas acontecem há muitos anos.

Vou aproveitar o sábado chuvoso e de vento forte, pra contar uma história que vivi no começo da década de 60 (e que acabou entrando aqui no blog na madrugada do domingo). Bem no comecinho. Não posso, assim de cabeça precisar o ano, mas é fácil descobrir: a Auto Viação Santo Anjo da Guarda, de Tubarão, tinha recebido os primeiros ônibus Mercedes-Benz diesel, de cara chata. Brasília era o assunto do momento, não por causa dos seus políticos, mas por causa de sua construção e inauguração. E eu ainda morava em Tubarão (mudei-me para Florianópolis em 1964).

Minha mãe era auditora da Receita Federal (na época chamava-se “coletora federal”) sediada em Tubarão. E de vez em quando tinha que vir a Florianópolis. Às vezes vinha de avião (tinha linha regular, com o bimotor DC-3, da TAC), mas ela não gostava muito de voar. Algumas vezes eu vinha junto.

Nesta vez, em especial, meu pai, que era dentista, tinha ficado em Tubarão e viemos só minha mãe e eu à capital. Aqui moravam tias, primos, primas, tanto do lado dos Valente, quanto do lado dos Macedo. Sempre achei Florianópolis, onde nasci, muito divertida.

Pegamos o ônibus da Santo Anjo para voltar. Lembro que era um ônibus novo, alto, com motor ao lado do motorista. Como tinha uns sete ou oito anos, tem muitos detalhes que não lembro (e posso ter trocado, ao longo dos anos, alguma coisa). Mas lembro que quando descemos o Morro dos Cavalos, o ônibus parou: a reta que se seguia, no vale, estava toda embaixo d'água. Mesmo com toda a altura do ônibus, não daria pra passar. Voltamos até a Enseada do Brito.

Por algum motivo (provavelmente alguma queda de barreira ou outros alagamentos), tivemos que dormir ali mesmo, na Enseada, em casas que, com a cortesia que era hábito naquela época, abriram suas portas para os passageiros do ônibus. Eu estava achando tudo muito divertido.

No dia seguinte, cedinho, fomos de novo até o outro lado do Morro dos Cavalos, pra ver se dava pra passar. Que nada, a enchente continuava. O ônibus tentou avançar o quanto deu, mas não foi muito longe. Passou os primeiros trechos, mas logo adiante havia uma área mais funda. Alguém apareceu com uma canoa e os passageiros foram levados até o outro lado. Lá, embarcamos na carroceria de um caminhão (a viagem estava cada vez mais divertida, eu sabia que nunca me esqueceria daqueles dias), que nos levou até Paulo Lopes.

A esta altura já começava a anoitecer novamente e outro pernoite foi arranjado em casas de família da cidade. No dia seguinte, um ônibus que estava trancado em Paulo Lopes levou-nos até as Sete Pontes, local perto de Garopaba, um baixio com sete pequenas pontes de madeira, que, é claro, estavam todas embaixo d'água. Dali não passava. Mas, do outro lado deste alagamento, estava outro ônibus, que tinha vindo de Tubarão.

Atravessamos de canoa este último trecho alagado e aí acabou-se a parte inusitada da viagem. O resto do trajeto foi normal. Estrada de terra (acho que tinha alguns trechos com a 101 em construção), balsa em Imaruí e chegamos em casa cheios de histórias pra contar.

Enchente nunca me assustou, talvez porque, em Tubarão, desde que me lembro, tinha enchente todo ano. Claro que não eram grandes alagamentos, ficavam circunscritos a áreas conhecidas. Lá em casa (foto abaixo), quase sempre chegava até a garagem e interrompia o caminho que eu fazia habitualmente para a escola (ôba!).

Em 1974 a coisa perdeu a graça, porque ocorreu o grande desastre, em que a água cobriu a casa, que não era mais nossa (como disse, a gente se mudara pra capital dez anos antes). Mas eu estive lá, como repórter, nos dias seguintes à tragédia, e entrei na casa da foto, que ainda estava cheia de lodo, do teto ao porão. Mas isto é outra história.

10 comentários:

Bea Porto disse...

Cesar,
Em primeiro lugar, Feliz Ano Novo.
Depois, um parabéns a você (não sei se ainda tem cincunflexo), pois o texto da enchente por ti vivido foi marcante. É bom mudar o relato vez por outra, porque há dos que pensam que jornalista não tem vida própria..
Abração,
Bea Porto.

jânio disse...

Ave, César.
TAC quer dizer "Tubarão Air Company"?

Carlos disse...

É verdade, César !
As questões das mudanças climáticas decorrentes do aquecimento global devem ser encaradas com seriedade, mas não faz sentido querer ligar as recentes enchentes a esse problema, pois as enchentes por aqui sempre ocorreram e vão continuar ocorrendo.

Anônimo disse...

No Diário do Leitor do DC, Fernando Roos registra sua indignação e descontentamento pelos gastos com a compra de toneladas de fogos de artifício, e afirma que da próxima vez vai pensar melhor antes de enviar donativos para Santa Catarina.
Faz sentido, pois o dinheiro doado, "por uma bondade do Luiz 15" virou mesada para os atingidos, enquanto o governo literalmente queimava dinheiro com foguetório na Beira-Mar !
É que o Fernando não sabia que o gasto dos foguetes foi compensado com a economia de energia resultante do "apagão da virada", em Florianópolis e em Balneário Camboriú ! ksksksks

Anônimo disse...

foguetório q nem foi tanto,pq os da ponte nau estoraraum tds porcausa do apagão,q era acionado pelo notbook...







Marcos

Schneider disse...

Legal, bela história.
César Jones ou Indiana Valente?

Franco Sala disse...

Cesar. Este voo da TAC, meu pai fazia. Tenho fotos no campo de pouso de Tubarão. Mas muito me impressionou a foto. Com a rolagem da barra começaram a aparecer os telhados e num segundo, antes de ver toda, já sabia onde era. Do lado de cá do terreno baldio a casa dos meus avós. É uma foto mais antiga do que eu, que sou de 59, mas essa paisagem ficou imutável por muitos anos. Gostei, reviví. Franco Sala.

Lauro Raphael Dutra disse...

Abença Tio Cesar !!!

Essa história de alagamento ali na baixada do Massiambu é muito interessante e nos faz pensar na presente Duplicação da 101.

Pelo que se observa nos episódios das cheias no sul do estado, os técnicos não estão prevendo os pontos que alagam a rodovia, como o que acontece lá próximo de Araranguá.

Então já podemos imaginar o que acontecerá. O problema serÁ DUPLICADO e sairá muito mais caro para consertar.

marcia disse...

Uma bela história, muy bem contada como só vc sabe fazer (Merece a puxada! X? Tive que conferir no velhíssimo dicionário que sobrou aqui, precisa ver o estado dos demais que estou secando. desembarrando, desgrudando no sol...). Consoladora, em parte. Contudo, este tom doce de aceitação deve-se ao fato de ser só reminiscência de criança, para quem tudo é aventura, festa, felizmente. Quando a casa foi coberta, vc só foi visitar. Não passou por aquilo. Seguramente não estaria assim tão cordato, caso perdesse muita coisa pelo menos uma vez ao ano, e visse o fenômeno "natural" tornar-se cada vez mais grave, a ponto de vc ter como opções demolir sua casa, aterrar o terreno em 3m e fazer outra, para revolta dos vizinhos que ficariam "lá em baixo". Quem sabe mudar-se de vez para o telhado, manter o térreo vazio só para hospedar o barrão, que já apareceu até meia dúzia de vezes num ano, fazer garagem de barco.. Ou enjaular-se num apê, após jogar seu velho amigo cachorro fora, ou comê-lo assado, como fez a mulher do Dali com o coelho deles.

A maioria das pessoas não tem opções. São Pedro e os fenômenos naturais não podem servir de cortina de fumaça (água? barro?) para a omissão generalizada das autoridades em planejamento urbano e ecologia.

Depois que tivermos saneamento básico, que a construção civil dos ricos e dos pobres seja bem fiscalizada e ordenada, que existam praças verdes (não moeda verde), etc, aceitarei a parte realmente natural dos fenômenos. Não podemos achar natural ver pessoas morrer em casas desmoronadas. Veja que tem gente feliz vivendo lá nos países que têm temporada de furacão (com evacuação das cidades, abrigos, planejamento...). Aqui precisamos que os irmãos do norte nos avisem dos nossos ciclones-zinhos e dependemos daquela moça enjoadinha da Band para saber se vamos ver o telhado voando ou se a chuva vai arrasar tudo. Como vc mesmo já contou, é possível saber que vai chover tantos milímetros daqui a pouco no autódromo, mas tem-se deixado milhares de pessoas no escuro, no pânico, crianças sem água ou comida, sem saber se a Arca de Noé já passou, se é o fim do mundo, ou se o sol vai voltar amanhã.

Defesa civil não pode ser bombeiro desfilando de jet sky ou aqueles políticos oportunistas recolhendo pessoas de barco para jogá-las num colégio.

Em vez de estarem planejando gastar milhões do contribuinte no alargamento da praia, em Balneário Camboriú precisamos de ESGOTO! Praças! Ajude aí, já que vc é um César dos Valente.

Anônimo disse...

Com certeza quando passou por Paulo Lopes tomou aquele gostoso café com o Pão fomoso, que por sinal ainda existe, então foi na realidade um passeio forçado e bastante movimentado, não sabendo do risco.
Abraços
Carlos A.B. dos Santos